100 anos da Revolução. A revolução russa foi o primeiro grande desafio claro ao sistema capitalista

Hoje, dia 7 de novembro de 2017, comemoramos o centenário da Revolução Russa. A Revolução Russa de 1917 é considerado um momento decisivo na história, e bem considerada por historiadores como o maior acontecimento do século XX. Ela constituiu o primeiro desafio claro ao sistema capitalista. 47 anos antes, na Comuna de Paris (1870/71), trabalhadores franceses tentaram criar o primeiro governo operário, porém foram esmagados por uma brutal repressão combinada entre o Exército Francês e Prussiano. No caso russo, a explosão da revolução, no auge da Primeira Guerra Mundial, e em grande parte por consequência dela, foi mais do que uma coincidência. A primeira guerra mundial desfechou um golpe mortal na ordem capitalista mundial, tal como existia antes de 1914, e revelou as mais profundas contradições do sistema.

Mapa mostra os Impérios no início do século XX. Com a 1°GM, diversos Impérios ruíram: Império Russo, Chines, Austríaco, Alemão, Otomano entre outros.

A VIDA NA RÚSSIA ANTES DA REVOLUÇÃO.

Embora a Revolução de 1917 tenham significado mundial, suas raízes são determinantemente russas. A imponente fachada da Monarquia Czarista (Czar era o nome dado ao Imperador russo) escondia uma economia rural atrasada, com gigantesca concentração de terra e desigualdade social, gerando um campesinato faminto e inquieto. Depois de 1890 a industrialização começou, levando a ascensão de uma classe burguesa dona de bancos e indústrias, muitos desses vindos da nobreza czarista, levou a formação de uma classe capitalista cada vez mais rica e influente na política russa, porém dependente do capital estrangeiro Inglês, Frances e Americano e sócia da monarquia Czarista.

A industrialização também fez surgir uma massa operária, cada vez mais numerosa. No desejo de ganhar dinheiro rapidamente, empregando um mínimo de capital para conseguir o máximo de lucro, os capitalistas instalavam suas fábricas sem nenhum cuidado com os prédios. Em qualquer casa velha ou velho galpão sem luz, abafado e sem instalações sanitárias, eram os operários obrigados a trabalhar pelo menos 12 horas diárias. Os salários eram baixíssimos. com a guerra entre Japão e Império Russo (1904/05), a Rússia foi atingida por uma profunda crise econômica. Os preços da alimentação subiram cada vez mais, e o nível da vida do operário era praticamente na miséria. Porém, toda essa condição de trabalho era suportada, pois a perda do emprego significa miséria ainda maior.

As condições de moradia dos operários russos eram terríveis. Tendo surgido bairros e cidades inteiras de repente, sem nenhuma planejamento, sem instalações saneamento básico e higiene, não havia lugar para os operários vivessem dignamente. A precariedade das condições de moradia levavam a grande maioria da classe operária a sofrer com péssimas condições de saúde, a tuberculose e as doenças infecciosas faziam milhões de vítimas anualmente.

Idosos camponeses pobres russos no final do século XIX. Notem nas roupas rasgadas e os pés descalços durante o frio russo.

O MOVIMENTO OPERÁRIO NO IMPÉRIO RUSSO COMEÇA A SE ORGANIZAR

Para desespero da classe burguesa, os trabalhadores não se deixam morrer de fome e sempre resistem contra as desigualdades impostas pela classe dominante. Ainda durante a década de 1890 ocorreram as primeiras greves e surgiram os primeiros sindicatos de trabalhadores rurais e urbanos. Esses acontecimentos refletiram-se, em 1897, na criação do Partido Marxista Russo dos Trabalhadores Socialdemocratas, onde estavam organizados Lênin, Stalin, Martov e Plekhanov.

Em 1905, ocorreu uma revolução, conhecida pela expressão de grande ensaio geral de 1905, este movimento revolucionário foi decorrente da crise e da grande insatisfação popular, como fator desencadeador, a derrota do Império Russo frente o Império do japão na guerra de 1904/05. No dia 9 de janeiro de 1905, trabalhadores em greve e suas famílias, liderados pelo padre ortodoxo George Gapon reuniram uma multidão com milhares de pessoas. Ao chegarem no Palácio de Inverno em São Petersburgo (na época capital do Império), o povo russo foi fuzilado pela guarda do Palácio, no chamado domingo sangrento. Nesse episódio ocorreram centenas de mortos é foi um fato significativo, pois revelou para a maioria do povo russo como a monarquia “dialogava” com as massas trabalhadoras.

Dias depois do domingo sangrento, os marinheiros do navio de batalha Potemkin se revoltaram diante das condições desumanas e injustas que eram tratados. A gota d’água foi a tentativa dos oficiais de lhes dar carne podre para comer. Em seguida, começa uma revolução que depois se espalhará por toda a Rússia.

ORGANIZAÇÃO DO REGIME CZARISTA

O regime político czarista era ditatorial. Não haviam as mínimas liberdades individuais presentes numa República de padrões liberais. Os processos civis era julgados em Tribunais Militares, que executavam penas de prisão, morte ou de exílio. A censura à Imprensa era constante. A educação era um privilégio dos ricos burgueses e nobres, sendo rigorosamente controlada pelo Regime.

Nenhum órgão de Estado era eleito: conselhos de ministros e governadores de províncias eram nomeados diretamente pelo Czar. O Czar governava através de decretos. A partir de 1905, pressionado pela revolta popular, o Czar foi obrigado a aprovar a formação da Duma Imperial (Uma espécie de Congresso Nacional). Mas as fraudes constantes na eleição, e a constante ameaça e boicote do Governo Imperial faziam a Duma mero fantoche do Czar.

O Exército, apesar de numeroso era eficiente apenas na repressão aos camponeses e operários revoltosos. Os massacres contra nacionalidades não russas (haviam cerca de 100 grupos étnicos, que falavam 80 línguas) Ficavam ao cargo dos Cassacos, regimento especializados em reprimir revoltas populares.

A Igreja Ortodoxa era fortemente influenciada pelo Estado, sendo um pilar de sustentação do Regime. A Igreja era responsável pelo ensino e em entreter o povo nas praticas religiosas, pois o regime czarista não se mantinha apenas na repressão.

O Poder da nobreza mantinha-se na área rural, onde a concentração de terra praticamente mantinham as condições de servidão dos camponeses. A nobreza ocupava todas posições de destaque no Exército, burocracia do Estado e governo.

O processo de industrialização dependente do financiamento de bancos estrangeiros, produziu uma burguesia atrelada ao Imperialismo inglês e francês, sendo fortemente tutelada e sócia da nobreza czarista.

Foto da nobreza russa em 1916, em um luxuoso banquete, logo após aprovar uma lei de contenção de alimentos para a população (tirar alimentos do povo e enviar para os soldados que lutavam na guerra).

PRIMEIRA GUERRA E O FIM DO IMPÉRIO RUSSO

Em 1914, todo o povo da Rússia nutria total ódio contra seus dirigentes e derrubar o czarismo era para ele um dever tão sagrado como defender o país. O povo foi a guerra, mas a derrota na guerra fez condenar o regime.

Desde 1905, os revolucionários russos se encontravam divididos. O início da 1°GM, jogou uma nova divisão dentro do movimento. Os Partidos Socialdemocratas da Europa acabaram por apoiar seus respectivos governos na entrada da guerra imperialista. Isso, transformou o campo de disputa do movimento operário mundial. Forçando realinhamentos e reagrupamentos, Lênin lutou firmemente contra a guerra imperialista, tentando reunir socialistas contrários a guerra, em 1915 na Suíça. Houveram rachas nesse congresso, Lênin e o Partido Bolchevique (Partido revolucionário) se posicionou por derrotar o Governo e tirar a Russia da guerra. Já Trotsky, que na época era menchevique (ala reformista e pequeno-burguesa do movimento), lutou contra a posição de Lênin e defendeu a palavra de ordem “Nem vitória nem derrota”.

O desastre militar da Rússia na Guerra desencadeou uma onda de protestos contra o regime: operários, camponeses, soldados e marinheiros armados e até mesmo elementos da burguesia russa se colocaram contra o Governo do Czar. Em fevereiro de 1917, a Rússia passou pela primeira revolução, essa de carácter liberal. Em todo país, o antigo poder governamental desapareceu de uma só vez. O Czar renunciou e sem esperar orientação, o povo instalou imediatamente novas autoridades. Em toda Russia atribuiu-se a administração aos Sovietes (Comitês Populares). Dessa forma, o novo regime tinha por dirigido um duplo poder, o Governo Provisório e os Sovietes.

Prisioneiros de guerra russos feitos depois da Batalha de Tannenberg, em 1914

GOVERNO PROVISÓRIO E A REVOLUÇÃO DE OUTUBRO

Os burgueses que tomaram parte na formação do Governo Provisório sempre desejaram a instauração de um regime parlamentar nos moldes da Europa Ocidental. Não pretendiam promover nenhuma mudança na ordem econômica e social, mas renovar o Estado e ganhar a guerra.

Já a classe trabalhadora desejava, entes de mais nada, que lhe melhorassem as condições de vida. Lutavam pela jornada de 8 horas, previdência social e aumento de salários. Também desejavam que os Comitês de Fábrica exercessem controle sobre a administração das empresas. Os camponeses defendiam o principio de “a terra deve pertencer aqueles que nela trabalham” e exigiam a reforma agrária. Já os soldados tinham como objetivo instituir salários as famílias dos combatente e pensão para as famílias dos mortos e mutilados em combate, além de um regulamento interno com respeito a pessoa humana. O soldados que voltavam da guerra manifestaram-se abertamente contra a guerra quando viram que os generais estavam usando o patriotismo para reprimir soldados, operários e camponeses.

Em abril de 1917, chegou no terminal ferroviário de São Petersburgo trem proveniente da Finlândia, estava voltando do exílio o dirigente revolucionário Vladimir Ilyich Ulyanov, conhecido como Lênin, onde foi recebido pelos trabalhadores e soldados da cidade. Em outubro, a Rússia era a imagem da decomposição: crise econômica, escassez de alimentos, inflação astronômica. O governo provisório de Kerensky era completamente impotente e desmoralizado perante o povo russo, pois haviam prometido retirar o país da guerra e melhorar as condições de vida do povo, porém nada foi realizado.

O Comitê Central do Partido Bolchevique, reunido no dia 23 de outubro de 1917, aprovou a resolução sobre a insurreição por maioria absoluta de 10 contra 2, elegendo o centro político da revolução (chamado de Burô): Lênin, Zinoviev, Stalin, Kamenev, Trotsky, Sokolnikov e Budnov. Contrariando assim, a propaganda falsa que a direção do partido havia se oposto a insurreição de outubro. No 29 do mesmo mês, os Comitês de São Petersburgo e militar se reuniu com a direção do partido para eleger o Centro organizativo da insurreição, que desempenhava papeis organizativos e militares, com 20 votos a favor contra 2, Sverdlov, Stalin, Drezhinksy, Bubnov e Uritsky foram eleitos membros. Desmentindo mais uma vez o “conto de fadas” muito divulgado pela imprensa capitalista onde aponta que a revolução tinha um único líder, ou que, Lênin era o líder político enquanto Trotsky cumpria o papel de líder militar da insurreição.

No centro podemos ver os camaradas Stalin, Lenin e Kalinin

A insurreição de São Petersburgo foi realizada na noite de 06 de novembro para 07 de novembro. O governo fugiu e o Conselho de trabalhadores tomou controle da cidade. Posteriormente, foi convocado o Segundo Congresso dos Sovietes e a posse do Governo Revolucionário.

As primeiras iniciativas do Governo Revolucionário foram: estabelecer a nacionalização dos bancos, aplicou-se efetivamente a lei de reforma agrária e a organização democrática do exército. Através de mudanças radicas, entre erros e dificuldades, a nova Rússia socialista começava a nascer. No entanto, essas medidas só puderam ser colocadas em prática porque eram a expressão da vontade dos trabalhadores.

Lênin discursa sobre uma carroça para multidão de trabalhadores.

Os bolcheviques conquistaram o poder, mas conquistaram sem acordo com a classe dominante russa e chefes de partidos políticos burgueses. Não chegaram ao poder através de um golpe de um pequeno grupo. A revolução seria um fracasso se não houvessem um amplo movimento das massas trabalhadoras de sustentação ao governo bolchevique. Por tanto, é uma enorme besteira quem lança ataques de “Ditadura autoritária” contra o Governo Bolchevique. Os trabalhadores criaram sim a Ditadura do Proletariado, regime que força as classes dominantes derrubadas do poder a cumprir a vontade da maioria. Mesmo assim, essas classes mesquinhas organizaram 19 exércitos estrangeiros, cercaram a Rússia e tentaram restaurar a antiga ordem czarista. Os bolcheviques triunfaram porque esses sabiam lutar pelas pequenas e grandes aspirações da classe trabalhadora, organizando-e dirigindo para construir uma nova ordem social, igualitária, democrática e humana, ou seja, o socialismo.

O povo soviético derrotou o czarismo, eliminou todas as estruturas feudais com a reforma agrária, retirou o país da guerra mundial, estatizou os meios de produção, deu liberdade e autodeterminação dos povos de todo antigo Império. Posteriormente, com a morte de Lênin, a revolução continuou sendo trilhada pelo Partido Bolchevique e seus dirigentes. Lênin contribuiu não somente na teoria política, mas também organizativamente na construção de um sólido partido revolucionário que soube dirigir o povo antes, durante e depois da revolução russa. Sobre a dirigência do camarada Stalin, foi alcançada a questão central, um conjunto de ações que norteou a primeira experiência socialista da humanidade e converteu a URSS numa superpotência mundial, que foi capaz de derrotar a Alemanha nazista na Segunda Guerra mundial.

Lenin na Praça Vermelha, Moscou, em 25 de maio de 1919.

A conquista da revolução socialista russa é algo inalienável. Nenhuma força do planeta, independentemente da incessante campanha de calúnias e ataques contra o comunismo, poderá privar o exemplo histórico das conquistas da Revolução. Durante milhares de anos construíram-se reinos, impérios e Estados sobre o comando das ricas classes dominantes, pela primeira vez na história foi revelada a primeira forma não-capitalista de Estado. Camarada Lênin dizia:

“Talvez nosso aparelho seja muito ruim, mas dizem que a primeira máquina a vapor inventada era ruim também: nem sabiam se funcionava ou não. E fato que hoje temos máquinas a vapor. Por pior que seja nosso aparelho, ele aí está: fez-se um invento de maior importância histórica, criou-se um tipo proletário de Estado. Vamos deixar que toda Europa, por tanto, vamos deixar que milhares de jornais burgueses espalhem notícias de horrores e miséria sofrimento que se submetem os trabalhadores de nosso país. Pois como tudo isso, em toda parte do mundo, todos os trabalhadores sentem inspirados pelo Estado soviético”.

Documentário Lenin em vida, documentário de filmagens raras entre 1918 e 1921.

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