NOTAS SOBRE A INTERVENÇÃO NO RJ EM AGOSTO

Na semana passada, acompanhamos mais um desdobramento da intervenção militar no Rio de Janeiro. Em plena manhã de domingo, as forças armadas iniciaram mais uma desastrosa operação nas favelas do Complexo da Penha e do Complexo do Alemão, que perdurou por dias sem dar um minuto de paz aos moradores.

Relatos nas redes sociais denunciam, não somente em textos, mas em fotos e vídeos, as arbitrariedades cometidas pelos militares contra a população dessas favelas, como invasão de casas sem mandado de busca e apreensão, vandalismo com bens pessoais de moradores, revistas ilegais e vexatórias, prisões arbitrárias, e, é claro, execuções sumárias. Entre as demais informações, circulou um vídeo na internet mostrando uma multidão tentando subir a mata na Chatuba (Complexo da Penha) para identificar e resgatar corpos, sendo impedida a tiros por soldados. O saldo da mais recente operação militar, comemorada como uma vitória pelos interventores, supera uma dezena de assassinados.

Ora, será essa a “solução” para a segurança pública no Rio de Janeiro: Militares contra a soberania nacional, “invadindo” uma favela como se fosse território estrangeiro, e fazendo mais do mesmo que a PMERJ sempre fez nas favelas cariocas? O Voz Operária RJ denuncia ostensivamente a quem servem os interesses da intervenção. Não concordamos com quem a defende como uma coisa positiva, da mesma forma não concordamos com quem afirma que ela é mero engodo, fantasia, “maquiagem” política. Esse tipo de argumento abre margem para a discussão que diz ser o problema da intervenção a “forma como está sendo feita”, dando legitimidade e razão à sua continuidade.

Conforme já publicamos em editoriais anteriores, o golpismo no Brasil hoje articula a formação de um grande cartel criminoso no país, organizado em torno da facção paulista PCC. Esta análise se reafirma quando vemos que nestes últimos dias da operação na Penha e no Alemão, as forças armadas também ocuparam o Complexo da Maré, mais precisamente, a Nova Holanda e o Parque União, as únicas áreas da região controladas pela facção Comando Vermelho (CV). Por quê? Assim como as controladas por milicianos, as áreas controladas pelo TCP, maior aliado da facção paulista no Rio, são afetadas em menor medida pelas operações, sobretudo aquelas coordenadas pelas forças de segurança do governo federal. O fato é que, ao observarmos as ações das forças de segurança de forma isolada, notaremos que as ações dos interventores não acompanham no mesmo passo, ainda que a Polícia Civil desenvolva investigações em cima desses grupos criminosos, como no recente caso da prisão de um articulador do PCC em área controlada pelo TCP no Complexo da Maré.

Independente do resultado direto, o rearranjo do crime organizado no Rio de Janeiro tem sido um dos principais interesses dos golpistas no Brasil, seguindo o exemplo do México, que vive a doze anos sob intervenção militar e o único resultado foi a formação de um grande cartel nacional, vinculado ao Estado mexicano, que suprimiu várias facções menores. Este fortalecimento dos grandes grupos criminosos que enriquecem a burguesia envolvida no tráfico internacional de armas e drogas e que tem seu dinheiro lavado no mercado financeiro internacional, faz parte do plano golpista. Acompanhado disto, vemos uma crescente perda da nossa soberania e autonomia nacional, com a entrega não somente do Estado e das riquezas brasileiras ao imperialismo, mas também do próprio futuro da nossa juventude, morta todos os dias em uma sociedade cada vez mais assassina.

Como de praxe, exigimos:

Não à Intervenção Militar;

Abaixo o Golpe de Estado;

Liberdade para Lula e para todos os presos políticos;

Ninguém fica pra trás!

(Voz Operária RJ. Rio de Janeiro, 30 de agosto de 2018.)

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