A abertura dos portões de São Bernardo, as eleições de 2018 e a dialética da polarização – Por Christiane Granha


A abertura dos portões de São Bernardo, as eleições de 2018 e a dialética da polarização

O Voz Operária RJ inaugurou sua tribuna de debates com um artigo sobre a “dialética da polarização”. A expressão dá uma perspectiva nova a alguns problemas que nos colocávamos desde a abertura dos portões que levaram Lula para as mãos de seus sequestradores. O mérito de formulá-la é daqueles que conseguem em poucas palavras sintetizar o conjunto de problemas que temos que enfrentar e um deles é como formular. A dialética da polarização como método de análise das eleições se apresenta, assim, também, como uma necessidade da práxis política daqueles que entendem a prisão de Lula como a caixa de pandora de nossos tempos, cuja abertura já tinha sido anunciada no Golpe de 2016.

Em cada aspecto da situação política há uma série de imagens simétricas que não podem ser compreendidas senão pela dialética, o único método que pode incluir o diálogo entre estas imagens.  Saber que todas as peças do quebra cabeças ocupam o lugar que ocupam em relação a outras peças é aquilo que permite descobrir os contornos da peça que falta. Interpretar as imagens em relação a si mesmas, por sua vez, derrotaria a tarefa de montar a figura que dá sentido a elas, “gosto” ou “não gosto” as únicas reações possíveis. Um exemplo disso é a própria polarização do voto anti-PT x PT nas últimas eleições e a quantidade de vozes que disseram que não gostavam dela.

A abertura das urnas em cada turno, numa perspectiva dialética, seriam  fotografias de uma solução de voto dada naquele instante, mas insuficientes, quando não encadeadas, para contar o filme que aconteceu e continua acontecendo na cabeça dos eleitores.

Esperamos que os elementos que introduzimos nesta discussão sejam já um resultado da analise dialética da polarização como um método que pode trazer para a superfície um pouco do óbvio que permanece oculto. Nosso ponto de partida nesse esforço são os fatos. Neste artigo, em particular, é o fato das eleições de 2018 terem sido polarizadas, comprovado pelo derretimento eleitoral do centro. A ele fornecemos interpretações que partem de perguntas válidas: Sobre o que se polarizaram os eleitores e eleitoras em 2018?

Neste artigo pretendemos aprofundar a investigação sobre o significado da abertura dos portões de São Bernardo, a partir da sua resposta eleitoral. A prisão de Lula ocupa aqui um lugar de um marco na mudança de qualidade na relação dos eleitores com as instituições que deveriam representá-los. E só ocupa este lugar porque se encadeia como clímax numa quantidade de outros fatos políticos que lhe antecederam, entre eles, o impeachment sem crime de Dilma, expressões também da falência dos poderes constituídos. Nossa análise caminha na direção de que o eleitor, ainda que não tenha total consciência sobre o abuso de si próprio, se sente desprotegido pelas leis, cuja existência no papel não asseguram sua aplicação. Ao eleitor restaria o voto contra as instituições incapazes de sustentar a lei.

Por esta análise, há uma unidade fundamental no voto anti-institucional nas três grandes soluções votos, que obtiveram cada uma dezenas de milhões de aderentes: Voto no candidato do PSL, voto no candidato do PT e o não voto. Se afirmamos que todos estes votos são expressão da crise institucional, não podemos omitir que a consolidação do voto em suas principais tendências corresponde a opostas  interpretações sobre esta crise, e que elas se resumiriam a se foi certo ou não prender Lula. Cada uma destas soluções de voto se desenvolve, porém, com uma dinâmica própria.

O voto no PSL se expande da base social minoritária na classe média escravocrata a partir de um trabalho de marketing político científico.  Partindo da sensação de desconforto com as instituições que a prisão de Lula causa nos eleitores, oferece a ela uma interpretação simples, de fácil consumo: É preciso votar contra todos os que permitiram que um criminoso governasse o país.  Os estrategistas da campanha eleitoral asseguraram, portanto, os meios de industrializar a reprodução de calúnias sobre Lula e sua família – que já produziam há anos, com a ajuda da mídia e empresários, criando a sensação de ser Lula um inimigo público.  

Há algum bom senso em acreditar que um criminoso perigoso, principal chefe de uma quadrilha que assaltava o país, membro de um partido tão criminoso quanto ele, deveria estar preso. Há algum bom senso em concluir que instituições que permitiram o crime governar não servem para proteger o cidadão.

Bolsonaro apresenta a solução otimista com a ordem institucional de exceção que prendeu Lula. Se apresenta como líder da cruzada anti-PT e canaliza a estupefação do povo pela extrema direita propondo a este povo fazer diferente do que tinha feito votando no PT.

O voto no PT, partido de um preso político, que sustentou seu direito de, mesmo preso, ser candidato, questiona as decisões das instituições ao ter coragem de pedir o voto dos eleitores. O PT inscreveu Lula. E ter candidato e concorrer às eleições defendendo Lula é uma clara afronta às decisões jurídicas de prisão e não participação de Lula nas eleições. Nem todo o discurso de defesa das instituições utilizado pelo candidato do PT, no segundo turno, poderia encobrir que votar no PT era autorizar Lula e desautorizar as decisões da justiça contra ele.  Mais anti-institucional que este voto, impossível. Mas aqui os estrategistas não souberam oferecer uma interpretação a altura da crise: se as instituições não podem assegurar segurança política, jurídica e física aos cidadãos como não asseguraram a Lula, inocente, e acabam produzindo Bolsonaros, é hora de outras instituições.

Esta ausência de sentido na interpretação da crise política tem impacto no não voto, que se mantem estável há algumas eleições, revelando o desenvolvimento de uma crise de representatividade durante os governos do PT.  O não voto tem diversas variantes, desde os desalentados que não se enxergam como seres políticos até quem cresceu se alimentando e estudando durante os governos do PT e não traz no seu horizonte de eventos a miserável era FHC. O PT ser eleito, para esta juventude, não alterava os eventos que faziam parte do seu dia a dia, nos quais o aparelho repressivo do Estado era o abusador, com espancamentos, prisões sem condenação ou assassinatos impunes. Oferecer ao voto a possibilidade de uma experiência que se contrapusesse a sua inutilidade para barrar a violência contra nós necessitava do comprometimento de construir uma força capaz de, libertando Lula, libertar todos os injustiçados, acabando com toda violência institucional.

O problema comum ao qual eleitores dariam uma solução de voto seria então a extrema sensação de insegurança institucional. Os partidos que se apresentavam ao voto precisavam responder a ela. O PSL seria a única resposta de voto possível para aqueles que acreditaram que a prisão de Lula era um acerto. Se era certo prender Lula, as coisas melhorariam a partir de sua prisão e uma solução de voto que se propusesse a derrotar não só o PT, mas toda a era PT,  incluindo todos os que faziam acordo com ele e, também, os que não conseguiam ganhar dele, não era uma hipótese eleitoral a ser descartada.

A inclusão de um polo extremo antipetista no debate político neste sentido é uma reação ao fato do outro polo já ser o PT.  Se há algum artificialismo na polarização das últimas eleições é a existência do PSL. Rejeitar apoio ao PT dando a isso o nome de luta contra a polarização eleitoral, guardando a mesma distância entre os dois polos, apenas revela a incompreensão do fenômeno da polarização, que, por simetria, ao colocar num dos polos o ataque a nós, coloca  no outro a nossa defesa.

A maioria circunstancial de votos no candidato do PSL revela uma extrema direita capaz de se dar os meios de agir eleitoralmente numa situação polarizada. No polo oposto, as contradições e dificuldades são bem maiores, mas não absolutas.

Sustentar que o voto dos eleitores foi uma resposta à prisão de Lula nos permite fazer uma outra pergunta: Sendo Lula o candidato favorito antes de sua prisão, como não foi possível manter a unidade das intenções de voto em Lula como votos contra sua prisão e assim ganhar a eleição, derrotando Bolsonaro no voto? Se assumiria era outra batalha.

O PT deixou de canalizar todo o potencial de voto que a polarização lhe permitiria.  Este problema não é simples e não se trata apenas do marketing eleitoral insuficiente, ainda que isto tenha existido. Sobre as estratégias de propaganda eleitoral nos nossos tempos, os grupos de militantes que tem se formado para estudar sobre inteligência nas redes, discutindo semiótica e suas relações com as novas tecnologias de comunicação aplicadas a milenares técnicas de convencimento terão mais a dizer.  Nesse artigo trataremos de outras questões, políticas, e, portanto, dialéticas.

A dinâmica política se desenvolve no tempo.  E as eleições tem um tempo que lhe é próprio.  A canalização da polarização do voto à esquerda pelo PT acabou só se concretizando, e não totalmente, no segundo turno. Os obstáculos políticos enfrentados são vários, desde a incompreensão insuficiente pela direção do PT da envergadura da crise institucional, o que levou a perder tempo no flerte com o centro derretido, oferecendo a estes uma estabilidade institucional impossível com Lula preso, até mesmo a ação consciente de partidos e lideranças políticas de “centro-esquerda” para impedir que fosse o PT o canalizador do voto contra o antipetismo. O absurdo lógico desta proposição não impediu que os agentes políticos alinhados com ela conseguissem desenvolver um discurso próprio que conquistou audiência e, nos fatos, dividiu o voto contra Bolsonaro no primeiro turno impedindo a consolidação do polo esquerdo ao mesmo tempo em que se consolidava o polo direito.

O discurso “se o antipetismo é muito forte no eleitorado, o PT não poderá vencer as eleições” confundiu muita gente. Disfarçado de realismo eleitoral, este discurso coroa a ausência da dialética mais elementar na política – o que nos leva a crer em má fé de quem o difundiu. A análise apenas um grau para trás conseguiria localizar o antipetismo como derivado do petismo justamente naquilo que tem de positivo. Incluindo aí a imensa força do PT nas camadas populares. Não ver isso como um patrimônio que precisa ser defendido é uma característica da solução punitivista, que nega a possibilidade do aprofundamento da análise. A solução permitida pela analise dialética seria mostrar a artificialidade do discurso antipetista, que, de fato, não estava ancorado na deterioração das condições de vida da maioria dos eleitores, mas no seu oposto.

Neste terreno hostil, a participação do PT nestas eleições foi uma verdadeira corrida de obstáculos. Os obstáculos colocados por seus inimigos diretos não chegaram a ameaçar a relação do PT com seus eleitores. O crescimento exponencial de Haddad após sua inscrição comprova que o antipetismo “de direita” poderia ser enfrentado. Do lado de cá, porém, os problemas são mais difíceis. Os números das pesquisas eleitorais, como fotografias da realidade num determinado momento, nos fornecem, por sua vez, subsídios para compreender as dinâmicas que os relacionam e, curiosamente, eles mostraram que o crescimento de Haddad estancou no mesmo momento que aconteceram as manifestações “ele não”.  

Uma grande maioria de gente que se reconhece democrática, progressista ou de esquerda saudou a fórmula de unidade algébrica: juntar todos contra Bolsonaro. Algébrica porque entende o “todos” como a soma das organizações, que seria necessariamente maior que uma organização sozinha.  O engano está no ocultamento do fato de que neste tipo de unidade, o peso de cada organização não se dá por sua influência e poder de fogo real. Uma resposta que não pode ser entendida pela base daquele que tem maior influência é uma perda para o conjunto. A resposta que faz maior unidade, na vida real, é a que responde a maioria das perguntas.  De modo que não era sobre Bolsonaro a pergunta dos eleitores, mas Bolsonaro, ele mesmo, uma resposta sobre a prisão de Lula. Uma cruzada anti-civilizatória, mas uma resposta.

O anti-bolsonarismo acaba reforçando Bolsonaro, levando-o a ocupar um lugar no debate que não é o seu. A ausência de clarificação sobre como banir o risco Bolsonaro votando em quem poderia derrotá-lo – neste caso, mantendo a unidade dos votos de Lula –  atrasa uma solução de voto para o polo oposto ao PSL. E isto não é um detalhe numa dinâmica eleitoral, uma vez que, em eleições, se trata somente de pedir voto. A fórmula qualquer-um-menos-ele passou, assim, a se tornar um novo obstáculo, oferecendo aos aderentes um leque amplo onde se igualam diferentes, opostos e nenhum. “Ele não”, menos do que preparar um segundo turno, impedia uma solução de voto antifascista para a confusão política do eleitorado, autorizando no segundo turno a solução de votar em ninguém.  

É a partir desta leitura que nos permitimos caracterizar o movimento “ele não” como uma apropriação indevida de um sentimento justo de indignação contra todos os elementos de barbárie contidos na candidatura de Bolsonaro. Mas quando esta indignação não se indigna com o fato de que Bolsonaro só é uma ameaça porque Lula está preso, ela é conivente com o fascismo nas suas ações reais e não somente na sua propaganda.  Quando este movimento não se assume pela vitória da migração de 100% dos votos de Lula para o candidato do PT, esta indignação ainda é insuficiente para derrotar Bolsonaro. O #elenão funciona aqui como uma miragem incapaz de matar a sede dos que se aproximam dela e que bloqueia a disputa dos que viam alguma possibilidade na solução Bolsonaro. A estes, o movimento lhes parece hostil demonizando alguém que tinha acabado de tomar uma facada.

A perda de tempo tem lado em eleições.  E a capitulação ao antipetismo também se apresenta como capitulação a uma pretensa esquerda disposta a punir eleitoralmente o PT. A formulação da única saída justa para a crise institucional: que o PT –  golpeado em 2016 injustamente e vítima de uma perseguição política que ilegalmente amputou das eleições o candidato favorito – governasse é silenciada pela formula negativa que não diz quem sim, tão típica dos centristas, tão inútil na polarização.  

O discurso de “unidade contra Bolsonaro ou contra o fascismo” que legitimou esta pantomima não passa, deste ponto de vista,  de uma “mística” falaciosa, um disfarce para esconder que não é unidade o que defendem, mas o silenciamento da solução eleitoral mais potente diante da prisão injusta de Lula e do Golpe em Dilma. Mais lúcidos e menos punitivistas, o PT e o eleitorado sustentaram com dignidade o seu voto, levando o PT ao segundo turno nacional.

Sendo as forças e recursos do próprio PT limitados para fazer frente ao poderio dos que se agruparam em torno do polo anti-PT, as forças realmente comprometidas com a derrota do fascismo teriam que, desde o início, fazer um mutirão em torno da campanha Haddad que aproveitasse os votos de Lula e partisse para virar votos em Bolsonaro. Este mutirão acabou acontecendo na véspera do segundo turno e a gente sabe quem apareceu nele e quem não.

As máscaras caem rapidamente em tempos polarizados. O que nos leva a descartar que estejamos diante de um pretenso ciclo de alternância da preferência dos eleitores entre esquerda e direita. Afinal, nada mais útil para encobrir o que acontece na vida real do que o termo “esquerda”.  É sobre fatos concretos que as pessoas se posicionam. Não há um posicionamento fixo no espectro ideológico que garantisse a alguém algum lugar se não em relação a como se posiciona a algum fato em um determinado momento. Análise de conjuntura serve para entender quais são os fatos relevantes que se destacam e dão sentido aos demais, se posicionando diante deles. A prisão de Lula, por ser bom de voto, é um desses. A boca de urna de Haddad é outro. No olho no olho, quem foi, viu que dava pra virar.

O fato do Partido dos Trabalhadores, antípoda natural do voto anti-PT, ter se mantido, aos olhos dos eleitores, como o principal agente político do polo esquerdo da política nacional é o alimento para superar as dificuldades.

Ainda que existam eleitores e eleitoras de Haddad que carregam interpretações equivocadas sobre a prisão de Lula, em sua opção de voto legitimaram o debate sobre a injustiça contida nesta prisão. O PT segue sendo o principal partido da resistência contra Bolsonaro, contra o fascismo e contra o endurecimento do regime porque os eleitores lhe deram este lugar. Resta ao PT, para sobreviver (e, assim, a gente ter uma chance de se manter viva), conseguir se utilizar deste lugar para alavancar um movimento tão rico que tenha cacife para pagar o resgate de Lula.

Reconhecer sua insuficiência é uma tarefa para os grandes e o PT tem batido em muitas portas, propondo frentes de unidades com os demais atores do chamado campo progressista, grande parte das vezes se sujeitando às suas exigências. Os resultados obtidos tem demonstrado que quando o PT não deixa de defender a si mesmo acaba aparecendo mais potência popular. Recentemente, se anunciou uma frente de oposição sem o PT. É tão patético que não se dão ao trabalho de disfarçar a inutilidade de uma frente sem o partido mais forte da oposição ao golpe. Mas vivemos em tempos que nem podemos rir do ridículo pois o ridículo tem se dado os meios de se viabilizar.

Isolado pelas diversas variantes do antipetismo, resta ao PT adquirir a clareza de que concessões a ele não ajudam a melhorar a vida do povo. A superação do atual governo, então, se coloca menos em relação a bravatas de colocá-lo para fora e mais na afirmação de que Lula seria o presidente caso não tivesse sido injustamente preso.

A análise, em andamento, pode se utilizar de uma solução parcial sobre a conclusão que se desenha, a de estar na hora de bater em outras portas.  A solução literal aparece aqui como um Partido dos Trabalhadores capaz de bater de porta em porta dos eleitores – em um momento não eleitoral.

Ao longo deste artigo oferecemos uma interpretação possível sobre o que estava por trás da decisão de voto nas últimas eleições por quem a deu. Mas seu objetivo é menos se afirmar como a resposta definitiva, e mais apontar as  possibilidades positivas que podem se abrir quando, falando por si próprios, os eleitores e eleitoras possam fazer as perguntas certas e ajudar em soluções viáveis.

Um PT capaz de oferecer ao eleitorado mais do que uma solução de voto, mas uma solução de voz, pode criar as condições para uma voz de conjunto mais clara e alta, livre dos ruídos e distorções causados artificialmente pelo antipetismo.

Vai PT ! Vai ser o Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras!

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