Se me deixam falar – Por Chris Granha

Agradeço aos companheiros do Voz Operária RJ pelo convite para colaborar com este jornal que carrega uma longa história nas costas.  Como recusar qualquer colaboração com comunistas que concluem que é hora da classe trabalhadora e todas as suas organizações defenderem o Partido dos Trabalhadores? Colaborar com seu boletim é mais que um orgulho, é um desafio.

Na escola política que frequentei, o momento em que grupos estalinistas se deslocariam para a defesa de partidos operários independentes era esperado, mas só o vi acontecer duas vezes. A vinda de Paulo Gnecco – comunista histórico de São Paulo – para o PT, pouco após a minha própria entrada, e agora, num outro patamar – uma vez que estamos diante de um regime golpista que aprofunda suas características ditatoriais – com os companheiros do Voz Operária, o “jornal do Prestes”.

Não sei muito bem o que penso sobre Prestes. Sei o que já ouvi dizerem e reconheço nas histórias alguma capitulação à ilusão de uma burguesia nacional. Mas a idade me ensinou a não acreditar em tudo que me dizem sem antes pensar no assunto. Ainda não pensei. Amo Olga Benário e todas as mulheres apaixonadas pela revolução, mesmo as que fazem escolhas políticas erradas. Acima de tudo, compartilho com os comunistas do paradigma programático máximo que é a “abolição da propriedade privada dos meios de produção”.

Por outro lado, se lanço minha voz a partir de um veículo que homenageia Stalin, eu preciso destoar e acusar Stalin de assassino político de Trotsky. Um assassinato resultante de um julgamento injusto, de exceção! Se os camaradas podem tolerar conviver com esta acusação e adiar este debate até quando tivermos o direito de acertar as contas, fraternalmente, entre nós, estou mais do que disposta a centrar fogo em análises e formulações que ajudem nas tarefas comuns de defesa do PT e de seus militantes, como temos feito no último período dentro do Comitê Volta Dilma – RJ.

Incluir minha voz no Voz Operária – RJ não é uma decisão tão difícil para mim, visto que venho me colocando o problema de achar um formato para compartilhar análises e reflexões. Não sentiria tanta necessidade se o nível de profundidade das análises às quais tenho acesso, em grande maioria pelas redes sociais, pudesse responder às minhas próprias perguntas. Não é assim. Há um vazio de perguntas e um compartilhamento desenfreado de respostas incompletas que confundem mais que esclarecem.

Os companheiros do Voz Operária, por sua vez, estão num outro patamar – de sanidade, inclusive – buscando relacionar os diversos fatores que causam as ações políticas. Suas análises, independentes, demonstram esforço de aprofundamento por esses jovens militantes que aprendi a admirar, e que, sobretudo, não estão desatentos ao fato de que ser capaz de entregar o que se formula é o caminho mais curto para a vitória.

Sobre este último teste, o PCO, Partido da Causa Operária, com o qual tivemos experiência comum no Comitê Volta Dilma, falhou. Espero que a lição que aprendemos juntos seja um alerta para que os textos veículados no Voz Operária busquem manter suas raízes fincadas no solo dos territórios onde a luta de classes acontece efetivamente, na vida das pessoas.

Se os companheiros concordarem, esta minha carta já pode ser publicada como texto de abertura de uma colunista independente, em colaboração com seu boletim. O nome dessa “coluna independente” assinada por mim bem poderia ser “Se me deixam falar”. A mim parece adequado algum nome que expresse a voz particular de uma mulher militante operária. Esse lugar de fala não é exclusivo meu, mas é meu o suficiente para eu detectar que há um vazio nas elaborações feitas por mulheres buscando analisar a luta de classes, suas paixões, dores e dissabores, do exato lugar que nela ocupam. Não inventei este nome; peguei de um livro que conta a história de Domitila Barrios, tentando dar voz a ela. O que fazer quando me deixam falar? Usar minha própria voz. Mas não me iludo preconcebendo que eu mesma saiba o exato lugar da minha voz. Nunca sabemos. Se tenho visto todos os militantes a minha volta enganando-se quanto a si mesmos, o mais provável é que eu também o faça.

Aproveito para convidar os camaradas do Voz Operária e todas aquelas que testemunharam a coêrencia de nossas análises nos últimos 2 anos – as quais nos permitiram formular que nenhum de nós pode ficar para trás, o que se aplica em especial, mas não somente, para lideranças como Lula, Dilma ou Dirceu – para contribuir, também de forma independente, com o projeto da revista Ciência & Revolução. A proposta dessa revista, que é uma iniciativa de militantes que se reuniram em círculos dentro da corrente trotskista de Lambert antes de sua cisão em 2015 e que se sentem orfãos da IV Internacional, é abordar diferentes aspectos tanto sobre o desenvolvimento científico quanto sobre o desenvolvimento revolucionário, relacionando-os. O punhado de militantes que estão envolvidos na produção do primeiro número – edição especial que tem o objetivo de arrecadar fundos para pagar o advogado de um de nós, Rodrigo dos Santos, em sua defesa contra sua expulsão injusta do Doutorado em Física na UFF – não é suficiente para as tarefas teóricas e práticas que envolvem uma nova revista. Esperamos que o convite aberto nos faça aglutinar mãos e vozes que testemunham os efeitos catastróficos do GOLPE contra a inteligência nacional. De nossa parte, iniciadores do projeto, estamos aprendendo que divergir pode rimar com construir e pretendemos ser hóspedes gentis de trabalhadoras e trabalhadores do conhecimento, com o objetivo de ampliação da análise, qualificando-nos conjuntamente para uma síntese no momento possível.

No momento, o primeiro exemplar de C&R está pronto para publicação; ainda faltam retoques na diagramação e fazer orçamento de gráfica. Há uma sobra de textos clássicos, já do primeiro número, a ser analisada, e ideias de artigos em andamento. Acredito que a colaboração na construção de veículos de imprensa e produção teórica operária possa ajudar a estabelecer novos vínculos políticos, mais profundos, que sejam pontos concretos de apoio para o conjunto da classe operária responder como fazer para o PT se reconectar com suas bases.

Vida longa ao Voz Operária!

Vida longa à voz de cada militante operário e de cada militante operária!

Dezembro de 2018

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s