A luta contra a Guerra – Parte I

Na primeira parte deste texto se levantam elementos da situação política mundial que permitem observar no horizonte os contornos de uma guerra cada vez mais próxima. Na segunda parte deste primeiro texto de analise de conjuntura produzido pelo Círculo de Estudos Revolucionários Anderson Luís trataremos de possíveis estratégias para uma resistência mais eficiente neste contexto. Boa leitura.

Fórum Econômico Mundial Davos 2019:

Um fórum de crise que prepara a guerra!

O Fórum Econômico Mundial teve lugar na cidade de Davos na Suíça entre 22 e 25 de janeiro. Chamado a analisar e fazer propostas para o futuro da economia mundial, o objetivo declarado deste Fórum foi a busca pela arquitetura social global capaz de contornar os efeitos da “Revolução Industrial 4.0”. Porém, mais significativo do que o que aconteceu na Suíça, foi o que não aconteceu, neste caso, determinado por quem não foi a Davos. (https://www.terra.com.br/noticias/mundo/previsoes-sombrias-para-davos-excesso-de-crises-mas-escassez-de-lideres-mundiais,ba5acd38b7b4717669e4fddffe704c8800y4hccz.html).

Os limites da diplomacia internacional ficam claros quando, num fórum internacional que se pretende modelar o futuro econômico do planeta, o governo do país com maior interferência na política e economia mundial não se apresenta ao debate.

Donald Trump (presidente dos EUA) justificou sua ausência por estar envolvido com problemas orçamentários. Trump está numa batalha interna em seu país em torno da construção de um muro na fronteira EUA/México, alegando necessidade de impedir a entrada de imigrantes ilegais vindos da América Latina. O fechamento da fronteira com o México não é uma política migratória recente nos EUA, que vem sendo aplicada pelos governos republicanos e democratas alternadamente nas últimas décadas. Construir um novo muro é um passo além que os democratas têm rejeitado, gerando uma crise interna nos EUA.   

Uma obra deste vulto, ao inventar uma nova frente de emprego, seria certamente um empurrão para uma economia que já vem cambaleante e sendo sustentada por incentivos fiscais (https://www.bbc.com/portuguese/internacional-45919430). Trump, dessa forma, segue o lema de sua campanha (American First), adota uma linha protecionista para a economia estadunidense (https://oglobo.globo.com/opiniao/protecionismo-de-trump-assombra-g-7-22745201), cria distúrbios nas economias  vizinhas e coloca em xeque organizações multilaterais de comércio como a OMC (http://br.rfi.fr/economia/20180302-medida-protecionista-de-trump-tera-efeito-cascata-no-comercio-internacional).

Simultaneamente a sua ausência no Fórum Econômico de Davos, o governo imperialista dos EUA patrocina o fantoche Juan Guaidó, que tenta usurpar o poder do presidente legítimo da Venezuela, Nicolás Maduro. Esta opção, que em nada difere dos inúmeros golpes patrocinados pelos EUA no continente americano ou ao redor do mundo nas últimas décadas, somada ao forte protecionismo nacional, não deixa margens para o diálogo internacional. O que faz com que uma guerra contra a Venezuela que resiste ao golpe, onde a velocidade dos acontecimentos já entrou em escalada, possa se tornar o núcleo de um conflito de efeitos e proporções mundiais.  

Mas não foi só o governo estadunidense que esteve ausente em Davos…

Thereza May (primeira ministra da Inglaterra) também se ausentou do Fórum, pois internamente está às voltas com o Brexit (https://www.bbc.com/portuguese/internacional-46950752).

Emanuel Macron (presidente da França) também não foi, porém concomitantemente ao fórum, Macron assinava um acordo com a Alemanha no sentido de construir uma colaboração militar, que pode vir a ser o embrião de um exército Europeu (https://oglobo.globo.com/mundo/tratado-de-franca-alemanha-abre-caminho-criacao-de-exercito-europeu-23391453).

Angela Merkel (chanceler da Alemanha) foi a única chefe de estado entre as principais nações dominantes do ocidente a aparecer em Davos. Uma tentativa alemã de defender a União Europeia, cuja existência é cada vez menos justificável, uma vez que foi incapaz de solucionar os problemas dos países do bloco, muito menos os problemas econômicos da própria Alemanha, como mostram os indícios levantados pelo economista Michael Roberts (https://thenextrecession.wordpress.com/2019/01/15/from-amber-to-red/).

França e Alemanha são a base da UE, que vem sendo atacada e fragilizada por uma direita extremista e nacionalista. Resistir ao “nacionalismo” que é apontado como totalitário, não poderia faltar no repertório daqueles que usam as palavras para tirar delas o seu significado (https://www.terra.com.br/economia/a-elite-encastelada-o-que-esperar-dedavosem-2019,bd6cc08b0db3ce7c1f443de6b8b2c090vxuql9nh.html). Certamente existe um risco totalitário que precisa ser combatido e ele se apresenta na forma de um nacionalismo exacerbado. Mas ele só se apresenta assim porque os supostamente democráticos não defendem a democracia que existe nos direitos do povo, quando ele se constitui como nação, e aceitam alegremente a perda de direitos, neste caso, disfarçada de cooperação internacional.   

Neste quadro, não há dúvidas que as instituições internacionais andam desgastadas, como vimos acima na relação de Trump com a OMC, o que é outro alerta para o risco de guerra. Contudo, não é de hoje que se fala de mudança nas instituições internacionais (https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc3001200128.htm) que administram as fricções interimperialistas. A crise vem de longe e, atualmente, transita de fase.

Esteve ausente de Davos a defesa por parte das democracias ocidentais do direito de Maduro governar. Neste contexto, o posicionamento do Brasil em Davos não é um detalhe. E a diferença entre o espaço que o PT ocupava junto aos anfitriões de Davos na década passada e o lugar onde os mesmos anfitriões querem atualmente confinar o PT mostra a diferença do local reservado às organizações populares nesta nova fase.

Organizacoes populares: da integração para a aniquilação

Na década passada, simultaneamente ao Fórum Econômico se realizavam também os Fóruns Sociais (FSM), onde organizações populares e de classe pretendiam fazer um contraponto à globalização. Diluídas dentro do conceito amplo de sociedade civil, que encobre os antagonismos entre as classes sociais, muitas das organizações que afluíam a Porto Alegre para o Fórum Social Mundial recebiam incentivos financeiros do megaespeculador George Soros (https://www.infomoney.com.br/blogs/economia-e-politica/economia-e-politica-direto-ao-ponto/post/5476997/por-que-george-soros-financia-movimentos-de-esquerda-entenda), que na primeira edição fez uma videoconferência com os delegados do FSM.

O FSM teve a maioria de suas edições em Porto Alegre, cidade modelo da democracia participativa, neste caso, aplicada principalmente ao orçamento (https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/No-Sul-democracia-participativa-volta-a-agenda-politica/4/16616).  A ideia apresentada era que a população tivesse o direito de escolher as prioridades orçamentárias. Em tempos de ajuste e austeridade fiscal que os Fóruns Econômicos Mundiais anunciavam, era preciso aplacar a insatisfação popular com o não atendimento de suas demandas. Dar à população o direito de decidir o que fazer com o que sobrava do orçamento depois do pagamento das dívidas ajudava a comprometer os movimentos reivindicativos com a “responsabilidade fiscal”, tornando o ajuste digerível. Na vida real, o Orçamento Participativo na forma de plenárias por região, onde e quando foi aplicado, acabou levando a perda de importância das associações de bairros e, ao invés de satisfazer a população, levou ao desgaste das administrações petistas nestas cidades.

Um novo cenario comeca a ganhar forma a partir da crise de 2008, que  fecha as margens de negociacao sobre o que (nao mais) sobra do banquete imperialista

(http://www.ceap-rs.org.br/participacao-social-e-capitalismo-pos-crise-de-2008/) e a forma do imperialismo se relacionar com as organizações operárias começa a mudar. Ao invés de chamá-las para acompanhar os ajustes, passou a excluí-las das discussões e dos espaços da “sociedade civil”, e ato contínuo para uma política que busca sua completa eliminação. O lugar que Lula já ocupou em edições anteriores do FEM e o lugar onde Lula estava durante o FEM 2019 é exemplar deste giro político. A evolução dos acontecimentos na direção de uma guerra acaba sendo simultânea a uma política de aniquilação das organizações que poderiam se insurgir contra ela, o que se configura como uma tendência em diversos países. A resistência que estas organizações podem opor à um ataque direto, porém, não é mais a mesma. Foi minada pelos anos de integração e dependência política e financeira, cuja consequência notável é a perda de influência sobre as massas e a abertura do flanco por onde se esgueiram alternativas aventureiras pretensamente nacionalistas.

A pregação do Fórum Econômico de Davos contra o nacionalismo (https://www.terra.com.br/economia/davos-se-adapta-para-frear-nacionalismo,dd35126e516aab9ffaaef6943fcbc7d3epgykgot.html) mostra a consciência dos agentes econômicos internacionais sobre a difícil situação política mundial, que se apresenta com tendência à polarização em todos os países, mas não esconde a ganância de se apropriarem das conquistas sociais que se inscrevem como direitos nos marcos legais dos mais diferentes países. E se um povo se agarra primeiro em suas organizações nacionais na batalha para preservar direitos, são elas os primeiros alvos de uma política de destruição dos povos. O combate ideológico aos nacionalismos encabeçado por Davos é, tão somente, uma maneira de justificar a destruição dos direitos nacionais e democráticos dos povos, que, longe de evitar guerras, as produz sempre que necessário.

Guerra contra às organizações populares

No rastro da perseguição política contra o PT e ao presidente Lula, as instituições brasileiras se posicionam para o ataque contra as organizações populares. A posição do Juiz/Ministro Sergio Moro (https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2018/11/06/qualificar-movimentos-sociais-como-terroristas-nao-e-algo-consistente-mas-eles-nao-sao-inimputaveis-diz-moro.ghtml) deixa clara a criminalização dos movimentos sociais, principalmente se as motivações dessa ou daquela manifestação for ‘política’. O que implica o Estado brasileiro se colocar como juiz quanto a legitimidade de uma dada manifestação.  Esse movimento ficou claro quando, na eleição de 2018, faixas contra o fascismo foram proibidas pela justiça federal de serem estendidas em universidades. É uma escalada que vem de longe, inclusive com a contribuição de governos petistas, que aprovaram leis como a “antiterror”.

Se durante o periodo anterior o lugar que o PT ocupava  na trincheira da luta de classes era confuso, hoje nao ha mais margem para duvidas  http://www.pt.org.br/movimentos-vao-as-ruas-contra-criminalizacao-das-lutas-populares/). A prisão de Lula, sendo emblemática dos métodos macartistas de lidar com as organizações vermelhas – métodos estes que evoluíram com o uso de técnicas que deram a estrategistas como Steve Bannon destaque nas eleicoes nos EUA e no Brasil – obriga que contra ela se posicionem todos os que merecem a alcunha de democratas, antifascistas ou classistas, concentrando nossa capacidade de resistência coletiva.

No seu primeiro mês de ministro, Moro, que prendeu Lula,  apresenta um pacote de mudanças na legislação, que representa um verdadeiro fechamento do regime, uma flexibilização generalizada de direitos democráticos como direito à ampla defesa, devido processo legal , trânsito em julgado,  a ponto da defensoria pública do Rio de Janeiro se colocar contrária em uma nota técnica ( https://oglobo.globo.com/brasil/defensoria-do-rio-contesta-proposta-de-moro-que-dispensa-processo-se-acusado-assumir-culpa-23425126?fbclid=IwAR0gKrkXA6WRRbeQTLuu9j2kl80X2vDS5mDtrFMfDCjUdoMvp3rx1hI47_E).

       Tudo leva a crer que, no periodo que se abre, o ajuste tendera a ser imposto pela força, sem qualquer margem de negociação. O FEM 2019 se mostrou produto, parte e exemplo da crise maior que se aproxima. Pela solução à força, a simples existência das organizações se tornam obstáculos. Se coloca em xeque qualquer um que ouse defender direitos existentes no âmbito das nações.  Se até mesmo entre as nações dominantes há dificuldade em negociar qualquer saída diplomática para a crise, com os povos explorados e suas organizações é que não haverá diplomacia mesmo.

Guerra no continente Americano

A sinalização de guerra contra a Venezuela pelo imperialismo é inequívoca. Mas uma guerra no subcontinente tem impactos em escala mundial (https://vozoperariarj.com/2019/01/20/nao-usem-nossos-filhos-nessa-guerra/), principalmente porque a Venezuela possui as maiores reservas de petróleo do mundo (https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2019/01/29/interna_internacional,1025779/sancoes-a-venezuela-um-risco-para-a-producao-de-petroleo-pesado.shtml).  O ataque pela via econômica começou. EUA e Inglaterra recusam conceder ao governo eleito o controle de seus ativos estrangeiros, impedindo que o governo venezuelano retire seu ouro depositado no Banco da Inglaterra e no Federal Reserve. As sanções, que impedem a Venezuela de ter acesso a seus depósitos em bancos dos EUA e aos ativos da sua estatal Citco, além de abrirem a brecha para o sequestro dos recursos petrolíferos do país e confisco dos ativos estrangeiros, tendem a sufocar as vendas de petróleo pela PDVSA, deixando o país asfixiado economicamente, deteriorando as contas nacionais e fazendo explodir a inflação interna, além de aumentar o preço da “commodity” no mercado internacional (https://luizmuller.com/2018/03/02/afinal-ha-crise-humanitaria-na-venezuela-por-aline-piva/).

Ultimatos já foram dados. Nações se alinham de um lado ou de outro de acordo com seus interesses. EUA e Brasil, estes dois mais verborrágicos e afoitos, Grupo de Lima e um punhado de países europeus se enfileiram para derrubar Maduro. Rússia, China, México, Itália, União Africana, aliados centro-americanos e asiáticos se colocam ao lado da legitimidade do governo Maduro. Os acontecimentos se aceleraram de forma impressionante nos últimos dias.

Não é preciso que todos estes países resolvam abandonar a fase de declarações, articulações, sanções ou ajudas econômicas, tensionamentos diplomáticos, etc, para que uma guerra ecloda. Basta que um país mais determinado a defender seus interesses na Venezuela resolva por enviar tropas ou bombardear território venezuelano, para que uma guerra de grandes proporções ecloda. Do lado dos que querem derrubar Maduro, EUA já se mostra com esta intenção. Se não conseguir que seus aliados na região, Brasil e Colômbia principalmente, sujem as mãos, indica que fará de a guerra de “próprio punho”. Do outro lado, parece que ainda se tenta evitar um conflito bélico. O crescimento das tensões pode levar, em breve, ao desembarque de tropas armadas de outros países em território sul-americano e jovens brasileiros sendo convocados para a guerra. (https://vozoperariarj.com/2019/01/20/nao-usem-nossos-filhos-nessa-guerra/)

Leia a continuação deste texto em “A luta contra a Guerra – Parte II”

Fevereiro de 2019

Círculo de Estudos Revolucionários Anderson Luís

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