A dialética da polarização e as eleições cariocas ao governo do estado em 2018

Por Christiane Granha

Em artigo anterior, analisamos as eleições presidenciais de 2018, sugerindo uma interpretação dos resultados a partir da dinâmica eleitoral polarizada. No presente artigo usamos os mesmos parâmetros, colocando uma lupa sobre como, a partir dos resultados eleitorais, se apresentou a polarização no Rio de Janeiro, inclusive pela forma que deixou de se expressar, resgatando aqui a dinâmica política que já existia no Rio e que, nestas eleições, foram determinantes – por inércia – para que a polarização não fosse aproveitada a nosso favor.

A compreensão do fenômeno da polarização nas últimas eleições é o que também permite ter uma visão de conjunto que torna a eleição de Witzel algo que faça sentido. Buscar respostas para este resultado na manipulação de grupos de whatsapp pelo PSL e poder de fogo das igrejas neopentecostais canalizado pelo PSC ainda está no terreno da estratégia de marketing político – que, não obstante, foi muito bem executada por eles.

Uma estratégia eficiente de marketing sabe o que a sustenta. No caso destas eleições, as tendências de voto, nas quais o PSL conseguiu surfar se apresentando como o legítimo canalizador do polo anti-PT, se afirmando diante dos eleitores como o voto otimista a partir da prisão de Lula. Uma interpretação não dialética apenas observaria um crescimento do voto de direita, e não uma tendência a migração da maioria dos eleitores do centro para os polos como resposta à crise institucional que alcançou novo patamar com a prisão de Lula. Partilhamos do assombro com a eleição de Witzel, mas depreendemos dela que nem a temperatura política, nem sua pressão, muito menos a velocidade dos acontecimentos, estão em suas condições normais atualmente.

Estrategistas eleitorais, em momentos como estes, precisam adaptar seu olhar para serem capazes de oferecer candidatos a altura destes tempos e sustentá-los com uma campanha eficiente para elegê-los. A extrema direita assim o fez, mostrando domínio de técnicas de campanha eleitoral que tornam simples ao eleitor se identificarem com a mensagem que queriam passar: Se foi certo prender Lula, é preciso votar contra todos que permitiram Lula governar.  

No extremo oposto, Lula ofereceu ao PT do Rio uma candidatura com potencial para canalizar o polo esquerdo de uma eleição nestas condições anormais. Nestes momentos, ser desconhecido(a) das amplas massas não é – como não foi para Witzel – obstáculo para eleição. Ao contrário, uma candidatura de alguém não associado ao jogo do poder poderia canalizar melhor a vontade de mudança dos eleitores e eleitoras.  Os resultados atingidos pelo pseudojuiz revelam que sua oposição simétrica ficou vazia, apesar da existência de uma candidata que poderia ter lhe servido de contraponto.

Nossa avaliação de que havia espaço político para uma maior votação em Haddad é válida para Marcia Tiburi também. E todos os obstáculos que foram enfrentados na candidatura a presidência dele foram amplificados na campanha ao governo do estado dela.

O PT do Rio de Janeiro

Arrastando o peso de ser o resultado de anos de aplicação da decisão de só ser governo indiretamente, ocupando cargos em governos locais, o PT carioca não forjou quadros políticos com inteligência eleitoral capazes de, diante da conjuntura polarizada pela prisão de Lula, considerarem tirar vantagem eleitoral para a única candidata em sua defesa. A candidatura de Marcia acabou caindo internamente no mesmo limbo que as candidaturas próprias ao governo e prefeitura em eleições anteriores, que não foram efetivamente tratadas pelo conjunto do partido como candidaturas para ganhar.

Não se apresentar diretamente com a intenção de governar o estado é um lugar no jogo político que passou a ser ocupado pelo PT local a despeito da disposição da militância petista carioca. Isto ficou bastante claro em 1998 quando a maioria dos militantes, em convenção, decidiu lançar Wladimir Palmeira candidato pelo PT ao governo do estado. A decisão da convenção foi surpreendente, visto que as maiores forças internas estavam construindo o acordo de vice com Garotinho. Surpreendente e traumática também foi, na sequência, invalidar esta decisão através de intervenção nacional no PT do Rio. O trauma foi tão grande que alterou a dinâmica partidária local irreversivelmente.  

Depois dela, o PT nacional, com a imagem desgastada com a militância local, não mais ousou contrapor-se ao lançamento de candidaturas próprias no primeiro turno, mas dava carta branca para acordos de bastidores se revelarem no segundo.  A dinâmica parasitária que se instalou no PT do Rio ao redor de governos locais levou o PT local a ficar conhecido como o “partido da boquinha”. Em que pese este apelido ter sido usado como parte de uma operação de ataque ao PT, é fato que certos políticos do partido pegam emprestado a forma de fazer política fisiológica, inclusive internamente, dos políticos aos quais se aliam. Se este é um problema geral, no caso do PT carioca a cara de pau de alguns dirigentes e a desorganização do partido chega a assustar petistas de outros estados que vem para cá.  Por contraste, entender os problemas do PT do Rio acaba sendo um guia para todos nós entendermos o que não se deve fazer. E a ideia que percorre todo este texto é que o PT não pode se esconder dos eleitores.

O PSOL do Rio de Janeiro

A traumática intervenção teve por parte das lideranças que apoiavam a candidatura de Vladimir Palmeira uma resposta sintoma. Derrotados na luta para que o PT governasse, acabam se submetendo a derrota e substituindo a luta para o PT governar pelo combate para governarem eles mesmos. Uma parte destas lideranças, então, se lança na construção do PSOL no Rio, apresentando-o para a militância como uma esquerda não fisiológica. O PSOL passa então a ocupar o papel de oposição aos governos locais que o PT não podia combater de conjunto porque estava aliado, mesmo quando os militantes sindicais e populares petistas eram reprimidos violentamente por estes governos. Este lugar que o PT tinha deixado vazio acabou sendo ocupado por um partido que, para justificar sua existência, precisava dizer que o PT tinha acabado e que não havia mais combate possível em seu interior. Ao invés de lutarem para desfazer a aliança do PT com os inimigos do povo carioca chamando o PT para uma oposição que um dia pudesse vir a contar com a força do governo federal e assim derrotarem juntos localmente as forças que diziam combater, seus dirigentes se regozijam desde sempre, apontando a “lista de crimes do PT” para decretar sua morte. Se erros não faltaram no PT, apontá-los publicamente é uma decisão de algoz. Outra bem diferente é lutar para que o PT, mesmo que tenha errado, acerte, mas isto a esquerda punitivista não pode fazer.

Do lado de fora do PT, esta esquerda só pode existir como partido político se disputar sua base eleitoral, o que obriga seu discurso no sentido de explicar porque não votar PT, alimentando o antipetismo. Isto é mais do que uma decisão política errada, é expressão da pressão da justiça eleitoral e suas condições draconianas. Do lado de fora do PT, também deixam os dirigentes petistas que tanto criticam de mãos livres para acordos que eles dizem considerar contrários aos interesses do povo trabalhador. A utilidade deste tipo de partido para o conjunto da classe contrasta com a validação que ocupar um espaço vazio lhes dá diante da própria classe. Mas  é a existência do vazio que o leva a ser ocupado por oportunistas incapazes de fazerem uma análise política que o preencha com as perguntas certas.

É na ausência de uma análise que mereça este nome que o PSOL, estabanadamente, obteve validação na militância, inclusive petista, de que seria ele o principal partido da esquerda no Rio. É claro que o PSOL construiu relações com seus eleitores, principalmente na juventude, mas estas relações são, por sua vez, mediadas pela insatisfação desta base com o PT que se questionava se a solução partidária era certa ou errada. Fingindo não ser partido, entre os manifestantes saídos de 2013, o PSOL do Rio e os maoístas tinham se unido aos anarquistas para expulsar a voz petista das ruas, sob a reivindicação “sem partido”. Ao mesmo tempo, o mantra, dito e repetido por lideranças tanto do PT local quanto do PSOL é o mesmo: está insatisfeito(a) com o PT, vá para PSOL. Útil aos dirigentes de ambos os partidos, o mantra acabou se disseminando como sintoma da doença, mas não como expressão de sua cura.

Decretar o PT superado sem nada superior para oferecer, senão o fato de nunca ter passado pela contradição de ser governo é a solução Bolsonaro. Que, não obstante, é o único que pode ocupar este lugar, porque não tem vergonha dele e, assim, pode assumir que seu objetivo é varrer o PT. O PSOL, ao ficar no meio do caminho, dizendo ao mesmo tempo que não se pode votar no PT, mas sendo levado por sua base a chamar o voto PT nos segundos turnos nacionais, não consegue ser compreendido pela maioria do eleitorado, não agregando ao conjunto dos oprimidos mais do que o PT já havia agregado.

Em que aspecto concreto, então, o PSOL, o PSTU ou mesmo o PCO têm o direito de se apresentarem como melhores que o PT aos eleitores do Rio de Janeiro? Mesmo de uma forma enviesada, capitalizada pelo antigo PMDB, o PT contribuiu para o desenvolvimento do Estado, que foi estancado pela “lava-jato. A população carioca experimentou melhoria das suas condições de vida e emprego durante os governos do PT. Isto não precisava ser defendido? Se de fato o PSOL fosse fruto do amadurecimento político da classe trabalhadora superando formas de organização por outras superiores, o PSOL defenderia as conquistas dos governos do PT e direito de Lula ter sido candidato, mesmo que criticando outros aspectos da política petista local ou nacional. Mas como não é superior ao PT e sim um passo atrás, o candidato escolhido pelo PSOL para ser o candidato ao governo do estado só poderia ser um notório defensor da operação fascista “lava-jato.

A polarização política contra o PT

Marcia, por conta da dinâmica política carioca, não chegou a ter no Rio a mesma sorte de Haddad, que encontrou em Boulos uma voz contra a prisão de Lula, ajudando a equilibrar o debate político. Marcia estava sozinha defendendo Lula contra todos os candidatos que reivindicavam a “lava-jato.  Nem mesmo o principal beneficiário eleitoral das melhorias dos governos do PT, o traíra do Eduardo Paes, cujo grupo local também foi prejudicado pela “lava-jato”, se posicionou ao lado de Lula contra sua prisão ilegal.

A onda nacional que consolidou o polo direito das eleições em torno do PSL na campanha do primeiro turno arremessou o candidato do PSC ao segundo turno no RJ. Pela esquerda, uma onda Haddad no primeiro turno poderia ter o mesmo efeito com Marcia. Se a migração de votos de Lula para Haddad se consolidasse no primeiro turno, o isolamento de Marcia no polo em defesa de Lula lhe daria uma vantagem competitiva fundamental aos olhos dos eleitores e eleitoras, no lugar que ela efetivamente ocupava no Rio: a única candidata que defendia Lula, preso porque melhorou a vida do povo.

A tendência à polarização do eleitorado anti-PT X PT se mostrou indefectível mesmo diante de toda a crítica à polarização feita por aqueles que queriam se apresentar como viáveis e iludiam os eleitores de que seria possível algum resultado diferente da vitória de um dos dois polos. O crescimento do polo oposto demonstra investimento e inteligência. O que não tem sido visto no nosso. Infelizmente a ação dos setores que disputam o legado de Lula atrasou, enfraqueceu e ainda enfraquece o polo oposto a Bolsonaro. De modo que, diante do atraso na consolidação da solução de voto que poderia unificar toda a potência deste polo, a ida ao segundo turno, contra a extrema direita ainda estava determinada, por inércia, pelo trabalho anterior de lideranças e partidos que traziam referências de resultados na melhoria da vida dos eleitores. Isto levou o candidato do PT ao segundo turno nacionalmente. No Rio, a herança dos Governos do PT, infelizmente, levou ao segundo turno Eduardo Paes, beneficiado pelas antigas alianças, mas completamente incapaz de vitória em eleições que quanto mais polarizadas nos estados, mais tendiam a varrer o centro parasitário.  

A história, ainda que siga seu próprio curso determinado pelas forças em luta, permite aos homens e mulheres ocuparem lugares únicos para além das tendências inerciais de seus grupos. Isto aconteceu com Marcia Tiburi que se desvencilhou do PSOL em 2017 por conta da defesa deste partido da operação “lava-jato”.  Logo, a hipótese que Paes defendesse Lula contra sua prisão, como justa retribuição ao fato de terem sido as melhorias implementadas por Lula que o tinham sustentado como liderança política local, não poderia estar de antemão descartada. Mas momentos como estes são muito raros e só acontecem com sujeitos(as) de envergadura pessoal extraordinárias. Não é o caso do fanfarrão Paes, e isto já tinha ficado claro desde a prisão de Lula em abril de 2018. O momento exigia mais do que as antigas lideranças locais tinham a oferecer e era com este momento que a candidatura de Marcia, livre dos erros do passado do PT no Rio, dialogava.

O movimento de mulheres no Rio

Nos últimos anos, mais e mais mulheres tem se dado conta de sua subalternização e que a condição que tira da mulher a autonomia de decisão sobre seu próprio corpo (e mente) precisa ser combatida. No Brasil, as mulheres mais jovens, que tinham crescido melhor alimentadas, num país com mais empregos e mais acesso ao estudo durante os governos do PT podiam formular melhor seu desejo de participação política e luta contra a opressão que se encontram, inclusive na militância, onde suas vozes ainda valem menos do que a de seus companheiros. O Partido dos Trabalhadores, ocupado com seus problemas e dificuldades para conseguir governar o país, concentra suas ações para as mulheres na esfera macro. No terreno das ações concretas, aprova medidas como a tipificação do feminicídio, importantes, mas insuficientes. Apontando a insuficiência dos governos do PT com as pautas tradicionais das mulheres, entre elas o direito de decidir interromper a gravidez, o PSOL ganha audiência principalmente entre as mulheres mais jovens, que tinham despertado para a ação política em 2013.

Uma construção difícil de unidade no Rio tem sido tentada pelas mulheres do PT desde então na organização de manifestações amplas e unitárias. Esta tentativa de unidade acabou tomando um contorno mais definido desde o “Fora Cunha”, cujo formato insistia no caráter “horizontal” de tais manifestações, sem “privilegiar” a voz de partidos políticos. Nós,  que postulamos uma coerência entre o conteúdo programático e a forma organizativa, identificamos que um formato de manifestação que tire a voz própria dos partidos, punindo-os com o silêncio, não pode reivindicar nada mais do que punir alguém. Exemplo máximo da inutilidade de personalizar o inimigo, tirar o Cunha não derrotou nenhuma ameaça fundamentalista da qual ele era símbolo. Apresentar este movimento como vitorioso quando Cunha é preso a revelia da lei chega a ser criminoso. No entanto, o formato foi aprovado pelo movimento de mulheres cariocas com a anuência das mulheres que representavam o PT nestas construções.

Foi nestas condições que o movimento feminista carioca recebeu a queda de Dilma,  tratada, a partir das mulheres do PSOL e do PSTU, como punição merecida. Os argumentos usados dando exemplos de que Dilma não era uma legítima representante do movimento feminista porque, por exemplo, não tinha lutado para aprovar o direito ao aborto, impede a unidade das mulheres em solidariedade à presidenta golpeada.  Ao absurdo de nossa pauta ter sido usada contra uma de nós, que tinha sido vítima de uma violência institucional gigantesca, soma-se ainda o contraste com o lindíssimo movimento pré-golpe no qual as mulheres tomaram a frente na defesa de Dilma. Esta confusão política no movimento feminista carioca impediu que as próprias feministas tivessem consciência, em 2018, sobre a melhor solução de voto para lutar pelos interesses específicos e gerais das mulheres oprimidas.

Marcia Tiburi, uma feminista, filósofa e escritora já vinha alertando para risco do crescimento das ideias fascistas no Brasil. Seu posicionamento, não sendo apenas discurso, assumiu a forma de compromissos organizativos para combatê-lo. Em 2013, Marcia tinha se filiado ao PSOL e diagnosticado a necessidade de laços de solidariedade que fossem superiores às disputas mesquinhas do jogo político que acabavam instrumentalizando as mulheres de todos os partidos contra seus próprios interesses.  O desejo de unidade das mulheres em torno de uma forma superior de fazer política, mais inclusiva e mais solidária, a levou, em 2015, a criar a partidA, um movimento de mulheres feministas de esquerda, que independente da sigla partidária, se dispunha a apoiar todas as mulheres que se lançassem na vida política. Detectar que existe mais unidade nos interesses das bases dos partidos de esquerda, inclusive de suas mulheres, do que os partidos existentes em suas dinâmicas viciadas permitiam realizar é, sem dúvidas, um mérito da análise política inteligente, que busca solução para os problemas. Preencher o espaço vazio, porém, é todo um outro problema, ao qual nos faltam referências que não capitulem ao oportunismo.

Após sua saída do PSOL em 2017, diante de uma “lava-jato” que aumenta sua escalada fascista, Marcia acaba aceitando se filiar ao PT e, na sequência, aceita a proposta de Lula de ser candidata ao governo do Estado. Seria de se esperar que sendo ela própria expressão da luta por uma unidade das mulheres num patamar superior, que o movimento feminista a visse como tal e apoiasse sua candidatura, mas a dinâmica partidária local se impôs e impediu que as feministas de esquerda se unissem em torno de sua candidatura. Para as feministas do PSOL sua candidatura se configura como uma afronta aos interesses do PSOL local de assumir o protagonismo político no Estado e nem mesmo suas companheiras de partidA eram capazes de lhe ser solidárias. O antipetismo no movimento feminista carioca era um fato tão consolidado que este movimento não tinha mais nada a oferecer a Marcia além de puni-la por defender o direito do PT governar.

O “ele não”

No artigo anterior sobre a polarização nas eleições presidenciais identificamos a coincidência entre as manifestações “ele não” e a diminuição na velocidade do crescimento de intenções de voto em Haddad após sua inscrição no lugar de Lula. Mas foi no Rio que temos o exemplo máximo da violência antipetista deste movimento, o que nos permite concluir que a coincidência não é fortuita.  

A organização do ato de massas no dia 30 de setembro caiu no colo das mesmas organizadoras das atividades anteriores: hostil ao PT mas que aceita as petistas. A tática das petistas foi se focar nas questões de segurança do ato, no que foi feito um bom trabalho. O abandono, porém, do combate para que as candidatas petistas falassem neste ato acabou contribuindo com o silenciamento do conjunto das candidatas. As mulheres petistas já tinham se acostumado que só seriam aceitas nos espaços de unidade se se calassem sobre o direito do PT concorrer às eleições. Esperavam terminar logo de lidar com este ato para voltar para a campanha. Dar a voz às candidatas mulheres, que poderiam assumir conjuntamente a liderança de um mutirão para derrotar eleitoralmente Bolsonaro, sua família e seu partido nem lhes passou pela cabeça.

O fato, em si grave, se torna absurdo quando uma das mulheres silenciadas é justamente Marcia Tiburi, a única candidata ao governo do Rio que questionava o fascismo contido na prisão de Lula.  Como podiam apresentar o movimento “ele não” como movimento de mulheres contra o fascismo se ele sequer dá voz às mulheres que, para combater o fascismo contido na ação de sequestrar Lula, e mantê-lo refém nas masmorras da Polícia Federal, tinham aceito o desafio de sair de sua zona de conforto e ser candidatas? Ou mesmo aquelas que tinham saído de sua zona de conforto para não deixarem a voz de Marielle, companheira de partidA de Marcia, ser silenciada?

Qual o sentido de não transformar o “ele não” em palanque eleitoral se estávamos às vésperas de eleições? O falso puritanismo que critica o oportunismo eleitoral servia aqui de cortina de fumaça para esconder que o “ele não” já era, em si mesmo, um posicionamento eleitoral, que só poderia concluir com a luta para eleger o maior número de candidatos e candidatas que se opusessem aos bolsonaros, disputando com eles as vagas as quais se apresentavam.

Mas a esquerda punitivista gosta de um chicote estalando em suas costas. E nem diante do fato de que a grande maioria das organizadoras do evento estavam fazendo a campanha para alguma candidata unificava o movimento feminista a dar voz a todas elas. Para não privilegiar umas sobre outras, tiravam a voz de todas.  A incapacidade deste movimento em defender as candidatas mulheres contrasta com a violência do ataque às mulheres em curso na política.

No mesmo dia do ato contra Bolsonaro, o PSL realizava, ele mesmo, um outro ato – eleitoral – no qual Witzel ajudava a rasgar a placa de homenagem à Marielle, assassinada, e sem justiça, cujas imagens viralizaram como uma bomba semiótica que mostrava ousadia dos que não reconhecem o direito de mulheres intervirem na política com sua própria pauta. Neste mesmo fim de semana, longe do centro da cidade, uma candidata do PT a vereadora em Belfort Roxo, foi agredida a tiros por políticos locais associados à milícia e aliados de aliados.  E estes são apenas alguns dentre muitos exemplos. A temporada de caça às mulheres de esquerda fazendo política estava aberta e as candidatas não tinham voz nem nas atividades construídas por mulheres “de esquerda”.

O fato de muitas jovens feministas desconfiarem de uma solução política através da representação partidária não é um argumento sólido para, as vésperas de uma eleição na qual se detecta uma “onda Bolsonaro”, a unidade entre todas estas mulheres e as candidatas se constituir sobre o silenciamento destas últimas. Mesmo podendo ser consideradas insuficientes, farsescas ou fraudadas, as eleições estavam acontecendo em poucos dias, e, diante delas, muitas candidaturas populares, sem estrutura financeira e sem espaço na mídia disputavam vagas com os candidatos do PSL. Quem poderia se opor que, nos espaços de resistência construídos pelas mulheres, estas opções de voto tivessem voz?

Um acordo político com as militantes não partidárias para dar voz às candidatas, e até mesmo aos candidatos – se isto garantisse a unidade – permanecia possível. O fato de não fazerem parte de um partido ou sinceramente não acreditarem em processos de representação política, não impedia que qualquer pessoa honesta compreendesse o direito de disputar com o PSL as vagas em aberto nestas eleições. Não era, então, ao interesse das militantes não partidárias que o silenciamento das candidatas respondia, o que poderia, inclusive, ser resolvido dando voz aquelas que consideram insuficiente uma saída eleitoral para a crise política.

Qual interesse eleitoral então a voz das candidatas mulheres se opunha?  Num ato que desse voz às candidatas, a voz de Marcia, uma intelectual antifascista, se potencializaria e poderia repercutir, o que poderia colocar o resultado das eleições ao governo do Rio em outros termos, ajudando inclusive a batalha nacional do PT, que se defrontava com atraso do Rio na transferência de votos de Lula para Haddad.

Mas a candidatura de Marcia emplacar não estava nos planos de nenhum chefe político local e, instrumentalizadas, as mulheres, apesar de reconhecerem o quanto são subalternizadas em seus partidos por estes mesmos chefetes, não lhes opuseram resistência. Os termos da unidade construída no “ele não” no Rio de Janeiro assume, assim, a mesma dinâmica nacional de operação cirista para dividir os votos de Lula e tirar o PT do segundo turno, com Tarcísio ocupando localmente o lugar de Ciro.  

Elas por elas?

Insistir na viabilidade da candidatura de Marcia torna a análise que a sustenta difícil diante do fato de que esta solução de voto não foi efetivamente levada a sério por seus companheiros e companheiras da direção do PT local, mas apresenta a possibilidade de que, caso tivesse sido, que a candidatura de Marcia canalizasse eleitoralmente os anseios antifascistas das mulheres, apoiando e incentivando que outras mulheres, também candidatas, usassem sua voz, não se deixando instrumentalizar.

Poderia ter sido elas por elas, num acordo entre as diversas candidatas a serem as vozes que não aceitam a violência, defendendo-se umas às outras, dispondo-se a construir juntas uma rede de suporte para enfrentar o fato de que, na atual conjuntura política, ser boa de voto como Marielle, ou bom de voto como Lula, é um risco a sua integridade física.

Como balão de ensaio, a esquerda carioca, se fosse realmente o embrião de uma experiência superior à do PT real poderia construir uma dinâmica que não exclui, não cala e não pune os divergentes. Ao contrário, então, do que apresenta a si mesma, a esquerda carioca está, na verdade, um passo atrás da esquerda nacional em termos de consciência política. Este atraso se refletiu nos eleitores.

O que presenciamos no Rio, no ambiente que se chama de “esquerda”, foi a continuidade da hostilidade ao PT e aqueles que faziam parte deste ambiente não tinham mais nada a oferecer à candidatura de Marcia Tiburi do que um cale-se. O que coloca um desafio extra sobre como potencializar num movimento em favor da liberdade de Lula o excelente resultado de quase meio milhão de votos atingido pela candidata.

Como já dissemos antes, detectar o vazio é mais fácil do que ocupá-lo com soluções que não repitam as ilusões que nos atrasam. Mas é preciso seguir em frente constatando que diante de uma polarização real muitos não conseguem nem olhar para ela, o que dizer, então, de se dispor a entendê-la. No entanto, a polarização está ai, determinada pela existência de um polo que quer destruir o PT e com ele toda a militância de esquerda.

Para eles, os vermelhos são todos iguais e destruir o PT é só uma parte da guerra, aquela parte na qual destroem o maior e mais forte de nós. Não combater isto é uma opção política que não vai evitar a destruição, na sequência, do PSOL, do PSTU, do PCdoB, do PCO, da CUT, dos sindicatos, dos movimentos sociais em geral ou mesmo movimentos específicos de mulheres, negros e negras ou pessoas trans.  

Fazer um balanço eleitoral é útil por que as eleições concentram num curto período de tempo todos os problemas. Entender o filme que se desenvolveu e continua se desenvolvendo na cabeça dos eleitores, no qual os resultados das urnas se encaixam como fotografias de determinados momentos e contornos particulares é um trabalho de investigação analítica, difícil mas possível. No caso da eleição dos abomináveis, entender a dinâmica dos acontecimentos é o que permite que as fotografias das urnas façam sentido.  É a vitória de Witzel que mostra que o eleitor procurou uma solução de voto para a sensação de insegurança institucional que a prisão de Lula, ex-presidente, e franco favorito, lhe causou. A extrema direita respondeu a esta dúvida e se qualificou eleitoralmente.

Mas não teriam os eleitores direito a uma outra versão, que mostrasse o absurdo da prisão de Lula, preso por ser bom de voto? Apesar de ser mais difícil oferecer uma visão otimista diante da prisão de Lula,  já que, se ele está preso os poderes estão podres, a solução de voto mais simples para derrotar Bolsonaro eleitoralmente era manter a unidade dos votos de Lula em torno da solução de voto no PT. O voto Haddad, independente do candidato e suas opiniões sobre diversos assuntos, assumia assim o conteúdo de defesa de todos nós.  No entanto foi impossível de ser articulada no cenário hostil ao PT que se tornou a autointitulada esquerda e centro-esquerda brasileira, arrastando nisso grande parte dos “blogueiros progressistas”, todos empenhados em dividir o espólio eleitoral de Lula. A solução de voto em Haddad, por sua vez, não determinava que em todos os estados o protagonismo desta solução fosse canalizado somente pelas candidaturas do PT aos governos estaduais. Outros partidos ou lideranças que soubessem tirar vantagem da situação polarizada poderiam e ainda podem oferecer aos eleitores uma versão sobre a prisão de Lula que se baseie nos fatos concretos e não em “fakenews”.  No caso do Rio, infelizmente, mas não surpreendente para nós, o PSOL se recusou a ocupar este lugar, o que, se é coerente com sua trajetória antipetista, acabou se tornando um obstáculo ao seu próprio desenvolvimento eleitoral reservando-lhe nas eleições um lugar nem mesmo à altura de Paes.

Entender a confusão da “esquerda” permite, no entanto, repensar táticas e estratégias. Como vimos no decorrer deste artigo, a confusão no Rio não começou hoje e não será enfrentada facilmente. Mesmo em condições favoráveis para o diálogo direto com eleitores e eleitoras, a campanha de Marcia Tiburi foi sabotada pelas atuais lideranças cariocas, incapazes de enxergar mais longe que seus próprios umbigos, com raras exceções, como as candidaturas mais fortes do PT, entre elas Benedita, que precisavam defender eleitoralmente o partido para eleger a si próprias.  Mas nem isso os estrategistas de campanha de Marcia foram capazes de potencializar, construindo uma unidade real da campanha ao governo com as candidaturas proporcionais, o que poderia impulsionar o PT eleitoralmente de conjunto no estado. Este balanço que apresentamos aqui não é só uma argumentação lógica, ele se baseia em fatos, entre eles o fato de que a reunião que Marcia pediu com os demais candidatos do PT nunca foi marcada. A ausência de balanço eleitoral do PT RJ depois das eleições, com a presença de Marcia, é apenas a cereja do bolo que mostra o não lugar que os atuais dirigentes petistas reservaram a ela.

Longe de nós a intenção de que as questões apresentadas neste artigo sirvam para um debate maniqueísta que poderia levar a mais dedos em riste entre nós.  Ao tentarmos mostrar uma parte da complexidade das questões que nossa sobrevivência política em tempos de Golpe apresenta, estamos também recusando soluções do tipo “salvadores da pátria” ou que se achem no direito a atirar a primeira pedra. A acusação, portanto, que fazemos de que o antipetismo entre nós é um obstáculo à derrota de Bolsonaro e afins é ampla o suficiente para incluir tanto lideranças não petistas que dão voz ao antipetismo, em todas as suas variantes, quanto lideranças petistas que capitulam a ele.

Esta compreensão, permitida pela análise, nos leva a suportar o lugar, ainda vazio, da voz que pode falar pelo polo oposto ao polo que está nos esmagando e, assim, oferece uma interpretação no terreno eleitoral polarizado, para o desperdício tanto de soluções de voto ao redor de Marcia no Rio, Dilma em MG e Marília no PE, quanto ao aproveitamento insuficiente da solução de voto em Haddad.

Neste artigo, então, nos basta a constatação de que a consciência de conjunto das forças políticas que se estabeleceram no cenário político antes do Golpe (e seu aprofundamento com a prisão de Lula) é insuficiente para opor ao golpe uma verdadeira resistência. Esta dificuldade atravessa de alto a baixo todas as construções de “unidade” no pós-golpe que não absorveram o fato de que as regras do jogo mudaram e que a afirmação do direito do PT governar deixou de ser uma tarefa exclusiva dos petistas para se tornar a de todos que rejeitam a política aplicada pelo Golpe.

A polarização, contra ou a favor do PT, neste sentido, não pode ser revertida pela afirmação de uma solução equidistante dos polos. E isto ficou demonstrado eleitoralmente. Os polos existirem é o que os que polariza. E existir um polo que quer acabar com o PT obriga um polo de defesa do PT. Acabar com a polarização aceitando que o PT seja esmagado é a paz dos cemitérios. E sabemos quem continuará ocupando os túmulos.

Se Lula, como aquele do andar de baixo que chegou mais longe na política no Brasil, continua preso, quem poderá acreditar que o conjunto dos de baixo possa se libertar? Os que defendem a punição de Lula ou consideram sua prisão como algo inelutável podem até, ao contrario dele, andar pelas ruas e usarem suas vozes, mas não são livres, tão pouco. Estão acorrentados, ora materialmente, ora simbolicamente, ao Estado punitivista que os impede de defender a si mesmos, tanto coletiva, como individualmente e, inevitavelmente, serão as próximas vítimas.

A conclusão desta análise caminha no sentido apontar que para qualquer construção que articule o PT, outros partidos, grupos e movimentos poder entregar algo que mereça o nome de “unidade” diante do GOLPE, esta construção tem que partir do compromisso de defesa mútua contra os ataques do aparelho repressor do regime, ou seja, no mínimo, a defesa de todos os nossos presos políticos. No Rio, por exemplo, uma verdadeira unidade na resistência adicionaria os 23 manifestantes indiciados pela polícia carioca em 2014 na lista que inclui Lula e Zé Dirceu. Os exemplos são incontáveis visto que vítimas de violência policial, jurídica e política não faltam por todo o Brasil, de forma que o terreno político para uma unidade real existe se as vozes se agregarem ao invés de silenciarem-se umas às outras.

Em que pese a consciência insuficiente entre nós, oprimidos do regime, a dinâmica concreta dos acontecimentos é mais importante do que o que pensamos sobre eles. Como pode ser constatado a partir das milhares de novas filiações ao PT que acontecem todos os meses, o eleitorado, em sua vertente oposta a de Bolsonaro, se desloca diretamente para a defesa do partido de Lula. A política derrotista da pseudovanguarda que admite como normal negar aos petistas a defesa do direito de seu partido governar, sob esta perspectiva, pode ser tratada como externa a nós.

E é assim que concluímos que, ainda insuficiente, a luta para libertar Lula, refém do Golpe, tem concentrado o que existe de possível no caminho da libertação tanto das consciências, aprisionadas pelas forças inerciais do passado, quanto a de nossos corpos, vítimas de ameaças reais de recrudescimento da violência. Destituídas de seu conteúdo de autodefesa coletiva, pretensas construções de unidade acabam se tornando simulacros, menos úteis que formas auto-organizadas ou espontâneas de defesa de Lula que se espalham por aí por quem está realmente disposto(a) a sair de sua zona de conforto.

Por ser, ela mesma, uma das milhares de mulheres que estão se filiando ao PT depois do Golpe e da prisão de Lula, o balanço da campanha de Marcia Tiburi ao governo do Rio é tão importante. O limitado PT carioca, em sua configuração atual, ainda não está pronto para digerir esta experiência. Não obstante, como vimos ao longo desta análise, este debate não pode se desenvolver em outro lugar que não o PT. Esperamos, com este longo texto, ajudar todos e todas que já perceberam que será necessário ter paciência e firmeza para que ele se desenvolva plenamente. Nosso luto, transformado em verbo, precisa da reflexão responsável que se dá os meios de formular aquilo que pode entregar.

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