A luta contra a Guerra – Parte II

Leia a Parte I do texto aqui.

O PT resiste à Guerra com Gleisi indo a posse de Maduro.

Se o Brasil é um país chave na guerra que os Estados Unidos preparam no subcontinente, a presença da presidente do PT na posse de Maduro ganha uma relevância ímpar no atual cenário geopolítico mundial.

A exigência de paz no continente, nesta perspectiva, assume a defesa do direito de Maduro, eleito por seu povo, governar. Não há nenhuma saída de paz fora do reconhecimento do direito dos povos à autodeterminação. Não é coincidência que o Golpe no Brasil tenha atacado justamente o direito do PT – eleito em 2014 e favorito com Lula em 2018 – governar. A não compreensão desta questão ou a capitulação de setores ditos de esquerda sobre o direito à autodeterminação dos povos contida na defesa do direito do PT ou de Maduro governarem tem, por sua vez, atrasado a resistência a guerra no continente. Foi o que se viu no Brasil, onde as forças políticas não se apresentaram pelo direito do PT, com Dilma, retomar o governo diante de um impeachment fraudulento, o que abriu flancos e permitiu o aprofundamento do Golpe com a prisão de Lula e até mesmo o avanço da ofensiva contra o país vizinho.

A mesma armadilha que a resistência ao golpe no Brasil caiu ao aceitar novas eleições sob a forma das “diretas já”, se coloca quase nos mesmos termos sobre Maduro, que sofre pressão para aceitar uma nova eleição tutelada pelas instituições internacionais do imperialismo (https://oglobo.globo.com/mundo/chanceler-de-bolsonaro-critica-paises-que-propoem-dialogo-na-venezuela-23416322). Em ambos os casos, uma suposta esquerda democrática funciona como linha auxiliar do imperialismo, buscando soluções que abrem mão do reconhecimento do conteúdo do voto como expressão da soberania de um povo. Ao substituir este conteúdo apenas pela casca eleitoral, as novas eleições realizadas sobre a revogação da decisão da eleição anterior carecem de significado e credibilidade. E isso se vê claramente no Brasil, cujas eleições de 2018 foram incapazes de eleger um governo que ofereça alguma estabilidade através da restituição dos direitos políticos ao povo, que se expressa de forma concentrada na falta de direitos para Lula.

Aceitar a deposição de presidentes eleitos – como mostra o caso brasileiro, onde as organizações populares não lutaram por sua reversão – não funciona como uma declaração de paz que possa oferecer alguma saída pacífica para a crise política. A única paz que o imperialismo, em crise econômica, pode oferecer é a paz dos cemitérios o que articula a escalada golpista nos diversos países com a escalada de uma política de guerra aos povos, que, em quase todos os casos, são aplicadas simultaneamente contra uma mesma nação.  Golpe e guerra são, mais do que nunca, faces de uma mesma moeda.

A defesa da Liberdade de Lula e do direito de Maduro governar concentram, nesta perspectiva, a luta contra uma guerra que, se não for combatida, pode escalar para um conflito mundial e uma carnificina em nosso próprio território e nos países vizinhos. A consciência do Partido dos Trabalhadores sobre a importância de se manter resistindo sobre estas duas questões é o alimento político que nos permite acreditar que o PT, como principal organização popular construída nas últimas décadas, pode não se deixar destruir e, assim, ajudar nos contornos de uma resistência continental e mundial contra a guerra, que está bastante atrasada.

Resistência continental a Guerra

A evolução dos acontecimentos, da forma que estão se configurando, obriga a pensar em ações internacionais urgentes em defesa de Lula e Maduro que unifiquem a resistência continental inclusive no interior dos próprios Estados Unidos, onde a confusão política das amplas massas, na ausência de uma solução política que unifique seus os interesses, também é imensa. Uma grande parte dos eleitores de Trump votaram contra o grande intervencionismo belicista das décadas passadas, que têm retirado do orçamento nacional recursos necessários para o atendimento de demandas populares e dos trabalhadores que, por exemplo, como os do resto do planeta, tem tido suas aposentadorias degradadas.

A lembrança das recentes guerras no Iraque e no Afeganistão, mesmo com toda a propaganda oficial que leva  parte dos estadunidenses a acreditar que estavam lá para ajudar  ( “we are here to help”) não esconde a sensação da ação de seu governo nesses países ter sido, de conjunto, um fiasco, levando os eleitores a buscarem uma solução de voto que priorizasse cuidar de seu próprio povo ao invés de “ajudar” outros países. Esta opção de voto contra o “establishment” foi usurpada por Trump, ao apresentar-se como independente em relação às lideranças tradicionais dos dois partidos que se alternam no poder indefinidamente naquele país. Mas como a própria vida mostra, a crítica de Trump ao establishment não se opõe a ele, mas acrescenta a ele novos elementos autoritários que amplificam a crise política, trazendo, pela primeira vez, a possibilidade de generalização de um conflito em solo continental.

Esta ameaça concreta aos povos da América os que vivem em solo estadunidense. Longe de preservar seu território dos efeitos que uma guerra no continente pode trazer, os elementos políticos, frutos das contradições internas, tendem a evoluir para uma agudização dos conflitos internos, com ares de guerra civil, sustentados ideologicamente pelo discurso de ódio que a discussão sobre o muro acirra. O discurso ideológico contra o nacionalismo também serve ao inimigo neste país, pois existe uma profunda demanda de discussão da questão nacional por um povo sem direitos. A lista dos direitos ausentes no processo de constituição de povo em nação marca profundamente a luta pela sobrevivência no dia a dia deste país.  Direitos civis e políticos de grande parte da força de trabalho composta de imigrantes; Direitos trabalhistas para toda a classe operária; Direitos sociais de saúde e educação para todo povo; Direitos à solidariedade entre gerações nas aposentadorias; Direitos políticos para a classe trabalhadora representar a si mesma. Há mais, entre eles o atraso nos direitos civis para negros e mulheres, cujas políticas afirmativas tentam, mas não conseguem compensar. São grandes déficits de democracia e soberania, tarefas nacionais incompletas, com os quais o povo estadunidense de conjunto se confronta e que tornam a questão da ausência de uma representação política unificada por direitos nacionais uma das questões centrais do combate anti-imperialista mundial.

De forma cada vez mais evidente, os problemas políticos internacionais se mostram interligados com os internos em cada país. A defesa de indivíduos, organizações e governos que resistem à Guerra se articula com a necessidade de enfrentamento interno de governos, legislações ou organizações quando se submetem a ela. A defesa de Lula e do direito do PT governar contra o Golpe Imperialista no Brasil, conta uma história que diz respeito ao direito dos trabalhadores terem um partido e que este partido governe, sendo muito útil aos que buscam a via da emancipação política nos próprios EUA. Atualiza, também, pela negativa mais um motivo para o imperialismo destruir o PT: Imagina se a ideia de construir partidos dos trabalhadores que governem seus países pegar? A  resistência interna nos EUA contra a intervenção de seu governo nos Golpes em curso no continente se torna, desta forma, um elemento fundamental para a resistência contra a Guerra em si. Construir uma rede de aliados entre as organizações populares em todo o continente que defendam tanto o direito de Maduro governar quanto a Liberdade de Lula se coloca como uma necessidade e decorre do fato concreto que não se poderá contar com os governos de grande parte dos países latino-americanos na defesa da autodeterminação dos povos. O “grupo de Lima”, ao não reconhecer o governo venezuelano, é exemplo disso. (https://vozoperariarj.com/2019/02/03/golpistas-na-venezuela-dizem-que-governo-do-brasil-enviara-apoio/).  

Os bloqueios `a expressão política da luta dos trabalhadores, das trabalhadoras e dos povos por seus direitos, entre eles a paz, são reais, mas não absolutos, pois existe terreno para a resistência em todos os países, até mesmo nos EUA https://uslaboragainstwar.org/Article/81217/uslaw-statement-hands-off-venezuela. O que nos dá elementos que permitem tentar superar os preconceitos mútuos entre os diferentes povos, que no fim das contas acabam validando guerras. Os problemas que envolvem uma unidade entre as organizações operárias e populares de todo continente estão em relação com as dificuldades políticas enfrentadas pela classe trabalhadora e pelo povo, em cada país, na construção de organizações independentes do imperialismo. Se não podemos prever todas as dificuldades encontradas no caminho da unidade, podemos sustentar que aqueles/as dentro das organizações existentes que defendem o direito de Maduro governar e o direito de Lula à liberdade são os/as que estão mais bem preparados/as politicamente, diante da confusão generalizada, para se tornarem o núcleo de uma resistência mundial à guerra que, não obstante, poderá tomar outros contornos políticos no futuro.

Nós, que assinamos este artigo e que participamos direta ou indiretamente da construção de atividades continentais e mundiais anti-imperialistas nas décadas passadas organizadas pelo AcIT (Acordo Internacional dos Trabalhadores e Povos) que aprovou uma nota justa sobre a Venezuela (http://otrabalho.org.br/nao-a-ingerencia-do-imperialismo-contra-a-venezuela/), perguntamos: não está na hora de ultrapassar a fase de declarações e nos darmos os meios de organizar uma representativa conferência continental em defesa de Lula e Maduro que comece a agrupar uma resistência consistente contra a Guerra?

Círculo de Estudos Revolucionários Anderson Luís

Fevereiro de 2019

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