Como Rússia e China combatem o uso do dólar enquanto arma de guerra

É parte da história mundial a política do regime dos Estados Unidos baseada no uso da força para pilhar as riquezas do planeta ou impor governos com política ditada por Wall Street. O uso da força se dá de distintas formas, todas combinadas em torno de uma estratégia. Uma das formas de agressão é a guerra econômica. Apenas desde 2017, 1.737 empresas e pessoas, em diversos países do mundo, sofreram com embargos por parte do governo estadunidense.

Nessa semana, Cuba está sendo ameaçada pelo governo Trump de ser usada contra ela o Capítulo 3 da “Lei Liberdade” de 1996, assinada pelo ex-presidente Bill Clinton. Essa lei proíbe que empresas estrangeiras invistam ou negociem com empresas cubanas. A legalidade dessa lei é contestada por toda comunidade jurídica internacional, já que o direito internacional é claro ao afirmar que nenhum país pode legislar para todos e para todo mundo extraoficialmente: deve reter sua jurisdição ao seu território. Além disso, pelo direito internacional, todo país pode adotar medidas jurídicas desde que tenham como objetivos sociais, defesa do interesse nacional e que apontem compensação, requisitos respeitados por Cuba ao declarar a nacionalização de empresas norte-americanas durante a Revolução.

O fato é que, desde a crise de 2007-2008, com a crise econômica, apesar dos Estados Unidos se comportarem como juízes e policiais do mundo, os decretos unilaterais na comunidade internacional são cada vez menos eficazes. A ineficácia das ações de Washington estão relacionada ao fortalecimento de outras nações ao redor do mundo, em especial Rússia e China. Mas, apesar dessa nova e mais equilibrada divisão de poder entre várias potências, Washington parece ser mais agressivo do que nunca, tanto com seus tradicionais aliados quanto com inimigos, independentemente do presidente que esteja no poder.

OS TRÊS BLOCOS DE PAÍSES.

Com as ações agressivas dos Estados Unidos, nas últimas décadas o mundo está enfrentando uma séria questão: Ou o fortalecimento do direito internacional, da resolução pacífica dos conflitos, da multipolaridade e autodeterminação dos povos ou a afirmação da unilateralidade e da criação de “gangues” de países que atuam por sua própria conta. A batalha que se dá em torno da crise venezuelana vai por essa direção, e não pela dicotomia midiática de “democracia vs ditadura”. As decisões que forem tomadas agora na Venezuela irão marcar toda política ao longo do século XXI.

Os fatos recentes que ocorreram na Venezuela indicam o porque da cooperação entre esses “países não alinhados” ser essencial para acelerar a transição de uma realidade unipolar para uma realidade multipolar. Nesse segundo cenário, o dano que o imperialismo norte-americano poderia infligir é reduzido.

BLOCO DOS “PAÍSES NÃO ALINHADOS”: É um movimento informal que reúne 90 países, onde participam China, Rússia, Africa do Sul, Índia, Irã e outros. Mais recentemente, a Turquia ingressou o bloco depois de um giro geopolítico na administração de Erdogan que se deu por uma tentativa de golpe patrocinado pelos EUA. A política da China e Rússia, tem tido o cuidado de evitar a guerra direta com os Estados Unidos e seus aliados da OTAN. Para ter sucesso nesse esforço, se atua em várias frentes, como a diplomacia, o apoio militar e garantias econômicas a países aliados sob ataque do governo dos Estados Unidos.

BLOCO NEOLIBERAL E IMPERIALISTA. Os Estados Unidos, Reino Unido, Israel, países-membros da OTAN e governos satélites da Casa Branca, como o Brasil. Esse grupo coordenado pelos EUA está sob a doutrina neoliberal. Esta atitude imperialista, ao longo do tempo, criou uma frente coordenada de países que resistem a esta hegemonia neoliberal, diante do fracasso desastroso do neoliberalismo.

BLOCO NIPO-GERMÂNICO. Durante as últimas décadas, os países membros da União Europeia, encabeçados pela Alemanha, e o Japão tem construído um bloco para defender seus interesses corporativos. De uns anos pra cá, o país do extremo oriente tem rompido convenções do pós-guerra e se rearmado, reativando sua marinha e sendo um grande escoador da produção bélica alemã.

HISTÓRIA DO FORTALECIMENTO DO DÓLAR COMO ARMA DE GUERRA.

Mobilizar fundos financeiros é fundamental para sustentar qualquer operação militar. Antes da Primeira Guerra Mundial, os conflitos bélicos eram sustentados pelo chamado “dinheiro duro”. Por exemplo, na Guerra da Independência dos Estados Unidos [1775 até 1783], para apoiar os rebeldes estadunidenses, a França financiou a guerra com “dinheiro duro”, o que resultou em um déficit 200 milhões de libras, que combinados com outras variáveis, pavimentou o caminho que culminaria na Revolução Francesa de 1789.

Tudo mudou a partir da Primeira Guerra. Em 1913, 47% das reservas do mundo eram em libras esterlinas (moeda britânica) e 2% em dólares americanos. Apenas 15 anos depois, 21% das reservas eram em dólares, isso porque o mercado financeiro norte-americano começou a emitir dólares para seus credores franceses e britânicos entrincheirados na Europa.

A segunda guerra consolidou o dólar como moeda mundial, o sistema Bretton Woods, a partir da criação do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, em 1944. Isso levou o dólar a representar 71% das reservas do planeta.

Com a crise do ouro, em 1975 o petróleo passa a ser o medidor básico para o dólar, e seu preço é exclusivamente ditado por essa moeda. Por essa razão, é fundamental para os Estados Unidos controlar os países produtores de petróleo. Toda vez que o dólar cai, é necessário para sua sobrevivência que os EUA criem um novo conflito, o que em parte explica o destino da Líbia, Iraque, Síria, Iêmen, etc.

A POLÍTICA DOS EMERGENTES FRENTE O IMPERIALISMO

Mesmo depois de décadas divididas em virtude do revisionismo de Nikita Kruschev e do neoliberalismo de Boris Iéltsin, as relações entre Rússia e China tem melhorado e conseguido convergir para seus interesses comuns. A parceria entre esses países se dá principalmente com vistas à contenção do caos que Washington desencadeou no mundo.

O princípio orientador do aparato de inteligência militar dos EUA é que, se um país não pode ser controlado (como o Iraque após a invasão de 2003), ele deve ser destruído, balcanizado e desestabilizado para evitar que ele caia na ala dos países não alinhados. É isso que, com os olhos voltados para a Rússia, os Estados Unidos tentaram fazer com a Síria e Ucrânia e o que estão tentando fazer com a Venezuela.

O Oriente Médio é uma área que tem atraído a atenção mundial há algum tempo, com Washington claramente interessado em apoiar seus aliados israelenses e sauditas na região. A importância de Israel se dá no seu comportamento enquanto uma gigantesca base militar estadunidense e, a da Arábia Saudita de garantir que os países da OPEP vendam petróleo em dólares americanos, preservando assim o papel do dólar norte-americano como moeda de reserva global.

As sanções são um bom exemplo de como Washington usa o sistema financeiro e econômico global, baseado no dólar, como uma arma contra seus inimigos. No caso do Oriente Médio, o Irã é o principal alvo, com sanções que visam impedir que a República Islâmica negocie sob o sistema bancário estrangeiro.

Pequim e Moscou têm uma clara estratégia diplomática, rejeitando conjuntamente os inúmeros movimentos promovidos pelos Estados Unidos, o Reino Unido e a Alemanha no Conselho de Segurança das Nações Unidas contra os ataques ao Irã, Síria, Coreia Popular e Venezuela. Na frente militar, a Rússia continua sua presença na Síria. Os esforços econômicos da China, embora não sejam inteiramente visíveis na Síria e no Irã, serão essenciais para reconstruir esses países pelos anos de guerra impostos por Washington e seus aliados.

Graças aos investimentos chineses, juntamente com projetos planejados, a hegemonia do dólar dos EUA está sob ameaça a médio e longo prazo. Iniciativas chinesas nos campos de infraestrutura, energia, ferrovias, estradas e conexões tecnológicas em uma dúzia de países, aderindo à necessidade continuada de petróleo, impulsionarão o consumo crescente de petróleo na Ásia que atualmente é pago em dólares americanos.

Com o assassinato do jornalista do Washington Post, Jamal Khashoggi, por agentes sauditas dentro de um Consulado da Arábia Saudita, as relações dos Estados Unidos e a Monarquia saudi está abalada. Em seguida, foram firmados uma série de acordos entre a OPEP, China e Rússia. Esse conjunto de ações levaram os Estados Unidos a congelar ativos de empresas sauditas na Bolsa de Valores norte-americana. Em resposta, a Arábia Saudita, enviou nas últimas semanas para Caracas 2 milhões de barris de petróleo e assumiu uma posição neutra em relação à Venezuela. A monarquia árabe também vem aproximando-se gradualmente da Alemanha, que lhe vende armas, na guerra que os sauditas travam para massacrar o povo do Iêmen.

Essas iniciativas conjuntas, lideradas por Moscou e Pequim, buscam reduzir o uso do dólar. Hoje todas relações entre China, Rússia e Irã não são em dólares, evitando transações financeiras entre países envolvidos em financiamento, petróleo e gás natural liquefeito, o que nos faz testemunhar o gradual abandono do dólar como resultado de acordos que cada vez mais ignoram essa moeda decadente.

No Oriente Médio, Washington perde influência militar graças à presença de Moscou, o que leva os aliados dos EUA como Turquia e Catar a gravitar em torno dos Países Não Alinhados. Os Estados Unidos parecem perder seu poder de influência, mais significativamente na Ásia e no Oriente Médio, não apenas militarmente, mas também diplomaticamente e economicamente.

A situação é diferente na Europa e na América Latina, duas regiões as quais Washington ainda tem mais peso geopolítico do que na Ásia e no Oriente Médio. Em ambos os casos, a eficácia da resistência russa e chinesa em termos militares, econômicos e diplomáticos é mais limitada, por diferentes razões, dentre elas o “America First” e o retorno da Doutrina Monroe.

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