A exclusão do negro da vida política

Muita gente acha que o racismo é um preconceito como outro ou uma espécie de “bullyng”. Mas, o racismo é muito mais que um preconceito, permeia todas as estruturas da sociedade, não há como ser resolvido apenas com a sua criminalização, e tem afasto o negro de todas as estruturas de poder.

A política do Estado brasileiro para os negros sempre foi o extermínio.

Enquanto aos imigrantes foram doadas terras, créditos, lugar no mercado de trabalho capitalista e tantos outros incentivos possibilitando sua subsistência e até mesmo a ascensão social de muitos deles, ao negro foram destinados a exclusão, o sistema punitivo e o genocídio.. A falta de politicas públicas e estruturais capazes de reparar todo o prejuízo racial que segue sendo provocado até os dias de hoje retiram do negro todas as possibilidades de participação na vida pública, Pois nossos tempos e esforço se vão na luta pela sobrevivência sendo extremamente difícil participar de movimentos sociais.

Além de enfrentar todas essas dificuldades, o negro ainda precisa lidar com todo o racismo existente nos meios de militância. Levantamentos feitos por nosso coletivo durante três anos seguidos mostram que a maioria das pessoas que sofrem acusações morais sendo expostas ou expulsas de movimentos sociais são homens negros. Como pode, sendo minoria nesses espaços, serem os homens negros os que mais sofrem acusações? Só o racismo explica.

Todo esse conjunto de coisas faz a participação do negro na política ser uma raridade. A presença negra no congresso é de apenas 4%. Nenhum dos 35 partidos registrados no TSE tem negro ou negra como presidente. Não há ministros nem governadores de estado negros. Nenhuma demanda do povo negro, como a necessidade de se acabar com o genocídio racial, é levada adiante. Já as pautas que legitimam o peso do sistema punitivista seletivo estatal sobre o povo negro são sempre reforçadas. A cada dia novas leis penais são propostas tanto pela direita quanto pela esquerda.

Nos meios militantes, muita gente pensa que o aumento da participação dos negros na política é uma simples questão de representatividade ou uma pauta “poli classista”, como se houvesse um setor organizado de burguesia negra na sociedade! Para se perceber que isso não é real, basta constatar que os 54 bilionários brasileiros são homens e mulheres brancas ! Na verdade, muito mais do que uma simples “representatividade, o aumento da participação negra junto com as demandas do povo negro mudariam por completo a política nacional e as prioridades estatais.

Cerca de 55%da população é negra. Portanto, não somos uma minoria. Somos uma maioria minorizada por uma estrutura social e de poder racista que existe até mesmo dentro dos movimentos organizados. Movimento como CUT , CTB e UNE nunca tiveram presidentes negros ou negras. O que mais influencia as centrais sindicais são as categorias brancas funcionários públicos, bancários, professores…. Já as categorias predominantemente negras como camelôs, garis e empregadas domésticas possuem pouca ou nenhuma a paridade nos movimentos sociais. Paridades nesses movimentos tem sido uma prática voltada apenas para mulheres, mesmo sendo brancas, segmento que tem o dobro da participação política dos negros.

Não por acaso, quando esses movimentos se propõem a debater “violência” ou “opressões” apoiam entusiasticamente leis penais que reforçam a mão repressora do Estado seletivo racista. Isso cria aberrações como, por exemplo, a de termos uma lei do “feminicídio” em um país em que a chance de um homem negro ser assassinado é 28 vezes maior que a de uma mulher branca. O negro é sempre o principal alvo da violência, mesmo em se tratando de violência doméstica. Isso sem falar nos linchamentos. No centro do Rio de janeiro, todos os dias pelo menos um negro é agredido. Mas, nada disso é noticiado e sequer comove as pessoas que já estão acostumadas a esse estado de coisas. O debate sobre violência, quando feito na esquerda, sempre se dá de maneira a relativizar ou secundarizar a violência sofrida pelo negro e, invariavelmente, leva à defesa de mais e mais leis penais ou reforço do aparado repressor do Estado. O que, reforça ainda mais o genocídio negro.

Por esse motivo, é inadmissível que os movimentos organizados não adotem o sistema de paridade racial em todos os seus fóruns. A estrutura da dominação de poder político no Brasil tem como principal pilar a segregação racial. Essa estrutura se reflete em todos os espaços, inclusive movimentos sociais. Portanto, nos movimentos organizados qualquer cota ou paridade que não seja racial, é uma medida reacionária, pois invisibiliza o real problema. Paridade racial em t todos os movimentos e o aumento de políticas públicas de inserção do negro nas estruturas de poder são medidas urgentemente necessárias.

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