Indicação de livro: 'O Pensamento Africano no Século XX'

“Para nossa realidade brasileira, que, uma vez mergulhada no capitalismo dependente (assim como nos países africanos), que possui uma burguesia que não pensa em nenhum tipo de bem estar para o seu povo (assim como nos países africanos), a troca de conhecimento se faz essencial. (…)”

A África é um enigma para os brasileiros. Por um lado, é um continente, cheio de países e povos que quase não temos contato. Por outro, é a “Mãe África”, nossa matriz, parte de nossa ascendência e construção social. Sabemos que devemos respeitá-la, e, se possível, conhecer o máximo possível sobre. Da história da África, milenar, sabemos mais, infelizmente, sobre o contato dos africanos com os europeus e a diáspora, quando foram trazidos a força para o continente americano como mão de obra escravizada.

Por outro lado, desconhecemos quase que completamente a rica produção filosófica, histórica e revolucionária dos homens e mulheres da África do século XX. O livro “O Pensamento Africano no Século XX”, organizado pelo professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), José Rivair Macedo, surpreendeu não apenas o público como os organizadores e autores da obra. Em pouco tempo, a primeira edição esgotou e foi impressa uma nova leva de livros. Disponível pela Expressão Popular, o livro trata de uma série de pensadores africanos que fizeram o século XX.

O livro é divido em três partes. Primeiro, trata-se da constituição do pensamento, chamado de Negritude, de valorização do negro enquanto ser humano pensante e dotado de cultura tão valiosa para a história da humanidade quanto a cultura branca europeia. Nestes capítulos, são trabalhados os pensamentos de Lépold Sédar Senghor, filósofo que viria a ser presidente de Senegal de 1960 a 1980, além de Cheikh Anta Diop e Joseph Ki-Zerbo, importantes historiadores e políticos.

Na segunda parte do livro, trata-se do momento em que os africanos decidiram levantar-se de uma vez por todas contras as metrópoles europeias: trata-se da Revolução Africana. Contra o colonialismo imposto pelos países europeus, temos reivindicados pelos autores do livro os grandes revolucionários Kwame Nkrumah, de Gana, Frantz Fanon, natural das ilhas de Martinica, mas morador e combatente pela Argélia, e Amílcar Cabral, líder do processo revolucionário de Guiné e Cabo Verde.

A terceira parte do livro reflete justamente sobre este mundo que os revolucionários construíram, a de uma África pós-colonialismo. Os locais de conhecimento, como o CODESRIA (Conselho pelo desenvolvimento da pesquisa em ciências sociais da África), sediado em Senegal, além de novos pensadores, como Paulin Hountondji, Valentim Mudimbe, Achile Mbembe e Severino Ngoenha são apresentados e explicados ao leitor.

Frantz Fanon

Agora temos em mãos uma obra que pode servir para a primeira aproximação do público com um conhecimento que por si só já se pensa diferente. Um conhecimento que no primeiro momento pensa em como vencer a terrível mente europeia que desvaloriza o negro, num segundo momento quebra as correntes e pensa na revolução socialista e num terceiro momento depara-se com um novo mundo pedindo para ser re-interpretado a partir de outras óticas.

Para nossa realidade brasileira, que, uma vez mergulhada no capitalismo dependente (assim como nos países africanos), que possui uma burguesia que não pensa em nenhum tipo de bem estar para o seu povo (assim como nos países africanos), a troca de conhecimento se faz essencial. Certamente, se precisamos resgatar Simón Bolívar, José Martí e Mariátegui para a revolução latino-americana, porque também não buscar algumas respostas nos pensamentos de Frantz Fanon, Kwame Nkrumah e Amílcar Cabral?

Fica o convite!