Campanha contra a perseguição política ao Físico Rodrigo

Relato sobre a perseguição contra mim no IF UFF

Minha transição do mestrado para o doutorado teve certas peculiaridades. O orientador que acompanhou minhas pesquisas no mestrado veio a falecer logo após minha defesa. Para seguir pesquisando, fui em busca de outro orientador, no ramo da astrofísica. No programa da UFF, o único que atuava neste ramo era o professor Rodrigo Picanço Negreiros. Mesmo sendo eu um ativista social e ele um reconhecido conservador de direita entre os colegas, procurei-o para ser meu orientador e fui aceito. Acreditei que o profissionalismo no Programa de Pesquisa não permitiria que as diferenças de pensamento político entre orientador e orientando pudessem se tornar motivo de perseguição. Ledo engano!

Na física os professores são usualmente conservadores, supervalorizam a meritocracia e não gostam de movimentos populares ou políticas de redução das desigualdades sociais. Estive durante toda a trajetória acadêmica acostumado com um certo nível de assédio moral constante: professores que se negavam a tirar dúvidas por eu ser ligado a movimentos sociais, ser repreendido ou denunciado por orientador por estar em alguma manifestação, receber pareceres desfavoráveis para benefícios moradias (e sempre fui dependente de assistência estudantil para me manter na academia, pois sou oriundo de uma família muito pobre). Eram acontecimentos recorrentes, e apesar de tudo, conseguia preservar e continuar minha trajetória na Universidade. Me fiz acreditar que mesmo exposto a condições semelhantes às anteriores, seguiria firme na carreira de pesquisador. Desta vez, porém, meu então orientador Rodrigo Picanço Negreiros parecia estar disposto a ir mais além. Nunca escondi minha orientação política, mas sempre evitei comentar sobre ela. Desta forma eu e meu ex-orientador nunca tivemos uma briga direta sobre política. Contudo Negreiros sempre foi profundamente impaciente e incompreensivo. Relatarei aqui apenas o que tenho provas ou testemunhas.

Comecei meu doutorado em 2014, e a pesquisa parecia fluir normalmente até abril de 2015, quando a UFF se depara com uma greve de professores e funcionários. Normalmente greves não repercutem no Depto. de Física. Negreiros desde o início se colocou contra a greve e eu apoiei e andava com adesivos, mas eu e Negreiros jamais conversamos sobre isso. Com o avanço da greve, alguns professores começaram a enviar mensagens ofensivas aos grevistas na lista de e-mails do Instituto, e Negreiros começou então a mostrar uma característica que eu não conhecia, uma capacidade de ir mais longe. Ele enviou um e-mail à lista assediando um aluno que havia o questionado por e-mail privado, dirigindo contra o aluno uma espécie de “resposta pública”, cujo cerne principal foi a desqualificação do aluno por um erro de português contido no e-mail até então privado do aluno ao professor. A partir daí o tom, o volume e o raio de alcance das ofensas aos grevistas só aumentou. Um grupo de alunos do doutorado, eu inclusive, enviamos uma resposta pedindo para que os professores respeitassem a posição de todos. O e-mail foi enviado pelo doutorando Vitor Lara, pois este havia acabado de defender sua tese, e com isso estava menos exposto a uma eventual perseguição, que não tardou. Professor Negreiros pediu para que Vitor fosse banido da lista de e-mail, sendo que este ainda não havia entregue a tese (e-mail anexo). Alguns professores se pronunciaram em defesa da democracia e organizaram um encontro com a ADUFF para explicar os motivos da greve.

Na continuidade da greve, estive envolvido com mais algumas atividades: estive no Congresso da SBPC onde participei de manifestações contra os cortes orçamentários e na volta ajudei a realizar uma assembleia de pós-graduandos que organizou ato na reitoria para pedir explicações acerca dos cortes. Parece ter sido a gota d´água que derrubou o véu “profissional” de Negreiros. Para ele, “professor não pode ser questionado”, como ele mesmo diz no e-mail de resposta ao Vitor Lara. Negreiros notou minha ausência no período do evento da SBPC (pois eu estava na cidade de São Carlos-SP) e chamou minha atenção pela ausência. Não falou do ato evento, mas pela primeira vez ameaçou deixar minha orientação, promessa que veio a cumprir meses depois, dando início a um verdadeiro calvário pelo meu direito de estudar, pesquisar e concluir o doutorado. A sequência dos fatos está relatada no artigo na página da ANPG (associação nacional de pós-graduandos) e no resumo cronológico abaixo:

03/2014 entro no doc sendo obrigado a trocar de área (abandono física de partículas teórica e passo a trabalhar com astrofísica nuclear), por conta dos problemas de credenciamento (a uff, para se manter com nota 6 na avaliação da capes, quase destruiu toda a área de física teórica me dando poucas alternativas de orientador, meu orientador do mestrado era muito doente e faleceu meses após minha defesa)

25/06/2014 –Defesa do mestrado

7/2014 – Tema de pesquisa já estava fechado com Negreiros (modelo computacional para estrelas de vácuo gravitante)

12/02/2014 – Reprovado em quântica 2

03/2015 – Aprovado na qualificação

03/2015 – Solicito não cursar quântica 2 naquele semestre, alego cansaço (autorizado pelo CPG)

04/2015 – Começa greve na UFF

05/2015 – Assédio ao Vitor Lara na lista de e-mail e demais desdobramentos relatados acima

08/2015 – Reunião da SBPC, Ato contra os cortes na reitoria

08/2015 – Negreiros ameaça pela primeira vez abandonar a orientação da minha tese

08/2015 – Início de quântica 2 (meu orientador ameaça pela primeira vez me excluir do grupo de pesquisa)

10/2015 – CONAP ANPG (Ceará)

12/2015 – Aprovado em quântica 2

01/2016 – Excluído do Grupo de Pesquisa (Negreiros abandona a orientação do meu doutorado)

03/2016 – Novo processo seletivo para recuperar bolsa

04/2016-Negreiros entra em contato com Helayel (professor do CBPFe meu ex orientador na graduação) pedindo satisfações quanto ao fato do Helayel estar intermediando meu contato com possíveis substitutos para orientação .

04/2016 – Desligado pelo colegiado por não ter orientador, entro com recurso administrativo para reverter o desligamento. Entro ainda na DPU contra o programa por ter sido prejudicado no processo seletivo para recuperar bolsa.

04/2016 – Início da disciplina de transições de fase.

05/2016 – Congresso da ANPG em BH (ANPG pressiona a UFF).

06-2016 – Aprovado em transições de fase. Meu resumo é aceito no congresso IWARA com um professor da UFAC.

09-2016 – DPU conclui não assumir a causa. Entro no MPF, que tem a mesma resolução.

10-2016 – Sergio Ulhoa da UNB solicita ser meu orientador externamente. Colegiado do Programa de Física da UFF recusa. Colegiado recusa ajuda financeira para que eu vá ao IWARA. Colegiado aceita que eu faça uma disciplina externa (interações fundamentais)

11-2016-Sou desligado no CEP e entro com recurso no CUV, denunciando a perseguição que estou sofrendo.

12-2016 – Aprovado em interações fundamentais

3-2017 – Matéria no site da ANPG denuncia o processo de seleção de bolsa do qual eu havia sido injustamente desclassificado.

5-2017 – Desligamento definitivo no CUV

9-2017 – Publicação do meu artigo científico na International Journal of Modern Physics – IJMPD (revista com classificação B2 no qualis da Capes – artigo com fator de impacto 2.476)

12-2017 – Ingresso na justiça pelo direito de defender meu doutorado na UFF e pela anulação do meu desligamento daquela instituição.

Mais informações no site da ANPG

http://www.anpg.org.br/o-processo-seletivo-para-o-mestrado-doutorado-e-de-bolsas-sao-honestos/

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