Irmã de Kim Jong-un chega na Coréia do Sul. E daí?

Sexta-feira de carnaval no Brasil e, num dos maiores barris de pólvora do mundo, é chegado o grande momento em que a delegação norte-coreana aterriza na Coréia do Sul para cumprir a agenda das olimpíadas de inverno em Pyeongchang. Desesperada pelo Ibope sempre alcançado pelas falsa-polêmicas, intrigas e mentiras da novela intercoreana, a mídia ocidental vem noticiando desde o início do expediente que, às 13h50 (horário local, 2h50 de Brasilia), Kim Yo-jong, a irmã do líder Kim Jong-un, desembarcou na cidade de Incheon.

Realmente, desde a cisão norte-sul com a ocupação ianque ao sul do paralelo 38º ao final da segunda Grande Guerra, nenhum dos descendente direto de Kim Il-sung, líder revolucionário e fundador da República Popular Democrática da Coréia, havia pisado, ao menos oficialmente, em solo sul-coreano. Mas e daí? Considerando alguns dos traços culturais do nacionalismo coreano que datam milênios, como a figura do Pater, presente também no universo simbólico chinês, um membro da família do “grande líder” é sempre importante. Agora, personalidade menos simbólica e de fato uma relevância política com poder deliberativo para alguma coisa é o chefe de Estado norte-coreano, Kim Yong-nam, que acompanhou Yo-jong no desembarque e, aparentemente, quase ninguém notou.

Delegação norte-coreana na Coréia do Sul. Ao centro, Kim Yo-jong e Kim Yong-nam, respectivamente.

Essa negligência com Kim Yong-nam não é um descuido. Um chefe de Estado não passa despercebido aonde quer que vá, ainda mais com vistas ao acirramento das tensões coreanas nos últimos meses. O sensacionalismo que só enxergar a visita da irmã do líder norte-coreano e ignora Kim Yong-nam, que não é avô, irmão, primo, pai ou sobrinho de Kim Jong-un, tem razão em ser. Quer dizer, o chefe de Estado norte-coreano é uma figura que deve ser escondida na narrativa por não contribuir em nada para avançar o roteiro da fanfic midiática que bate os pés para criticar a torto e a direito a “dinastia” da “monarquia comunista” norte-coreana. [Tal qual os irmãos,] Yong-nam é membro do comitê central do partido de vanguarda da Revolução Coreana, o Partido do Trabalho da Coréia, mas por ser uma quebra argumentativa ambulante daqueles que condenam o suposto nepotismo coreano, sua figura é considerada pela mídia como secundária, de caráter meramente formal e cerimonial. Nada mais falso.

Para se compreender o sistema republicano norte-coreano, uma análise mais séria se faz necessária. Deve-se checar fontes, abandonar maniqueísmos e sumariamente descartar tabloides sul-coreanos que são as principais fontes-primárias das mentiras mais recorrentes, em forma de propaganda de guerra, sobre a Coréia Popular. Compreender a natureza sócio-histórica do conflito coreano, a ocupação japonesa e depois a ocupação ianque que perdura até hoje, a guerra de libertação nacional, a autocracia de Rhee Syng-man, as constantes provocações fronteiriças dos norte-americanos, os acordos boicotados pelos EUA e Japão, as origens da necessidade do programa nuclear, etc, questões bem tratadas, sem rodeios ou mistificações, no livro A Revolução Coreana. O Desconhecido Socialismo Zuche, de autoria do professor doutor Paulo Fagundes Visentini e publicado pela editora UNESP. Outra recomendação é o blog de Solidariedade à Coreia Popular, onde, dentre outras, os autores destrincham o sistema político e econômico coreano, de forma didática, lúcida e com propriedade.

Bombardeiros B1-B em provocação fronteiriça contra a RPDC

As Olimpíadas de Inverno acontecem entre os dias 9 e 11 de fevereiro em PyeongChang, na parte sul da península coreana. Divididas em 1945, a Coreia foi ocupada pelos EUA ao sul da fronteira e uma guerra de Libertação Nacional empreendida em maio de 1950, e em setembro desse mesmo ano, os EUA contra-atacam com os reforços recém-chegados de 14 países sob determinação da ONU. Em 1953, com um saldo de quatro milhões de mortos, é assinado um armistício que é o mais próximo de um acordo de paz entre as partes escrito até hoje. Desde então, as Coreias seguem caminhos diferentes e o único lado com uma proposta de unificação que não dependa da submissão do outro é a parte norte, que propõe a unificação em um só país com duas regiões políticas diferentes. No entanto, a unificação representaria o surgimento de uma nova potência autônoma, o que é uma potencial ameaça aos interesses do imperialismo na ásia.

Dois atletas caminham juntos sob a bandeira da unificação coreana