Sem governo Alemanha atravessa a maior crise política desde 1945

Em setembro de 2017, foram realizadas Eleições Parlamentares na Alemanha, o que conferiu a vitória pelo 4° mandato consecutivo (16 anos) da Primeira Ministra Angela Merkel pelo partido União Democrata-Cristã (CDU), mesmo com a vitória, Angela Merkel não conseguiu as vagas necessárias no Parlamento para formar um novo governo. Completando 5 meses sem governo, o país mergulha na mais profunda crise política desde o fim da Segunda Guerra Mundial, fato que agrava a situação da já debilitada economia Europeia. O regime político alemão era considerado um dos mais sólidos do mundo entre os países imperialistas centrais.

Na última eleição houve um avanço expressivo do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), que obteve 12,6% dos votos. De acordo com pesquisas eleitorais, a extrema-direita conquistou grande parte do eleitorado da CDU. A esquerda também cresceu, o Die Linke (A Esquerda) ficou com 9% dos votos, o partido que é considerado descendente direto do Partido da Unidade Socialista (SED), que governou a República Democrática Alemã (sigla em alemão DDR), porém o partido ainda não possuí capilaridade nacional, pois está concentrado no território que compunha a Alemanha Socialista. O segundo maior partido da Alemanha, o Partido Social-Democrata (SPD), sofreu o pior resultado da sua história. O desgaste para o SPD em compor o governo Merkel foi enorme, com seus votos diminuindo a cada eleição.

(Manifestação da extrema-direita alemã contra os refugiados e o Governo Merkel)

Com o Parlamento completamente fragmentado, Angela Merkel sinalizou a impossibilidade de governar com minoria no Bundestag (Parlamento Alemão). Fato que colocou para o Governo Merkel duas opções: convocar novas eleições ou formar uma nova coalizão. Após sofrer grande pressão interna e europeia para evitar novas eleições, já que na avaliação geral a extrema-direita sairia vitoriosa agravando a crise. Restou a via de convencer o CDU e o SPD para a possibilidade de uma nova coalizão. Os dois partidos já governaram conjuntamente duas vezes.

Em outubro, o SPD recusou-se em compor o Governo Merkel. Martin Schulz, presidente do SPD, chegou a afirmar que: “não tem sentido embarcar em uma nova coalizão”. Posição que foi amplamente apoiada pelas bases do partido. Os sociais-democratas avaliavam que seu catastrófico desempenho eleitoral foi resultado do desgaste do Governo Merkel. Também afirmaram que se os eleitores alemães castigaram nas urnas os dois grandes partidos por conta da política de austeridade do governo. Por último, analisaram que uma nova coalizão entre os dois grandes partidos beneficiaria sobretudo a extrema-direita, que se tornaria a única oposição ao Governo.

Diante da negativa inicial do SPD, Merkel tentou estabelecer uma coalizão com partidos menores, o Partido Liberal Democrata (FDP) e o Partido Verde, no entanto não chegaram a um acordo sobre a formação do novo Governo.

A crise política alemã está longe de chegar ao fim. Durante o mês de janeiro, a democracia-cristã e a socialdemocracia iniciaram um novo acordo. Porém, o acordo causou novas divisões em ambos partidos. Merkel afirmou ter feito “concessões dolorosas” com a socialdemocracia, que reivindicava aumento do salário e maior investimento na área social. A ala de empresários dos deputados do CDU ameaçaram boicotar as votações do governo no Parlamento. Von Stetten, Deputado do CDU disse que prefere um governo minoritário liderado por conservadores do que acordo de coalizão que Merkel fechou com o SPD.

(Martin Schulz, presidente do SPD, Angela Merkel do CDU)

A notícia de uma nova aliança com o governo Merkel enfrenta muita oposição na base do SPD. Kevin Kühnert, líder da juventude do Partido Social-Democrata afirmou: “Você não consegue achar ninguém que esteja empolgado com a ideia de fazer parte de outra grande coalizão”. Com a aliança, o desgaste eleitoral do SPD pode ficar ainda maior, atualmente o partido amarga 18,5% nas pesquisas de intenção de voto (queda considerável, se comparada aos 24,6% obtidos nas últimas eleições). As bases do partido afirmam que para o SPD volte a ganhar as eleições deve retomar seus princípios de esquerda, que eles consideram negligenciados na coalizão com o CDU. A rejeição a uma repetição da grande coalizão na Alemanha pode levar a novas eleições, à queda do presidente do SPD e ao fim do Governo Merkel.

Para líderes da União Europeia (UE) não há ninguém que possa ocupar o espaço deixado por Merkel. O fracasso das negociações para formar um novo governo na Alemanha levou a UE a “uma situação muito, muito difícil”, reconheceu em Bruxelas o Ministro das Finanças da Áustria, Hans Jörg Schellin. Os líderes da UE esperavam o resultado das eleições na Holanda, na França e na Alemanha para começar a impulsionar os acordos do Brexit (nome dado a saída do Reino Unido da UE). A Alemanha, é o país mais influente da Europa, tem a responsabilidade de dar os primeiros passos na negociação, mas sem um governo formado “será muito complicado tomar decisões difíceis”, nas palavras do chanceler holandês Halbe Zijlstra.

A crise política na Alemanha afeta todos países do continente. Por exemplo, na França, as Reformas neoliberais do Governo Macron precisam do apoio do governo Merkel. A agenda da UE está paralisada, entre elas está a reorientação do sistema europeu de refugiados, que após os ataques da Organização do Tratado do Atlântico Norte – OTAN contra países do Norte da África e Oriente Médio causaram a maior crise de refugiados da história.

Desde 2007, com a crise econômica internacional, o quadro político dos principais países imperialistas tem se deteriorado. Não há na Europa regime político que não esteja em crise. O resultado dessa degradação política tem sido o desmonte do Estado de bem-estar social nos países centrais e uma verdadeira cruzada imperialista contra os países da periferia do mundo. Para recuperar a estabilidade política, os países imperialistas centrais iniciaram uma guerra econômica contra os países da África, América Latina e Ásia, saqueando as riquezas naturais e nacionais e potencializando a exploração da classe trabalhadora. Para isso, dispõem de todas as armas: golpes de Estado, guerras, intervenções militares, manobras militares de agressão e bloqueios comerciais.

No Brasil, vivemos na pele o resultado da crise nos países imperialistas centrais, que através do Golpe de Estado, estão pilhando o Pré-Sal, a Amazônia, as riquezas nacionais e a soberania. O caminho de resistência é sem dúvida intensificar experiências de parceria e cooperação entre os países periféricos e emergentes, para assim resistir a escalada golpista e as agressões imperialistas, ou em médio prazo, entraremos em nível global na maior crise social da humanidade.

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