Um Balanço das eleições de 2018 – Coluna

Na luta de classes, sentimentos raramente são bons conselheiros, o que realmente conta é o entendimento dos dados e da realidade objetiva, sempre verificando os prognósticos .

Nossa previsão acerca da eleição de 2018 ficou escrita na carta Lula publicada no site Brasil 247:

“…Olhando ainda para a vizinha Venezuela me ocorre que o Golpe não tende a afrouxar no Brasil com eleições livres e sem fraudes. Desde que o governo dos Estados Unidos está por trás do Golpe do Brasil e busca se apropriar do nosso Petróleo, tem se agravado as ameaças a Venezuela, também grande produtora de Petróleo. De forma que o Golpe no Brasil é estratégico para avançar sobre o país vizinho para saqueá-lo também. Sendo assim, ainda que existam setores golpistas no Brasil que possam caminhar para um acordo para libertá-lo porque eles não controlam a situação caótica que criaram, há poucas chances que o imperialismo estadunidense recue aceitando um governo do PT no Brasil no atual cenário mundial. Tal situação e a falência das instituições políticas brasileiras me faz acreditar que a saída política via eleições pode estar bloqueada no Brasil.”.

Longe da conclusão mecânica, que seria não participar das eleições, nós participamos, pois entendemos, que o PT tinha o direito de se apresentar a nação, pleiteando o cargo do qual não deveria ter sido apeado, essa conclusão de nossa parte, surgiu ainda de uma outra observação não escrita na carta Lula, que é a natureza burocrática do aparelho do PT , que se nega a romper com as instituições apodrecidas saidas da constituinte de 1988. Essa natureza parece não ser entendida pelo PCO por exemplo, que entrou na campanha do voto Nulo para presidente. Apesar da lógica e do primeiro impacto negativo a eleição de 2018, apresenta resultados numéricos bastante interessantes.

Câmara:

A eleição foi uma tragédia para PMDB de Temer e PSDB os dois partidos centrais do golpe.

Mostrando que uma parcela da população percebeu a ação desses partidos nas contra reformas de Temer. O destaque é o crescimento estrondoso do PSL, o que mostra que a maquina do Bolsonaro é bem maior do que podíamos imaginar, colocando em questão um verdadeiro movimento fascista apoiado em mandatos parlamentares.

Outro dado muito relevante é a intensa pulverização de partidos nanicos.

Precisamos avaliar o PT, este perdeu 13 deputados , mas a perda de 2010 para 2014 foi bem maior 19 deputados. Portanto o PT esta invertendo a sua curva de rejeição, sendo o quarto partido que mais perdeu (PMDB-32, PSDB-25, PTB-15).

Outro crescimento notavel é o PSOL , este passou de 5 para 10 deputados, e certamente esse crescimento sera plataforma para ataques ao PT e acusações de hegemonismo.

Senado:

A eleição para o senado é mais difícil avaliar, pois em 2014 tivemos uma eleição, que renovou um terço do senado, em 2018 foram renovados dois terços dos mandatos. Um método de avaliação aqui necessitária uma analise mais trabalhosa . Alem disso os deputados têm uma relação mais próxima com o povo , muitas vezes sendo facilitadores ou porteiros de facilidades, mantendo bases e redutos em bairros e cidades pequenas, que podem vir a ser a origem de movimentos políticos perigosos.

Presidência da Republica:

Ainda segundo o site G1, o PT perdeu em quatro estados , que eram seus redutos desde 2002, sendo dois deles decisivos Minas e Rio de Janeiro. O partido dos Trabalhadores elegeu 4 governadores, mas todos em estados pequenos, hoje é o partido com maior numero de governadores, mas a relevância populacional desde dado é bem pequena .

Os dados da eleição presidencial e da eleição na câmara são significativos, pois mostram que apesar da forte campanha de mentiras e calunias e o papel central de esquemas internacionais envolvidos, (Cambrigt Análitica), o partido parece se recuperar eleitoralmente do desastre nas eleições municipais, pode se até mesmo falar em fortalecimento eleitoral do partido, em certo sentido, pois a perda de cadeiras na câmara não foi para um único partido representando a crise que afeta o conjunto das instituições da republica, que acaba afetando o PT pois este tem um papel de fiador destas instituições junto ao povo.

É importante notar, que o PT que perdeu, foi justamente o PT do discurso de fiador institucional, dado que as base sociais do pais rechaçaram amplamente as instituições da república, exemplo disso foi o fracasso no RJ, estado devastado pela lava-jato, que parou as obras do COMPERJ, e destruiu a industria naval, desempregando milhares, enquanto Haddad dizia que o problema da lava jato era apenas a prisão de Lula, outro exemplo, é o fato de boa parte da população considerar as relações de Temer como vice de Dilma, considerando o como um governo de continuidade do PT, certamente qualquer observação mais atenta atesta, que o PT esteve na oposição a Temer, mas muita gente argumentou que foi o PT quem colocou Temer na vice presidência, assim como apoiou o PMDB no rio, logo boa parte da perda do PT se deve a essa memória de proximidade com a institucionalidade falida e a falta de combate ao golpe de estado perpetrado contra o governo Dilma e a própria tentativa de isolar Dilma na fase final de seu governo, como aliás foi feito com outros companheiros Dirceu, Genoíno, Vaccari e Pizzolato. Porem ao mesmo tempo o PT é sinônimo de resistência e defesa dos direitos trabalhistas, por isso em todas as entrevistas a necessidade da mídia era disciplinar o PT no respeito a essas mesmas instituições em especial a própria lava jato, que ao mesmo tempo que o partido as garante, elas também o atacam . Essa dialética do papel do PT como fiador e ao mesmo tempo como único capaz de derrubar o sistema, é a chave da situação politica. Soluções triviais e simplórias como as propostas pelos morenistas e ex-altamiristas são totalmente inviáveis, a prova disso é o isolamento dessas organizações do conjunto da classe. Um dado muito importante nessa eleição foi a defesa do presidente Lula por parte de Haddad , em especial no primeiro turno Haddad saudava o presidente Lula em todas as suas entrevistas, ao contrário do que os apoiadores de Ciro Gomes diziam, isso não diminuiu o poder do PT , mas aumentou sua audiência, Haddad saltou de 4% para 30% em duas semanas, sempre ancorado na imagem de continuidade do presidente Lula, esse é um fenômeno extraordinário, que mostra que o PT deve se reafirmar e não buscar se aproximar das instituições apodrecidas. Na verdade a defesa abstrata da democracia, não acrescentou em nada ao partido, assim como a busca por apoios de personalidades oriundas destas instituições.

Nestas eleições a ausência do PT nos bairros e favelas foi muito sentida, muita gente reclamou nas panfletagens, os petistas de base não conseguiam achar material para panfletar, um comitê para se apoiar um espaço para organizar a luta. A campanha se baseava em atos de massa e mesmo as campanhas proporcionais não davam espaço para que as bases se expressassem. Embora mais uma vez , as bases se agarraram no PT quando foi necessário.

Perspectivas :

A nota oficial do PT caracteriza Bolsonaro como fascistas, e embora Haddad tenha feito uma saudação ao eleito, essa saudação foi repudiada por gente até mesmo na cúpula, lembrando os ataques e ameaças ocorridos contra toda a militância em particular os assassinatos de militantes petistas durante a campanha, assim como ao próprio Haddad. O mandato Bolsonaro não tem como se manter sem uma repressão sem precedentes, sem colocar a cangalha no pescoço do trabalhador, o grau de repressão necessário é superior ao grau de repressão aplicado pela ditadura militar. Bolsonaro usa todas as brechas institucionais para realizar essa repressão , algumas medidas na transição anunciadas como a perseguição a professores em sala de aula, mostram que a perseguição terá mesmo níveis desconhecidos até então. Podemos ainda afirmar com segurança que não haverão eleições em 2020 e 2022 se o PT se apresentar como alternativa viável, na verdade o mais provável é que Bolsonaro tente caçar o registro do PT, como aliás ele mesmo já anunciou de forma indireta. Talvez a cassação do registro do PT possa ser uma campanha que venha deixar sua base eleitoral anti-petista animada, e a faça esquecer um pouco o sofrimento tomado pelas medidas anunciadas como o afastamento comercial da China, que inviabilizara setores exportadores da nossa economia, sendo o principal exemplo o agronegócio, e até mesmo o superavit fiscal primário ficara inviabilizado obrigando cortes orçamentários em um patamar jamais visto. Bolsonaro na primeira semana de transição, em continuidade com as medidas do TSE na eleição , que chegou a ameaçar o diretor da faculdade de direito da UFF de prisão, volta-se agora contra os reitores das universidades, ver o atraso na nomeação do reitor da uff e contra os movimentos sociais , em particular MST e MTST. Bolsonaro tem pressa!

Ele precisa criminalizar a esquerda antes de aplicar sua politica econômica pois sabe muito bem, que sua politica econômica destruirá a nação. Na prática a perspectiva para o Brasil é o caso Honduras, primeiro pais da América Latina a sofrer um golpe no novo milênio, que foi fragilizado a tal ponto, que uma caravana de esfomeados está à caminho dos EUA, e Trump está a ponto de trucidá-los com o seu exercito.

Bolsonaro e o Imperialismo

As primeiras medidas de Bolsonaro na construção do governo de transição dialogam com sua base de apoio, o anuncio da mudança da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, até hoje apenas EUA e Guatemala mudaram suas embaixadas , essa medida gerou um desconforto imediato com o governo do Egito, que cancelou uma visita da Chancelaria brasileira, que estava agendada para dezembro. A missão brasileira visava justamente incrementar o comércio de carne entre Brasil e Egito http://www.agricultura.gov.br/noticias/missao-brasileira-busca-aumentar-exportacao-de-carnes-ao-egito, outra medida foi o convite , já aceito, ao juiz Sergio Moro para o ministério da justiça. Moro terá um papel destacado neste governo, já que ele mesmo já se mostrou um agente do imperialismo, quando prendeu Lula e usou a lava jato para destruir a industria nacional. Mostrando que os planos deste setor do imperialismo, representado por Trump, vêem de longa data, e representam uma necessidade do sistema econômico em avançada decomposição, que é atacar toda e qualquer traço de civilidade arrancado pela classe operária.

A organização da resistência

Os primeiros movimentos já foram dados, balanços estão sendo feitos, neste momento em que o imperialismo precisa usar a carta do fascismo como medida desesperada para evitar a queda da taxa de lucro. Seria importante lembrarmos a posição de Leon Trotsky, manifesta a Matteo Fossa em uma entrevista às vésperas da Segunda Guerra Mundial, quando Trotsky é perguntado sobre a situação da América Latina, ele responde: ‘Existe atualmente no Brasil um regime semi-fascista que qualquer revolucionário só pode encarar com ódio. Suponhamos, entretanto que, amanhã, a Inglaterra entre em conflito militar com o Brasil. Eu pergunto a você de que do conflito estará a classe operária? Eu responderia: nesse caso eu estaria do lado do Brasil “fascista” contra a Inglaterra “democrática”. Por que? Porque o conflito entre os dois países não será uma questão de democracia ou fascismo. Se a Inglaterra triunfasse ela colocaria um outro fascista no Rio de Janeiro e fortaleceria o controle sobre o Brasil. No caso contrário, se o Brasil triunfasse, isso daria um poderoso impulso à consciência nacional e democrática do país e levaria à derrubada da ditadura de Vargas. A derrota da Inglaterra, ao mesmo tempo, representaria um duro golpe para o imperialismo britânico e daria um grande impulso ao movimento revolucionário do proletariado inglês. É preciso não Ter nada na cabeça para reduzir os antagonismos mundiais e os conflitos militares à luta entre o fascismo e a democracia. É preciso saber distinguir os exploradores, os escravagistas e os ladrões por trás de qualquer máscara que eles utilizem!’ . Neste sentido, nenhuma frente de esquerda, que coloque como tarefa a defesa das instituições apodrecidas emanadas da Constituinte de 88, pode representar o interesse da classe operária. Ao contrário, a classe operária precisa se agarrar ao seu partido, e as suas organizações, que por suas vez, precisam voltar as suas bases, que na verdade anseiam por uma orientação como o próprio resultado da eleição demonstrou.

Neste sentido a campanha ‘’Lula Livre’’ é fundamental! A liberdade de Lula hoje materializa a luta contra as instituições e, ao mesmo tempo, a defesa de cada militante perseguido pelo regime golpista. Contudo essa campanha precisa ser elevada a um novo nível, como campanha popular, mas também como campanha internacional no sentido de uma verdadeira campanha que una a classe operária de todo o continente inclusive e principalmente dos EUA .

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