A Dimensão Concreta da campanha Lula Livre

Sequestrado pelo Estado Brasileiro, Lula teve sua liberdade subtraída, e sua dignidade atacada pela mídia corporativa, juízes e militares entreguistas. No último domingo (7), milhares de pessoas foram à Curitiba exigir sua imediata libertação, e outras milhares se manifestaram no resto do país e do mundo. Entre articulações e atividades de rua, esse tem sido o cotidiano da campanha Lula Livre já desde antes do seu sequestro em 7 de abril de 2018.

Por outro lado, a direita fascista convocou manifestações em apoio à Lava-Jato e contra o Presidente Lula. Mesmo com toda a máquina do governo, apoio dos órgãos de inteligencia e recursos de empresários, a direita mobilizou uma força insignificante, fato que se deve aos desgastes e a impopularidade do projeto neoliberal do governo. A agressão de três fascistas contra uma jovem foi o retrato irracional, delituoso e histérico da mobilização da direita. Semanas após Moro ir à CIA, sob a bandeira de um nacionalismo fajuto, a direita reaparece para defender a Lava-Jato, que é uma operação de Washington para destruir empresas brasileiras e transferir a renda delas para os Estados Unidos.

Da prisão de Lula até hoje, algumas frentes tem tentado nascer, e algumas confrontações no campo popular antigolpe tem surgido. No nosso último editorial, pontuamos quais seriam três dessas linhas divergentes: primeiro a defendida pela “frente democrática” amplíssima, em segundo a do “Fora Bolsonaro” e, em terceiro, então, a campanha “Lula Livre” por uma apropriação simbólica. O fato é que essas divergências, ao menos enquanto levantado o pressuposto da honestidade, surgem de algumas confusões.

As três posições

A primeira posição [da “frente democrática” amplíssima], sustentada pelos correligionários da “oposição responsável”, defende o diálogo com todos os setores do congresso e senado para a sustentação do pacto democrático.

A segunda posição [do “Fora Bolsonaro”], sustentada pelos setores esquerdistas e revolucionaristas juvenis, parte do presusposto que “o regime golpista estaria em crise”, haja visto que a popularidade de Bolsonaro é praticamente inexistente no seio do povo. Manifestações populares espontâneas durante grandes eventos, como festivais e o carnaval de 2019, seriam o termômetro que indicaria a crise desse novo regime. Aqui reside uma primeira confusão, um tanto quanto curiosa, considerando-se o caráter acadêmico desses setores: confundem regime com governo, uma separação categórica própria dos acadêmicos.

A terceira posição [do “Lula Livre simbólico”], sustentada principalmente pelos setores ligado à burocracia partidária e sindical, entende a importância da campanha Lula Livre, mas o coloca um grau de prioridade abaixo de outras campanhas caras ao movimento sindical, como a reforma da previdência.

Quanto às confusões dessas posições

  • Quanto à “Frente Democrática Amplíssima”, essa repactuação proposta dependerá um anacronismo ímpar, afinal o que entendíamos pelo regime nascido na constituição cidadã, de 1988, foi derrotado no golpe do impeachment. De lá pra cá, um novo regime, de caráter autocrático e militar, está em ascensão. O primeiro governo golpista, de Temer, foi substituído por um novo governo, eleito numa fraude eleitoral, que entregou a maior parte da máquina pública para os militares.
  • Quanto ao “Fora Bolsonaro”, popularidade não é termômetro para nada. Era impossível imaginar que Temer concluiria seu governo e que faria avançar as pautas reacionárias com a aprovação inexistente que o primeiro governo golpista tinha. Pois bem, período de mandato da presidente Dilma terminado, tem início um novo governo golpista. A diferença deste novo governo para o primeiro é que ele goza de uma base social, ainda que pontual, coisa que Temer nunca teve. Bolsonaro é sustentado pelos sionistas neopentecostais e pelos fascistas de classe média, traidores ingratos que se beneficiaram dos programas sociais de Lula e Dilma e renegam a memória de seu legado.
    É importantíssimo lembrar também que, apesar das discordâncias morais e comportamentais, Bolsonaro e o resto dos golpistas, de direita ou “de esquerda”, não tem muitas diferenças quando o tema é a agenda econômica neoliberal de destruição da seguridade social dos trabalhadores brasileiros e da venda literal do país. Ainda que o governo, como o de Temer, encabeçado pelos militares no GSI (Gabinete de Segurança Institucional) esteja em crise — que não é o caso — o regime não está. Pelo contrário, os militares tem a correlação de forças a seu favor: se empossaram da máquina pública, enfrentam uma oposição desarmada e com sua principal liderança — e a única com capilaridade nacional real — presa. O regime golpista, ou o novo Regime Militar, caros leitores, está em plena ascensão.
    “Fora Bolsonaro” é a continuação da política confusa, fácil e preguiçosa do “forismo” que, em 2016, pedia “Fora Temer e Diretas Já”. A base dessa política, repitimos, sob o pressuposto da honestidade, é a ingenuidade juvenil que não consegue literalmente enxergar um palmo adiante do nariz. Sem as devidas correlações de força, os “forismos” podem nos levar para armadilhas, como é o caso do “Fora Bolsonaro”, alimentado até pela Globo. Afinal, para eles, que tem fetiches com a hierarquia militar, capitão não basta: tem que ser o general.
  • Quanto ao “Lula Livre simbólico”, sob o pressuposto da honestidade, os burocratas tendem a afirmar que a campanha que pede liberdade para o presidente Lula é uma campanha simbólica, a principal campanha democrática, mas que seria incapaz de “mobilizar as massas”, diferente no entanto da questão da reforma da previdência. A confusão aqui reside em não compreender a dimensão concreta da campanha Lula Livre — e ignorar que já existem milhões de trabalhadores na informalidade e tantos outros desempregados, o que por si só já mostra os limites de mobilização da luta contra a destruição da aposentadoria.
Para além de símbolos e da aparência democrática e grandiosas manifestações pontuais, Lula Livre cumpre um papel político-organizativo de médio prazo, simples e claro: estimular a polarização da sociedade em um tempo no qual o ufanismo e o udenismo voltaram a nortear o campo reacionário.

Temos que ter em mente de que estamos sob a ascensão de um novo Regime Militar. Depois de Lula, nenhum outro quadro do campo popular se viabilizou enquanto liderança carismática com proporções nacionais tão capilarizadas quanto Lula. Longe disso, na verdade. O velho venceria o primeiro turno das eleições de 2019 com facilidade. Não é atoa que Haddad, um quadro restrito a intelectualidade e sem nenhuma projeção nacional, teve o apoio gigantesco em todo o país depois que Lula passou a apoiá-lo. Não é atoa também que Lula segue sequestrado. Os golpistas sabem de sua gigantesca capacidade de mobilização, do seu poder político. E, diferente dos esquerdistas, os militares não são amadores. Portanto, a campanha Lula Livre não é algo meramente simbólico.

A dimensão concreta da campanha Lula Livre

Ao convocar o povo brasileiro a defender a sua maior liderança, percebemos que a dimensão concreta da campanha Lula reside em ser única campanha capaz de construir a correlação de forças necessária para viabilizar qualquer outra campanha. Reverter a reforma trabalhista, impedir a reforma da previdência e, principalmente, derrotar os planos das Forças Armadas a serviço de Washington —  que inclusive nos ameaçam entrar em guerra com a Venezuela —, dependem da campanha Lula Livre. Esse é o grande centro da atuação militante dos patriotas. O sucesso da campanha Lula Livre não será apenas libertar Lula, mas organizar o povo através dos comitês, nacional, estaduais, regionais e locais, sob a bandeira de um novo regime dos trabalhadores, encarnado pela liderança de Lula.

Insistir em “forismos” ou permanecer na defensiva (“contra isso”, “contra aquilo”), não nos fará avançar. Pelo contrário, essa política aplicada desde 2016 só nos fez ter derrotas e mais derrotas de lá para cá. A esquerda precisa fazer um balanço para entender que o sucesso da campanha Lula Livre é a condição para que se derrote a ameaça de guerra no continente e o golpe de estado com todas suas medidas. A campanha Lula Livre é condição para entrarmos na ofensiva e que se façam as reformas verdadeiramente necessárias para o povo brasileiro, em uma constituinte popular e exclusiva, tendo o povo trabalhador como protagonista. Com a campanha Lula Livre conseguiremos avançar para construir um novo Brasil, sem as amarras do falido pacto social das oligarquias na constituição de 1988, com soberania nacional e desenvolvimento para o nosso povo.

Denunciar os arrivistas, carreiristas e oportunistas!

Além disso, a campanha Lula Livre também atua como uma peneira para eliminar resíduos arrivistas, carreiristas e oportunistas de todo tipo. É inconcebível que setores inimigos do povo participem de uma campanha no qual sua figura pública seja submetida à outra. Temos exemplos práticos disso, com o mérito que a campanha teve ao desmascarar o golpista “de esquerda” Ciro Gomes, que agora não tenta mais fazer média para se apresentar enquanto um político aliado. Das eleições de 2018 para cá, a cada dia fica mais claro que se trata de um inimigo que tentou se infiltrar nas fileiras do campo antigolpe.

O mesmo vale ficarmos alertas com setores de outros partidos, como parte da Direção Nacional do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que no dia 2 de abril, decidiu pela expulsão da companheira Indianara Siqueira, por 47 votos em um total de 61 (77%) com uma acusação sem pé nem cabeça, tendo como real motivação o apoio da militante à consigna “Volta Dilma”, enquanto seu partido buscava “virar a página” com o “Fora Temer e Diretas Já”, dando legitimidade ao golpe do impeachment, jogando os votos de 54 milhões de brasileiros no lixo, tudo porque não faz parte da agenda esquerdista defender o mandato da presidente.

Vale lembrar que, em 2018, Freixo se recusou a aceitar uma chapa com o Partido dos Trabalhadores para o governo do RJ enquanto afirmava por aí que “Lula Livre não unifica[va]” e que os militares eram pobres coitados sendo usados pelo Temer. O partido deste senhor também tem o histórico de defender o juiz fascista Marcelo Bretas, a operação Lava-Jato, a operação Cadeia Velha, além de militar pelo fim do “foro privilegiado”, além de sempre assumir, categoricamente, uma posição reacionária sempre que a questão é a geopolítica.

Oficialmente, o PSOL entrou para a campanha de construção de comitês no Encontro Nacional Lula Livre, no último dia 16 de março, em São Paulo. Na segunda-feira (8), o parlamentar apareceu no lançamento do comitê estadual Lula Livre, Rio de Janeiro, na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). Mas dado este histórico, é importante sempre ficarmos atentos, afinal ano que vem teremos eleição e os carreiristas só formam alianças até o final da contagem das urnas.

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