A Cruzada do Imperialismo

Sobre agressão à Síria, Coréia Popular, Venezuela e Irã.

O que está se desenhando é uma ação por terra em uma guerra de três frentes, na qual o maior vitorioso, independentemente do sucesso, são os EUA (…).

Presidente dos EUA, Donald Trump

Na madrugada de 6 de Abril, a Marinha dos EUA atacou com 59 mísseis Tomahawk a Base da Força Aérea Síria próxima à cidade de Homs. De acordo com o Pentágono, esta ação é uma resposta à utilização de supostas armas químicas contra uma das cidades da província de Itlib, sob o controle do Exército Livre da Síria (FSA). A denúncia partiu dos terroristas vencedores do Óscar de melhor documentário, os White Helmets (“Capacetes Brancos”), e foi confirmada pelo governo turco de Erdogan, que é opositor ao governo Assad e aliado dos EUA.

Alguns pontos a se considerar: em 29 de janeiro de 2013, o jornal britânico Daily Mail escreveu um artigo onde era apresentada uma correspondência que foi tornada pública por um hacker malaio, onde provava que a Casa Branca tinha aprovado a realização de ataques químicos na Síria, com o objetivo de intensificar as ações de uma coalizão internacional contra o governo de Assad. Curiosamente, esse artigo foi retirado do ar, logo após a confirmação da ONU de que a Síria não possui armas químicas, que foram destruídas três anos atrás. Além disso, as áreas onde as fábricas desses produtos se encontram, estão sob controle dos terroristas do FSA. Também curiosamente, o ataque com Gás Sarin, feito na região onde atuam os White Helmets, só atingiu civis e nenhuma baixa entre os “rebeldes” foi registrada. Horas depois do ataque, doze desses terroristas foram detidos na fronteira turca com quilos de Gás Sarin.

Visto que a aliança Síria-Rússia está ganhando a guerra contra o terrorismo e conseguiu aniquilar a Al-Qaeda, isolar o ISIS no inóspito deserto sírio e que é questão de tempo até derrotar os terroristas do FSA, o que Assad, o qual tem se mostrado, assim como Putin, extremamente racional e certeiro em suas ofensivas, ganharia com um ataque químico? Agora, o que o imperialismo ganharia com isso? Um ótimo pretexto. E assim foi: com a “retaliação” norte-americana, o preço do barril do petróleo, o ouro e as ações da empresa que fabrica os mísseis tomahawk tiveram alta imediatamente após o ataque. O ouro acumulou alta de 10% só este ano (2017). É importante sinalizar que a maioria dos especialistas em geopolítica utiliza o preço do ouro como parâmetro para as tendências de conflitos, pois o ouro é uma aplicação segura.

O imperialismo não para por aí: a deterioração das relações já fragilizadas entre EUA e Rússia estão fazendo todas as contradições atingirem um grau crítico. Em Janeiro de 2017, os EUA mobilizaram tanques na Polônia, Romênia e países Bálticos. Os EUA já mobilizaram uma esquadra marinha para o mar da Síria em resposta a entrada de uma fragata russa no cenário. Além disso, um porta-aviões ianque foi deslocado para o mar da Coréia, ao mesmo tempo que se articula uma intervenção imperialista na Venezuela soberana, a partir do momento que as oposição venezuelana entreguista não conseguiu vencer no golpe, nem nas eleições. Nesse sentido, o Golpe de Estado no Brasil joga papel decisivo para a retomada do controle geopolítico norte-americano da América latina. O Governo Golpista de Temer/PSDB exerce uma política externa entreguista e serviçal ao Imperialismo americano. José Serra foi responsável pela abertura do processo de entrega da base aérea de Alcântara (MA) para os Estados Unidos, que poderá ser usada para uma agressão à Venezuela. A medida provisória do ministro da casa civil, Eliseu Padilha permite a venda irrestrita de terras para estrangeiros, portanto ao associar os dois temas, constatamos a iminência de uma presença militar norte-americana capaz de colocar em risco a soberania nacional do Brasil. Mas do que nunca, sinalizamos a importância de derrotar o regime golpista nas ruas. O que está se desenhando é uma ação por terra em uma guerra de três frentes, na qual o maior vitorioso, independentemente do sucesso, são os EUA, que terão uma reativação grande na economia.

O ataque contra a Síria, feito com uma conotação provocativa, foi realizado enquanto Trump recebia o líder chinês, Xi Jinping, em sua mansão, na Flórida. No encontro, era discutido, além de um plano comercial, o que seria feito contra a Coréia (“do Norte”) Popular, considerada uma “ameaça à paz mundial”. O lançamento de 59 mísseis tomahawk seria não só uma violação do tratado com a Rússia e da soberania síria, mas um aviso de que os EUA não teriam pudores em enfrentar a nação norte-coreana, ainda que por conta própria, caso a China não “controlasse seu aliado”. Dias depois, o NSC (Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca), em entrevista à NBC, disse que foi apresentado a Trump “opções para responder ao programa nuclear da Coréia do Norte”, opções estas que incluem instalação de armas nucleares na Coréia do Sul e infiltração de mercenários sul-coreanos e norte-americanos para sabotar o parque industrial norte-coreano. James Stavrids, ex-comandante da OTAN, chegou a propor o assassinato do líder Kim Jong-Un.

Alvo de constantes difamações midiáticas ridicularizantes, racistas e provocativas, a Coréia (“do Norte”) Popular tem mostrado que manter uma política independente, que consegue superar, ainda que com toda a pressão imperialista, todo e qualquer desafio a ela imposta, só é possível com o desenvolvimento de armas nucleares. A provocação de Trump coloca o papel da China enquanto principal aliada do governo de Pyongyang em xeque: ou cede à chantagem e reprova o programa nuclear norte-coreano, o que significaria, no mínimo, fazer vista grossa para os possíveis ataques dos EUA; ou então enfrenta as consequências e segue a amizade entre os dois países o que, nas palavras do playboy novaiorquino, “não será bom para ninguém”.

A agressão Norte-Americana contra a Síria é um ataque à todas as leis do direito internacional: as ações norte-americanas são um ato de agressão contra um Estado e povo soberanos, a Síria. A Carta das Nações Unidas permite o uso de força apenas quando aprovado pelo Conselho de Segurança da ONU. Entretanto, não houve nenhuma decisão do Conselho sobre o caso. Nos últimos 25 anos, com o fim da União Soviética, que impunha um equilibro das forças mundiais, há uma política recorrente de “big stick” que levou à intervenção devastadora contra a Iugoslávia, Líbano, Somália, Iêmen, Granada, Panamá, Iraque, Afeganistão, Líbia, entre outros países.

Lembramos que não há confiança no serviço inteligência dos EUA. Ninguém se esqueceu que, em 2003, Collin Powell, no Conselho de Segurança da ONU acusou as supostas “armas biológicas do Iraque.” No entanto, nenhuma dessas armas, após a invasão dos EUA no Iraque, foi encontrada. E o saldo da guerra foi um país destruído, dividido e com um milhão de mortos. Ninguém esqueceu também do uso de napalm, o desumano e monstruoso “agente laranja”, por tropas estadunidenses, na Guerra do Vietnã. As implicações destes crimes de guerra contra o povo vietnamita afetam até hoje sua saúde, com o nascimento de crianças com má formação, além de câncer na população.

O bombardeamento da Síria mostra que os “humanistas” do governo americano estão infinitamente distante de serem os arautos dos valores cristãos. Sem contar que os EUA, os supostos “defensores da democracia”, apoiam o regime absolutista da Arábia Saudita, que não possui Constituição, e o povo está sob a lei da Sharia (que permite apedrejamento, chibatadas e execuções ao fio de espadas em praça pública aos infiéis).

Sansões econômicas, exercícios militares próximos à fronteiras, bombardeios, financiamento de terroristas, invasões por terra, patrocínio de golpes, fechamento de espaço aéreo e outras medidas que afrontam nações soberanas, não são fenômenos novos. O mesmo pretexto mentiroso, para se destruir uma realidade nacional, já foi usado inúmeras vezes, na suposta luta contra os “ditadores totalitários”, tendo como desculpa a importação altruísta e messiânica da “liberdade” e dos “direitos humanos”. O ataque contra a Síria, ocorrido na quinta-feira, não é diferente em absoluto do que houve no Iraque: um líder “ditador” e “sanguinário”, usa armas químicas contra a população civil indefesa, em uma atitude desesperada, que só mostra o quão imprevisível pode ser. Seria emocionante, se não fosse falso. O “Bombardeio Humanitário”, em 2011, na Líbia, sob ordens da administração Obama, se deu também sob as mesmas condições.

Não há dúvida de que o ato de agressão contra a Síria pelos Estados Unidos, é causado por motivações econômicas e políticas. A Síria possui enormes reservas de petróleo e gás e representa um elemento de desestabilização ao governo sionista de Israel. Todos os países que faziam frente às ameaças de Israel foram sepultados e a Síria apoia abertamente e de forma irrestrita a luta de resistência do povo palestino.

Durante as eleições norte-americanas de 2016, o populismo reacionário de Donald Trump, em oposição ao programa genocida “politicamente correto” de Hillary Clinton, foi visto, inclusive por alguns ingênuos setores da esquerda, como um compromisso real contra o intervencionismo norte-americano que, ao ignorar a ciência histórica, foram vítimas de uma ilusão. No entanto, esta crença em um “progressismo pragmático” do então candidato republicano caiu por terra devido às movimentações imperialistas nos últimos dias.

Não apenas setores de esquerda, mas até mesmo a elite russa apoiou abertamente Trump por seu discurso anti-intervencionista. Porém, já advertíamos: qualquer ocupante da Casa Branca iria prosseguir uma política no interesse da oligarquia financeira internacional. Isto é, independente do ator, imperialismo é imperialismo. Mais uma vez, recebemos a confirmação de que a política externa é determinada pelos interesses do capital financeiro.

Atacado por seus adversários, o presidente Trump procura um motivo para mostrar determinação e enfrentar a Rússia. Até recentemente, na eleição, alegava que não envolveria os EUA em mais guerras e adotaria uma política exclusivamente voltada para questões internas. Logicamente, essa promessa não poderia ser cumprida, pois 40% do orçamento norte-americano é destinado para guerra, ou seja: a guerra é uma política econômica dos EUA.

Para 2016, o orçamento dos EUA fechou em U$3,9 trilhões em gastos e U$3,53 trilhões em receitas, fechando o ano com um déficit de US$587 bilhões. Em 2017, as dívidas com a China já ultrapassam os US$345 bilhões. Dessa receita, US$596 bilhões foram gastos em defesa. Uma das primeiras decisões do novo governo republicano, foi anunciar, em 27 de fevereiro de 2017, um aumento em quase 10% dos gastos militares para o próximo ano fiscal, o que evidencia que o enfoque militarista interventor será o carro-chefe de sua administração, continuando assim a política imperialista de seus predecessores. Visto isso, não nos surpreende o tom agressivo dos EUA nessa última semana.

A ação dos EUA e seus serviçais na Síria é um desafio direto para todos povos do mundo. Este desafio exige, principalmente da Rússia, uma política qualitativamente diferente da dos EUA, baseada na paz e na soberania dos povos, ou entraremos em breve em uma 3° Guerra Mundial explícita. Devemos novamente lembrar que o caos é uma política do imperialismo: cria-se o caos para depois administrá-lo. É necessário discutir novas realidades globais, no mais alto nível, com a participação de todas as forças patrióticas, humanistas e progressistas. Fortalecer os laços comerciais entre BRICS, Ásia, América Latina e África, construir uma alternativa à Bretton Woods e ao Consenso de Washington, ou seja, um mundo multipolar. Fortalecer espaços como ALBA e Mercosul, fomentar acordos com os países da África e criar o Banco da África, entre outros. As massas trabalhadoras destes países, organizadas com uma ação política consciente e emancipatória, devem lutar para fortalecer suas economias, avançar na ciência e tecnologia, construir uma educação de alta qualidade, além de manter e desenvolver forças armadas poderosas de forma a fortalecer o campo anti-imperialista internacional: só assim seremos, no turbulento mar da política mundial, capazes de defender nossos interesses.

Fontes:

http://www.abc.es/internacional/20130531/abci-sarin-siria-201305301816.html

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/201704088103484-gas-toxico-contra-civis-em-mossul/

http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2017-04/estados-unidos-mandam-porta-avioes-para-proximo-da-coreia-do-norte

https://br.sputniknews.com/oriente_medio_africa/201704078093153-daily-mail-artigo-ataque-quimico-siria-eua-plano/

https://www.rtp.pt/noticias/mundo/russia-e-irao-admitem-responder-pela-forca-a-novos-ataques-dos-eua_n994323

https://www.rtp.pt/noticias/mundo/trump-estuda-opcoes-militares-contra-a-coreia-do-norte_n994027

http://brasil.elpais.com/brasil/2017/04/07/internacional/1491599207_714837.html

http://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2016-02/orcamento-recorde-dos-eua-para-defesa-em-2017-atinge-us-583-bilhoes

http://www.independent.co.uk/news/world/asia/north-korea-us-air-strikes-syria-idlib-right-choice-nuclear-weapons-donald-trump-rex-tillerson-a7674381.html

https://www.theguardian.com/world/2013/sep/08/syria-chemical-weapons-not-assad-bild

https://www.cartacapital.com.br/politica/em-segredo-brasil-volta-a-negociar-base-de-alcantara-com-os-eua

http://www.independent.co.uk/news/world/middle-east/russia-iran-us-america-syria-red-lines-respond-with-force-aggressor-air-strikes-war-latest-a7675031.html

https://br.sputniknews.com/europa/201701127406760-brigada-tanques-eua-polonia/

https://br.sputniknews.com/europa/201702037585182-infantaria-eua-estonia-otan-treinamentos/

http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,acoes-de-fabricante-de-misseis-tomahawk-sobem-em-nova-york-apos-ataque-a-siria,70001731084

https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/ansa/2017/04/07/petroleo-e-ouro-disparam-apos-ataque-do-eua-na-siria.htm

http://istoe.com.br/eua-deficit-orcamentario-aumenta-em-2016-a-32-do-pib/

http://oglobo.globo.com/mundo/russia-culpa-rebeldes-por-ataque-quimico-na-siria-21163157

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,com-impostos-maiores-orcamento-dos-eua-preve-us-4-trilhoes-para-2016,1628420

http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/02/1862349-trump-quer-aumentar-em-us-54-bilhoes-orcamento-militar-dos-eua.shtml

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