Em defesa do direito de Rodrigo fazer ciência – Por Christiane Granha

Conheci Rodrigo em 1998, numa reunião de jovens na Baixada Fluminense. Na época, ele estava entrando na Faculdade de Astronomia da UFRJ e queria entender os primeiros minutos depois do “big bang”. Atualmente, Rodrigo Francisco dos Santos, que também escreve artigos políticos para o Voz Operária, é um cientista amadurecido o suficiente para estar participando do desenvolvimento de um novo ramo teórico na física, a Teoria da Relatividade Especial Simétrica, contribuindo com a solução de equações que permitem uma modelagem matemática no estudo da “energia escura” do universo. Esse recente desenvolvimento na Física tem sido recebido com entusiasmo por uma parte da comunidade de pesquisadores, que consideram possível comprovar em laboratório os resultados obtidos na pesquisa teórica.

Apesar dessa conquista pessoal impressionante, Rodrigo está desempregado e não conseguiu sequer concluir seu doutorado na UFF, visto que, em 2016, seu orientador o desligou do programa, enviando uma carta ao colegiado de Física na qual consta que “O aluno não consegue executar de maneira satisfatória as tarefas mais simples, muito menos reproduzir os resultados da literatura. Sendo que o programa de pesquisa proposto requer a execução de cálculos muito mais complexos, eu não consigo ver uma maneira que o aluno conseguirá executá-lo“… Certamente são palavras fortes, que diagnosticam uma profunda incompetência e inabilidade, que, não obstante, foram aceitas pelo colegiado.

Em contradição ao que foi alegado, os fatos: Em primeiro de julho de 2016, antes da decisão sobre seu desligamento, um trabalho enviado por Rodrigo foi aceito para exposição no IWARA (International Workshop of the Astronomy and Relativistic Astrophysics). Rodrigo comunicou ao colegiado e solicitou sua participação no evento, que foi recusada.  Em 25 de setembro de 2017, outro trabalho seu foi aceito na prestigiada revista International Journal of Modern Physics D. No ano de 2018, foram outros dois resultados publicados nas revistas Physics of The Dark Universe e Modern Physics Letters A. Em 2019, um trabalho de revisão, que seria um dos capítulos da tese associada ao trabalho aceito no IWARA, foi submetido à Revista Brasileira de Ensino de Física.

Como um doutorando que “não consegue executar de maneira satisfatória as tarefas mais simples” poderia ter tal produção teórica? Evidentemente, as publicações realizadas por Rodrigo não sustentam a decisão que seu orientador submeteu ao  Colegiado, sendo aceitas por este.

Convicto da injustiça de que é vítima, Rodrigo contratou um advogado, também, como ele, filiado ao PT, para representá-lo em processo judicial que solicita reversão de sua exclusão do programa de doutorado. Sem condições financeiras de arcar com o pró-labore do advogado e as custas do processo, Rodrigo iniciou uma campanha de arrecadação financeira para este fim.

No processo judicial, outras evidências foram apresentadas por Rodrigo sobre a justiça de seu pleito. Logo após sua exclusão, Rodrigo participou de um processo seletivo para recuperar a Bolsa de Estudos, que  seria perdida por renúncia da UFF. Nesse processo, Rodrigo obteve a nota mais alta na prova escrita, mas perdeu a vaga para outro concorrente que não fez a prova escrita, aproveitando a nota do mestrado – o que não estava previsto no edital. A própria Defensoria da União, considerou esse  processo seletivo “viciado”. Rodrigo aqui teria sido eliminado pela entrevista.

Do que estamos diante? Se podemos dizer que a decisão de excluir Rodrigo do doutorado não encontra sustentação na sua capacidade teórica, teria essa decisão algum caráter político pelo fato de Rodrigo não se esconder como petista, tendo participado ativamente, carregando sua bandeira vermelha nas mobilizações dos pós-graduandos na UFF, por reajuste de bolsas?  A sincronicidade de sua exclusão da UFF com o Golpe contra Dilma não se alinharia com o novo momento da academia brasileira, no qual o desenvolvimento científico não é mais desejado? Seria apenas uma coincidência que no Brasil do Golpe – que abre as portas do obscurantismo – a academia se feche para estudantes pobres, oriundos das periferias e que não têm nenhuma alternativa a não ser exercer militância  para defender seu direito à assistência estudantil e, assim, prosseguir fazendo ciência?

Há uma grande quantidade de questões políticas que, ao defender o direito de Rodrigo continuar produzindo ciência, propiciam alguma discussão. Em primeiro lugar, diz respeito ao direito da classe trabalhadora à ciência. Se a classe operária tudo produz, seus filhos têm tanto o direito de acesso ao conhecimento acumulado, quanto o direito de produzir conhecimento científico, questionando atuais paradigmas ou produzindo novos.  Entre as famílias proletárias e esse direito, porém, interpõe-se uma série de obstáculos que se materializam na vida real como problemas com que cada indivíduo – ao tentar apropriar-se dos métodos de produção científica – se defronta. O acesso e a permanência nas instituições validadas como científicas envolvem um sem número de desafios diários, que envolvem demandas não tão simples de serem resolvidas, nas famílias proletárias: transporte, alimentação, moradia, acesso a computadores e condições ambientais adequadas para estudo e produção, bolsas de estudo, entre outros. O jovem ou a jovem que não vem de famílias que possam garantir essa retaguarda acabam se defrontando com sofrimentos de toda ordem, apresentados  como limitações individuais e validados socialmente por uma ideologia meritocrática, baseada em preconceitos de classe ou raça. Ainda que os problemas apareçam individualmente, eles são expressão de um estigma coletivo de uma sociedade organizada sob um sistema que nega à classe trabalhadora o seu pleno acesso ao conhecimento, inclusive a sua produção.

Rodrigo, morador da Baixada, filho de proletários, que tinha entrado na universidade na época de FHC, só tinha conseguido permanecer nela, diante da falta de recursos próprios, através de reivindicações parciais de assistência estudantil que foram atendidas pelos governos Lula e Dilma. Assim como ele, durante os governos do PT, milhares de outros jovens, não sem grande sacrifício individual, conseguiram se manter estudando e muitos, principalmente negros e negras, fazem parte das primeiras gerações em suas famílias a terem acesso às universidades. A deposição do PT do governo e o impedimento para que o PT volte a ele, prendendo Lula, funcionam aqui como o fechamento das portas da academia para o andar de baixo da sociedade, o que o regime golpista anuncia sem a menor vergonha.

Esse novo Brasil, sem proletários na ciência, aproxima as tragédias individuais das coletivas. Ao ser excluído do ambiente acadêmico da UFF e ter cortada sua bolsa de estudos, Rodrigo enfrenta dificuldades reais de sobrevivência, as quais o pressionam no sentido de desistir de seus estudos e descobertas, o que imporia à própria ciência um atraso na consideração de novas hipóteses na compreensão do universo que nos rodeia. A defesa de Rodrigo e seu direito de produzir ciência, nesse sentido, acaba sendo uma defesa da própria ciência. E não poderia ser diferente, pois a forma como socialmente nos relacionamos com indivíduos, por exemplo, como Rodrigo, aptos a formular equações que permitem interpretar o que acontece nos chamados “buracos negros”, diz muito a respeito das construções sociais de que participamos. Esses indivíduos estariam autorizados a prosseguir seus estudos e a sobreviver de seu trabalho intelectual, tendo sua subsistência garantida socialmente? A resposta que parece óbvia não encontra sustentação no Brasil de hoje.

Nas universidades e institutos de pesquisa, a situação pós-golpe é dramática. O exercício da ciência e da liberdade de pensamento, que fazer ciência deve incluir,  tornam-se mais e mais difíceis no dia-a-dia de um Brasil que flerta com o terraplanismo. Imaginar as consequências da operação de desmonte científico e, também, tecnológico que está em curso depois do Golpe no Brasil nos leva a perguntar se é possível uma contra-revolução científica que retome paradigmas superados em revoluções científicas realizadas séculos atrás?  Não seria essa uma possível definição de Barbárie?

Pois é, são complexas as questões que a defesa de Rodrigo, como a ponta de um iceberg permite formular, mesmo esta sendo uma simples campanha de solidariedade financeira (https://www.vakinha.com.br/vaquinha/em-defesa-do-companheiro-rodrigo ) a um companheiro vitima de uma injustica, como tantos outros, que também precisam de ações em sua defesa. A compreensão de que a defesa coletiva de indivíduos atacados pelas instituições se aplica a todos nós, sem exclusão, é o que permite o desenvolvimento de uma linha de autodefesa no interior da classe, cuja maior expressão, hoje, é a defesa da liberdade de Lula. E a própria defesa da liberdade de Lula, por sua vez, é indissociável da defesa de seu legado, e, portanto, do reconhecimento do direito dos jovens periféricos ao conhecimento científico.

A batalha de Rodrigo por seu direito de fazer ciência criou um círculo de pessoas ao seu redor discutindo o que fazer e como arrecadar. A dimensão coletiva de sua defesa recuperou para Rodrigo o direito de não ser deixado para trás.  A discussão entre iguais inclui esse direito para cada um dos sujeitos que fazem parte do “nós”. Dentre as propostas discutidas, encontra-se em produção uma cartilha que reúne textos clássicos sobre ciência e revolução – que foi uma das discussões suscitadas na defesa de um militante que luta ao mesmo tempo pela ciência e pela revolução, cuja venda reverterá em fundos para sua defesa. Os recursos gráficos para impressão da cartilha, infelizmente, não estão ao nosso dispor e a batalha para imprimir este material, que pode ter utilidade teórica a jovens que também defendem o seu direito ao conhecimento (e que se nao derrotarem o golpe, podem ser os ultimos em suas familias a terem o direito a frequentar universidades), ainda está em andamento.

Esse texto, publicado na coluna que assino no Voz Operária não poderia deixar de constatar a simultaneidade da necessidade da campanha em defesa de Rodrigo produzir material gráfico com o momento em que o VO-RJ inicia uma campanha para reconstrução de sua gráfica, que começa com o conserto de uma copiadora, (https://vozoperariarj.com/contribua/l).São ambas as campanhas, por diferentes caminhos, expressões do amadurecimento de uma solução política de autodefesa, que busca, nesse momento, ter voz. Os laços foram construídos na luta para não deixar Dilma para trás e têm sido estreitados na defesa de Lula, na defesa do PT e, mais recentemente, na defesa do direito de Maduro governar, como solução para a paz no continente. Se a classe intui que é hora de se defender e os indivíduos que compõem a classe intuem que precisam defenderem-se uns aos outros, umas às outras, como poderemos avançar sem uma imprensa que agite, organize, propague e, sendo praxis, analise as dificuldades para a autodefesa?

Termino essa chamada à ação solidária com uma boa notícia: o processo de Rodrigo pode ser ganho, visto que já há uma decisão de segunda instância favorável a sua reintegração. O direito de formular a exigência de justiça se confirma, em todos os casos, como pré-condição para a existência de justica. Independentemente do que as instituições apodrecidas fazem ou farão com o pleito por justiça em cada caso particular, a nós, do lado de cá das trincheiras, resta contar as histórias dessas tragédias individuais, dando a elas a dimensão coletiva que elas têm – o que é inseparável da luta por uma imprensa que dê voz aos que só têm a sua força de trabalho.

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