Depoimento de Camila Santos, moradora do Complexo

O jornal Voz Operária publica o depoimento da moradora e liderança comunitária Camila Santos, que relata a violência do Estado, que culminou com a morte de 3 jovens nos últimos 2 dias, no Complexo do Alemão: Bruno de Souza, 24 anos, militar do Exército; Gustavo Silva, 17 anos, e Paulo Henrique, de 14 anos.

“São 32 anos de complexo do Alemão, mas os últimos 6 anos e 5 meses foram os piores da minha vida.

Lembro que, em novembro de 2010, aguardava ansiosa pelo primeiro ano de minha filha e cheguei acreditar, sim, que ela viveria num complexo do Alemão melhor do que eu vivi.

Me enganei completamente: eu e minha família estamos testemunhando e sendo vítimas de uma guerra feita em nome da paz, mas que mata muita gente.

Não nos fazemos de vítimas: o Estado nos coloca nesse lugar. Foram décadas de abandono, e só fomos lembrados no momento em que o Estado viu que podia lucrar em cima das nossas desgraças.

Nossas crianças não podem ir à escola, – os tiroteios são sempre na hora da entrada ou saída, muitos professores também não querem dar aula em área de risco. Esperamos meses e até anos por uma consulta médica, e bem no dia que conseguimos, não podemos ir, pois o morro está em guerra. Atiram nos transformadores e a Light não sobe para consertar, enquanto não se sentem seguros. Falta água e ficamos sem luz: as bombas não funcionam e não chega água em muitas partes do morro. Ficamos sem transporte: os ônibus param imediatamente de circular. E o tal teleférico?

Desculpa para desviar dinheiro público. O Estado nunca quis fazer nada por nós, porém estávamos dando conta do recado, e isto não agradava o poder público. Acredito que, para acelerar o processo de fim das favelas, instalaram esse processo falido de pacificação aqui. Não estavam mais produzindo mão de obra barata, os favelados, cada vez mais, invadindo as faculdades, sendo tomados de conhecimento: conhecimento que é libertador. Resolveram por acabar com a Favela de verdade:

Nós não desistimos.

Seguimos sobrevivendo, lutando e resistindo. Infelizmente, não temos peito de aço e não somos super heróis.

Está muito difícil.

Está complicado sobreviver aqui. E não é por falta de querer. É por que o ESTADO não deixa.”

Camila Santos, Liderança comunitária do Complexo do Alemão, luta pela conquista da moradia, após o despejo ilegal de 500 famílias da Favela da Skol.