Golpe de 17 de abril: Um dia que nos fez perder cem anos.

Para todo o mundo foi golpe, menos para a Rede Globo e alguns desavisados no Brasil. O Jornal Voz Operária publica o texto produzido pelo Jornal Pravda, da Rússia, avaliando o processo do Golpe de 17 de abril de 2016.

O RAIO X do GOLPE

Um conluio entre congresso, judiciário, setores econômicos, mídia, midiotas, brics o dedo dos EUA e a incompetência do PT.

Logo após a primeira vitória de Dilma, substituindo Lula, setores da direita no Brasil começaram a desenhar um golpe, no sentido de barrar a ascensão do PT, que com os oito anos de Lula e mais quatro de Dilma, e provavelmente mais quatro de uma segunda eleição, se somaria num total de 16 anos, ainda contando com a provável volta de Lula, com uma eleição em 2018 e uma provável reeleição em 2022, o que poderia se configurar em 24 anos de mando petista, ou seja, quase um quarto de século no poder.

Por tradição, a elite brasileira sempre se posicionou contra as decisões governamentais de favorecimentos às classes populares, como facilidades para entrar em uma universidade, sistema público de (saúde (SUS), programa como o bolsa família e a minha casa minha vida. Médicos, que, por certo, esvaziou, junto com o SUS, os consultórios médicos particulares, todos eles dominados por uma elite burguesa.

O PMDB

O partido apesar de ser o maior, nunca conseguiu eleger um presidente pelo voto direto e quando teve um, foi Sarney, vice de Tancredo, que veio a falecer antes da posse, cuja eleição se deu pela via indireta.

De lá para cá, o PMDB sempre amargou ser um partido de base de sustentação ao governo, com indicações de vários ministérios e estatais endinheiradas.

No governo Dilma, o PMDB- tanto no primeiro quanto no segundo mandato-, chegou à vice-presidência e daí começou a acelerar um processo que lhe permitisse chegar de fato ao poder de comando do País.

Para isso, se alinhou com os setores econômicos, com o judiciário, onde existe uma série de acusações de corrupção contra membros do partido, com a mídia e com forças externas tipo os EUA, que nunca viu com bons olhos países fortes e independentes na América Latina.

A CRISE ECONÔMICA

Desde a posse de Dilma no segundo mandato, que o Congresso (Câmara e Senado) procurou, de todas as maneiras, engessar o governo eleito democraticamente com mais de 54 milhões de votos, não aprovando nenhuma das medidas enviadas ao parlamento, no sentido de fazer frente a uma crise econômica que já vinha tirando o sono de vários países do mundo.

Com o apoio dos outros partidos como o DEM, PPS, PP, o evangélico PRB e PSDB, todos passaram a fustigar o governo, sendo que o PSDB teve o seu candidato Aécio Neves derrotado por Dilma: eles juntaram-se ao PMDB e daí por diante começaram a desfilar um rosário de acusações contra o Partido dos Trabalhadores, como corrupção na Petrobras e etc.

A corrupção, na maior estatal do país, existe desde a sua fundação por Getúlio Vargas, sendo que foi no próprio governo do PSDB, com Fernando Henrique Cardoso, que a maioria dos acusados de corrupção foi nomeada.

Os partidos da oposição e até mesmo os da base aliada ao governo, procuraram de todas as maneiras fomentar uma situação em que pudessem retirar do cargo a presidente eleita e aí fizeram alianças com o judiciário e setores financeiros, que não viam com bons olhos as ações do governo pra a valorização dos trabalhadores, como carteira assinada para as empregadas domesticas e etc.

O governo do PT, desde que chegou ao poder, desaprendeu a dialogar com as massas e também não fez nenhuma ação para organizá-las para uma eventual queda de braço com a elite burguesa e de direita no país, como fez Chávez na Venezuela, que organizou as massas menos favorecidas e, sempre que a direita vai para as ruas protestar contra Maduro, as massas chavistas vão para as ruas em defesa do governo.

No Brasil o governo do PT entregou a sua comunicação a jornalistas ligados a Globo como Helena Chagas, que era da equipe do Jornal Nacional, ou figuras da revista Veja, pois assim acreditava que teria uma certa paz desses veículos, e o que se viu foi justamente o contrário.

O governo errou em não mostrar para o povo brasileiro que a crise aqui era uma crise criada e manipulada para enfraquecer o governo e levar o país ao caos, forçando uma renúncia da presidente, ou até mesmo um golpe, como realmente foi feito.

Criaram uma assombração com os 11 milhões de desempregados, como se isso fosse de responsabilidade total do governo, e não da conjuntura internacional e das ações do juiz Sergio Moro, empastelando as principais empresas de construção civil, o que provocou a demissão de centenas de milhares de trabalhadores.

Bastava o governo apresentar alguns dados para desmascarar esta afirmativa. Por exemplo, a Espanha que tem 46 milhões de habitantes, tem mais de dez milhões de desempregados, o Brasil com uma população de 200 milhões tem 11 milhões e perguntar: quem está em pior situação?

Outros países com a Grécia, Itália, França, Portugal, e o próprio EUA estão passando por sérias crises econômicas, sendo que os norte-americanos estão a provocar conflitos pelo mundo no sentido de alimentar a venda de armamentos das suas inúmeras empresas.

O PT se omitiu, e cada vez mais a mídia fortalecia a idéia de que lá fora era um mundo maravilhoso e que o inferno era aqui, apesar de nenhum banco ter quebrado e nenhuma grande empresa ter sido fechada.

MORO E A CONSTRUÇÃO CIVIL

No Brasil a construção civil sempre foi o maior empregador e aí entrou o papel do Moro.

Esse juiz, cujo pai foi presidente do PSDB no Paraná, a mulher dele é advogada da Shell e ele muito simpático aos Estados Unidos, começou a incriminar os executivos das grandes empreiteiras como Odebrecht, OAS, Camargo Correia e outras. A todos, arrumou um jeito de condenar os seus principais executivos, levando todos à cadeia, de onde saíam e saem através de delações premiadas, onde tentam chegar a Dilma e Lula.

Moro engessou as empreiteiras, que tiveram que parar as obras que estavam acontecendo, e ficaram proibidas de assinarem qualquer contrato com o governo, a elas não restando alternativa a não ser demitir milhares e milhares de pessoas, o que de certa forma atingiu em cheio as empresas fornecedoras, que também tiveram que demitir e daí chegou facilmente a esse número de 11 milhões de empregados.

Com o empastelamento das empresas construtoras brasileiras, se deu o avanço das empresas norte americanas no Brasil, sendo que elas também participaram de doações de campanha a políticos, mas o juiz Moro preferiu desconhecer isso. Elas que sempre perdiam concorrências no Brasil e pelo mundo para as empresas brasileiras, agora com a ajuda de Moro, estão livres para atuarem no Brasil e no exterior.

Essa facilidade das empresas norte americanas e a anglo holandesa Shell, levou Moro a ser homenageado pela Revista Times como uma das personalidades mundiais do ano.

JUDICIÁRIO

O judiciário é parte do golpe, e está a postos para não aprovar nenhuma solicitação do governo Dilma e arquivar qualquer denúncia contra membros dos partidos golpistas. Seis ações enviadas ao supremo pelo ministro Janot contra o senador Aécio Neves, candidato do PSDB a presidência da republica e derrotado por Dilma. As ações caíram todas em mãos do ministro Gilmar Mendes que as arquivou.

A Ministra Rosa Weber é tia da mulher do Aécio Neves e, junto com Gilmar Mendes, estão sempre a criar situações para incriminar o governo petista e arquivar as denúncias contra os golpistas.

O supremo barrou a indicação de Lula para Ministro da Casa Civil, alegando que ele estava sendo investigado pela Lava Jato, mas esse mesmo supremo não barrou os sete ministros indicados por Temer que, também como Temer, estão sendo investigados pela Lava Jato.

TIRAR LULA DA DISPUTA

A elite burguesa e conservadora do país teme que Lula possa ser candidato em 2018: ele seria imbatível e assim procuram, a todo custo, uma maneira de prender o ex-presidente, que mesmo livre, mas impedido por alguma acusação e com a “ficha suja”, não poderia se candidatar, mas fora da prisão, quem ele apoiasse, com certeza ganharia as eleições. Isso faz tremer a elite burguesa e a própria Rede Globo de televisão, cujo contrato de concessão da TV vence em 2018 : por pressão popular, com Lula no poder ou alguém que ele apoiou, possa revogar a concessão.

Visando se proteger de problemas futuros em relação à renovação da concessão, a Rede Globo está empregando filhos de ministro do Supremo, no sentido de ter a proteção daquele poder.

O Juiz Moro trabalha diuturnamente no sentido de atingir Lula com as “delações premiadas”, que mesmo sem as devidas comprovações, poderiam incriminar Lula, na base das “evidencias”, como aconteceu com o ex-ministro e líder petista José Dirceu, que foi condenado a 20 anos sem provas concretas, simplesmente porque o juiz entendeu que ele sabia e participava de tudo que acontecia na Petrobras, já que abaixo do presidente Lula, era o homem mais importante do governo.

As ameaças de prisões a figuras do PMDB, não passam de uma armação para o judiciário mostrar que a justiça é para todos e não para um grupo seleto, que é o que vem acontecendo principalmente com membros do PSDB que estão em todas as delações, e até agora nenhum foi preso e muito menos chamado para depor.

Na tentativa de levar Lula coercivamente para depor, há alguns meses atrás, os golpistas sentiram que o país pode entrar em convulsão e assim, vem preparando a população para uma provável prisão do ex-presidente, que seria a maneira de retirá-lo da cena política.

BRICS

Existe, por parte dos Estados Unidos, o interesse em desestabilizar todos os países que fazem parte dos BRICS.

Os americanos veem no grupo formando pelos cinco países, uma ameaça à sua economia no mundo, pois os BRICS tem a metade da população do planeta e representa 46 por cento da economia mundial, com a Rússia e a China fazendo negócios sem usar o dólar.

Os Estados Unidos estão a semear conflitos em várias partes do mundo o que, de certa forma, movimenta a sua economia e assim, age para desestabilizar os países que formam os BRICS. Esta à vista os problemas que estão criando com a Rússia, África do Sul (tentaram um impedimento, para derrubar o presidente), financiaram manifestações em Hong Kong de estudantes contra o sistema de eleição do administrador, e se espera que a qualquer momento se inicie um conflito entre Índia e Paquistão.

No Brasil, algumas entidades norte-americanas como a Fundação Ford e a Fundação Rockfeller, usando ONGS de fachada, injetaram milhões e milhões de dólares em grupos como MBL, liderado por um descendente de japonês.

Esse grupo, com ajuda norte americana, tratou de aliciar jovens brasileiros de classe média, que foram para as ruas engrossar os protestos contra Dilma.

No governo golpista, já está em andamento um projeto no senado para entregar de vez a exploração do Pré-Sal para grupos estrangeiros liderados pela Chevron e Shell, como existe também ações no sentido de privatizar o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, duas centenárias instituições financeiras muito presentes na vida dos brasileiros.

O DESGASTE DE TEMER

Temer, como presidente interino, nomeou sete ministros investigados pela Lava Jato. Ele também é denunciado em varias delações de executivos presos como recebedor de dinheiro desviado da Petrobras e de empresas ligadas à estatal do petróleo.

Do governo interino, três ministros já tiveram que deixar o cargo por conta de vazamentos de delações que correm em segredo de justiça, onde várias denúncias circulam afirmando que o PMDB recebeu dinheiro para a campanha política.

Um detalhe. Todos os denunciantes foram indicados ao cargo pelo PMDB de Temer.

Alguns analistas acreditam que a segunda parte do golpe está em marcha, que é a cassação de Eduardo Cunha pela Câmara e de Renan Calheiro no Senado, todos envolvidos em denúncias de corrupção, contas secretas em bancos suíços e em paraíso fiscais.

Com os principais quadros do PMDB fora do poder, o presidente interino ficaria sem forças para governar, e ai o congresso, pela via indireta, elegeria um novo presidente que seria o paulista do PSDB José Serra, hoje ministro das relações exteriores. Serra, por duas vezes, tentou pela eleição direta ser eleito presidente da república, e em ambas foi derrotado, uma por Lula e outra por Dilma.

(Postado originalmente em 26 de junho de 2016 no pravda.ru)

http://port.pravda.ru/cplp/brasil/26-06-2016/41240-golpe_brasil-0/

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