O lado “confidencial” dos 30 anos da internet

De contatos com parentes distantes à mascarar a farsa que levou um fascista à presidência. Em função das comemorações dos 30 anos da World Wide Web, a rede mundial de computadores, o Voz Operária RJ vem relembrar alguns pontos inconvenientes que normalmente são ofuscadas pelas cores vibrantes da “era virtual”.

A origem da internet está na Guerra

A internet começou a dar seus primeiros passos no auge da Guerra Fria, na década de 1960, quando pesquisadores estadunidenses voltados à comunicação em tempos de guerra idealizaram um sistema de comunicação descentralizado. Apesar de ser um tema normalmente associada como teoria da conspiração pelo Ocidente, desde a sua concepção, a internet sempre teve fins militares.

Foi com o artigo “The Changing Face of War: Into the Fourth Generation” (em tradução livre: “A face em alteração da guerra: na quarta geração”), publicado por um grupo de militares norte-americanos publicam, junto ao autor William S. Lind, que a internet passou a ser um fator chave para a nova forma de se fazer guerra. O artigo, que completa 30 anos, assim como a internet, desde sua primeira publicação em outubro de 1989, contempla as possibilidades da internet, dando um passo além, fazendo com que de mero sistema de comunicação auxiliar, a internet passe a ser vista pelo seu potencial de ataque. Nas Guerras de Quarta Geração (do inglês Fourth-generation Warfare, 4GW) os meios de comunicação passam a atuar como peças-chave dos exércitos, e não só como instrumentos de propaganda. As lógicas de guerra são aplicadas no terreno cognitivo, e a mente de grupos ou coletivos passam a ser territórios a serem ocupados por forças estrangeiras.

E pela guerra a internet se desenvolveu

Apesar de já teorizada para esse fim, foi em 2001 que as previsões da 4GW de William S. Lind se confirmaram. A partir dos ataques do 11 de setembro de 2001, o imperialismo estadunidense conseguiu transformar pressuposto do combate ao terrorismo que, com uma máquina gigantesca de comunicação social, tornou-se pretexto para continuar sua política saqueadora no Oriente Médio, dando início à guerra assassina do Iraque. Às vésperas da invasão do país, uma porção esmagadora da população estadunidense acreditava que Saddam Hussein tinha alguma coisa a ver com os atentados de 11 de setembro. Essa situação é muito bem retratada no filme “Vice” (2018) que concorreu à oito categorias do Oscar, incluindo melhor filme e melhor diretor.

A partir desse primeiro teste, em que a mídia passou a ser incorporada pelo exército dos EUA como um corpo não-oficial e supostamente independente, instituições filantrópicas ligados à Casa Branca que desde a guerra fria já financiavam projetos culturais de combate ao “comunismo soviético”, como a Fundação Ford, passaram a investir em estudos de comunicação social, voltado para traçar o perfil psicológico de usuários em redes sociais para “campanhas publicitárias”. O próprio Facebook já realizou um estudo de caso, denunciado por um artigo da Russian Telegraph (RT), chamado “Evidência Experimental do Contágio Emocional em Larga Escala Através das Redes Sociais”. Mais tarde, verificado os financiadores e atores envolvidos no projeto, constatou-se a presença de Washington.

As redes sociais já foram responsáveis por inspirar a “vanguarda popular” de golpes mundo afora. Foi assim na “Primavera Árabe” de 2011, com “revoluções coloridas” organizadas e amplamente divulgadas em redes sociais, e louvadas por acadêmicos de todo o mundo, influenciados por obras de “pós-marxistas” como Antonio Negri e Michael Hardt. Em junho de 2013 chegaria a vez do Brasil experimentar sua própria Revolução Colorida, quando se tentou derrubar o governo do Partido dos Trabalhadores e a presidente Dilma com apoio de todo o espectro político, da ultradireita fanática aos trotskistas de partidos nanicos como PSTU, PCB e PSOL, que se recusaram a defender o governo Dilma. O golpe, na verdade, já estava sendo gestado desde a farsa do “Mensalão”, em 2005. Mas, graças à astúcia política do Partido dos Trabalhadores, o golpe foi adiado até 2016, quando a situação fugiu do controle.

As “revoluções coloridas” são a principal invenção da internet

O fato é que a internet é utilizada para a manipulação da “opinião pública” como linha auxiliar da política de ingerência dos EUA em países não-alinhados. As informações são sempre divulgadas de formas difusas e aparentemente sem uma hierarquia estabelecida, o que dá a sensação de algo descentralizado. Mas é justamente nesse ambiente aparentemente caótico que a guerra psicológica e a guerra de informações tem espaço, a exemplo das mentiras da mídia sobre a Venezuela, como no caso da notícia falsa divulgado por um site direitista que afirmava que um sistema antimisseis S-300VM teria sido posicionado na fronteira para o Brasil. Outro exemplo é a campanha de difamação veiculada nas últimas semanas, inventando uma história de que o Exército venezuelano estaria massacrando “indígenas”.

O caso em questão foi uma troca de tiros que aconteceu próximo à fronteira com o Brasil (Roraima) de militares da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) com um grupo de para-militares que eram indígenas, assim como poderiam não ser indígenas. Não se trata nem de um massacre, muito menos de um massacre dirigido à indígenas. O que a mídia pretende aqui é passar a imagem de que existe um grupo indígena de uma certa etnia específica organizada e que age em conjunto, e que esse grupo estaria sendo perseguido pelo governo Maduro.

Essa é uma operação de guerra psicológica tacanha, mentirosa, de baixíssimo nível. Pretendem com isso estimular separatismos diversos, o que poderia inclusive se voltar contra a integridade territorial brasileira, estimulando que grupos étnicos indígenas brasileiros, muito influenciados por ONGs imperialistas, a se organizarem e atuarem em conjunto por sua independência.

Liberdade individual ou soberania nacional?

São milhares as mentiras, notícias falsas e operações de guerra psicológica realizada em rede. Todos os países que entraram em guerra civil, em situação de instabilidade política ou sofreram golpes de Estado de 2011 pra cá, foram vítimas dessa guerra virtual em um primeiro momento. Afinal, trata-se da primeira fase da chamada “Guerra Híbrida”, como delimitou o analista político da Sputnik News, Andrew Korybko. Logo, mais do que uma questão de liberdade individual, o mundo virtual tem implicações sérias no mundo real. Portanto, é uma questão de Soberania que deve sim serem estabelecidos limites fronteiriços, como fazem China e Rússia.

Tratadas como “ditaduras totalitárias” pela mídia ocidental, as duas potências emergentes tem todo o direito de se defender dos ataques estrangeiros identificados no ambiente virtual. Na Rússia e na China não existe o perigo de acontecer uma eleição fraudulenta como aconteceu no Brasil no ano passado. Por exemplo, a rede social responsável pela coleta de dados psicológicos de milhões de brasileiros, Facebook, para criar uma campanha política direcionada para eleger um fantoche dos EUA, é banida nesses países. Existem, no entanto, versões regionais das redes sociais parecidas com o Facebook sediadas nos países de origem e com olhares atentos dos governos patriotas que não fazem um rígido controle das fronteiras virtuais. Inclusive, as redes sociais são matéria constante em seminários de defesa em ambos os países, provando que não é só “teoria da conspiração” ou “paranoia”. As ameaças recebidas por Snowden e Assange que o digam.

Ainda tem mais.

Tratamos aqui das implicações geopolíticas da internet, mas podemos falar das centenas de transtornos relacionados com a internet. Desde da compulsão e ansiedade por aceitação em forma de “likes”, passando pelo sedentarismo dos viciados em vídeo-jogos e pessoas que abandonam sua vida offline pela realidade virtual, até a normalização da prostituição em terreno virtual que, sob a ótica feminista, confere o status de “empoderadas” para jovens que tem sua renda baseada em adultos doentios e seus fetiches que simulam até a pedofilia, ou mesmo a facilitação da própria.

O desemprego enquanto política neoliberal acaba catalisando desde fenômenos desse tipo e até o surgimento de mercados obscuros sem nenhum tipo de regulamentação. O resultado disso tudo é uma massa de jovens sem perspectiva de vida, em ora desempregados, ora em subempregos, iludidos pelas fantasias de influencers em redes sociais, um aumento absurdo dos casos de depressão e suicídios. Esse quadro abre espaço para uma espécie de “niilismo social”, onde jovens com problemas psicológicos sérios acabam se relacionando com outros jovens em condições semelhantes, resultando em nichos doentios que constantemente romanceiam tudo o que há de horrível no século XXI.

O fato é que a internet não inventou nada de novo. Diferente do que pretendem os autores pós-modernistas, ela não representa uma nova sociabilidade, mas algo pior: a completa degradação do projeto inacabado do iluminismo. Ao contrário do que Lojkine previu em sua “Revolução Informacional”, o capitalismo se manteve, assim como as relações de trabalho, muito mais parecidas com um fordismo sem a proteção social típica dessa forma de organização da produção do que com qualquer mito sobre toyotismo ou algo que o valha.

Uma coisa que os “pós-marxistas” parecem ter esquecido é que o fato de que algo está em decadência por si só não significa que algo irá acabar. Pelo contrário, a tendência é que para se manter, meio à sua putrefação, o capital se tornará cada vez mais agressivo e violento. Com as novas tecnologias, os ideólogos do imperialismo mais otimistas já cogitam até um capitalismo pós-humano, mas nunca o fim do regime do capital.

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s