Milícias se expandem para Zona Norte em governo Witzel

No último domingo, dia 2 de Junho, moradores dos bairros de Quintino, Piedade e Água Santa presenciaram a porta de seus lares sendo transformados em uma verdadeira praça de guerra. Conforme relataram os moradores, milicianos vindos do Morro do Fubá, em Cascadura, haviam adentrado as Ruas Saçú e Lemos de Brito, ambas no bairro de Quintino, sendo a primeira bastante próxima da divisa com Piedade e Água Santa, logo pela manhã, em torno das dez horas da manhã.

Por mais que não se configurem como favelas, essas ruas possuem, por vezes, uma presença de afiliados do tráfico de drogas do Morro do 18, controlado pela facção Amigo dos Amigos (A.D.A.), em Água Santa, que podem acessá-las através das trilhas que percorrem o morro campado que separa as áreas. É importante salientar que as trilhas do Morro do 18 conectam-no à Jacarepaguá, no bairro da Praça Seca, hoje um poderosíssimo reduto da milícia da região. Tanto é que é pelo bairro da Água Santa que os caminhos da Linha Amarela formam túneis, cortando essa cadeia de morros, que dão nas saídas para os bairros de Jacarepaguá.

A operação do cartel miliciano é pela expansão da sua rede crimonosa em territórios de facções locais

De acordo com relatos, que já são recorrentes, de moradores do próprio Morro do Fubá, os milicianos presentes em Cascadura são afiliados à milícia da Praça Seca, e, como a própria estrutura miliciana de lucrar os enchem os olhos, sempre estiveram interessados na expansão para as áreas vizinhas, ponte estratégica para a expansão das grandes milícias do Rio de Janeiro (concentradas na Zona Oeste) para a Zona Norte, região que abriga não somente a maior área de concentração populacional urbana como também a maior parte das favelas malvistas e mal faladas pelos noticiários policiais a décadas. Especificamente, os milicianos do Fubá já controlam a favela da Caixa D’água da Piedade, em uma modesta presença, sufocada pelos mais poderosos vizinhos ao lado no Morro do 18. Por enquanto, o que se vê em grande parte da Zona Norte são pequenas milícias, formadas por policiais, bombeiros, militares e afins, moradores das suas respectivas regiões. Em maior ou menor grau de organização (como uniformes, cancelas em ruas ou sistemas sofisticados de cobranças por serviços), compartilham entre si seus humildes tamanhos e falta de perspectiva expansionista.

A presença desses milicianos, uniformizados e armados com fuzis de assalto em plena manhã de domingo, obviamente chamou à atenção de muitos moradores, e até mesmo de fiéis católicos, que tiveram suas atividades religiosas na Igreja de São Jorge — na Rua Clarimundo de Melo, via principal da região em frente a ambas as ruas —, interrompidas. O que é curioso nessa história é que, por alguma razão, não chamou a atenção suficiente da Polícia Militar, que só veio a atender os chamados depois de algumas horas de tiroteio. Sabe-se que eles tiveram a oportunidade de adentrar ambas as ruas, através da Lemos de Brito e cruzando por dentro das suas ruas internas tranversais, sem quaisquer impedimentos por parte dos policiais, que permaneceram ainda durante um tempo na Rua Clarimundo de Melo. Como dizem, para bom entendedor, meia-palavra basta.

A expansão da milícia é uma estratégia muito bem elaborada

O tiroteio estendeu-se durante todo o dia, com breves pausas, e caiu noite adentro. A PMERJ participou em maior ou menor parte durante todo o dia, mas sem sinal algum de que o conflito iria cessar. Os traficantes da facção ADA, com a vantagem do conhecimento dos caminhos do morro campado, desgastaram e impediram o avanço dos milicianos que, na realidade, planejavam chegar por cima ao Morro do 18 e controlar toda a região, não só por fora como também por dentro, pelos caminhos de mata. Esse avanço dos milicianos impediria quaisquer vantagem tática aos soldados do Comando Vermelho (CVRL), também conhecedores dessas rotas, a uma eventual tentativa de retorno à Rua Barão, na Praça Seca.

Fica claro aqui que os milicianos não desejam somente uma grande área de controle econômico, mas também controle territorial das regiões onde realizam suas atividades exploratórias, e aqui, estamos pensando também nos aspectos geográficos da região, de seus recursos naturais, etc. Por exemplo, no bairro de Água Santa encontra-se uma grande pedreira desativada, que pode ser vista da Linha Amarela, e sabe-se que já é prática comum de milícias explorar areais, pedreiras e afins, de forma irregular. Essas práticas já são comuns nos municípios de Seropédica e Japeri, na Baixada Fluminense. É importante salientar também que o morro campado, citado anteriormente, está passando por um processo de loteamento e construção de casas em uma região que recebe muitos imigrantes nordestinos, graças à sua boa oferta de transporte público ao centro da cidade.

Curioso é que hoje existe uma rua extraoficial que corta o morro, podendo ser vista da Rua Clarimundo de Melo em vários pontos, e não por coincidência, nem é preciso lembrar que as milícias na região metropolitana do Rio todo são conhecidas por explorarem vendas irregulares de loteamentos, mas também de casas e apartamentos construídos, além de explorarem nessas respectivas regiões o fornecimento irregular de luz, água, ligações de esgoto, transporte alternativo, gás de cozinha, internet e telefonia, TV a cabo clandestina, etc, e, como se não bastasse, o controle ou, no mínimo, extorsão, do comércio varejista em geral: Mercearias, padarias, barbeiros, farmácias, e todos os demais serviços essenciais à vida cotidiana. Na Zona Oeste, a milícia vai além: funda até bairros.

Mais perguntas sem respostas

No dia seguinte, toda a região amanheceu na presença de destacamentos policiais, além das forças regulares, que por alguma razão desconhecida não foram capazes de impedir mais confrontos entre os grupos. Como relatado pelos moradores, a empreitada miliciana até o momento já possuía na sua conta a morte de duas crianças e invasões das casas de vários moradores. Numa fracassada tentativa de tomar definitivamente a região, os milicianos supostamente desistiram.

Para a surpresa dos moradores locais, ainda que a manhã de terça-feira (4) tenha amanhecido sem conflitos, um grande aparato policial, maior ainda que dos dias anteriores, estava presente em toda a área. Em especial, na Rua Torres de Oliveira, que corta os bairros de Piedade e Água Santa e dá acesso ao Morro do 18, muitos carros das polícias militar e civil estavam estacionados e lotados por policiais fortemente armados. Oficialmente, o 9º batalhão — responsável por vários bairros, e entre eles, Quintino —, afirmou que realizou uma operação na Rua Saçú naquela manhã. É claro que, como somos atentos aos fatos, não podemos deixar de comentar que os bairros de Água Santa e Piedade, por mais que sejam vizinhos, são área de jurisdição do 3º batalhão, que não possuía nenhuma justificativa para operação nos arredores do Morro do 18. Qual o fato que liga essas duas jurisdições policiais aparentemente separadas entre si, ninguém sabe.

Em protesto à violência e à ação policial arbitrária, moradores organizaram um protesto na Rua Torres de Oliveira, altura de Piedade, duramente reprimido pelas forças policiais com bombas de gás lacrimogêneo e o avanço policial pela rua até a favela do Morro do 18.

Considerações finais

Pouco depois da repercussão inicial do ato pelas redes sociais, o comandante do 3º batalhão da Polícia Militar, sr. Luiz Otávio, afirmou publicamente uma ocupação por tempo indeterminado do Morro do 18. Indo com calma aos fatos, notaremos questões extremamente importantes: Os conflitos não se iniciaram na área ocupada pelo 3º batalhão, mas sim em área do 9º batalhão, justamente com a invasão miliciana que não teve resposta da polícia. Depois, se todo o conflito se iniciou com o ataque dos milicianos a uma outra área, qual seria, então a maior ameaça à segurança pública que exigiria a mais imediata ação policial? Onde estão presentes os milicianos responsáveis pelos ataques ou justamente a região em vias de ser explorada?

É importante que a milícia no Rio de Janeiro seja entendida como algo além de mero banditismo ou extorsão amadora, como os pistoleiros espalhados pelos mais distantes cantos desse país. Ela é, não somente um sofisticado modelo de exploração de muitos e muitos setores econômicos sem prestar sequer um centavo de contas aos cofres públicos, mas, para além disso, um ainda mais sofisticado sistema de controle social e territorial das periferias do nosso país. O sonho da burguesia Brasileira e de seus afiliados em criar uma perfeita máquina de extermínio de negros e pobres, iniciado com os grupos de extermínios de muitas décadas atrás e atingindo a sua mais perfeita versão até hoje. A nossa Schutzstaffel [1], tropa de choque do que há de mais reacionário nas polícias e forças militares brasileiras, e na própria mentalidade do que é segurança pública no Brasil: a perseguição a um inimigo interno, marcado a ferro desde a escravidão na pele e nos rostos de muitos que viveram e vivem nesse país.

Notas:

[1] “Tropa de Proteção”, grupos paramilitares surgidos no nazifascismo alemão. Entre outras atividades, eram responsáveis pelo controle territorial dos guetos destinados aos judeus dentro da Alemanha e da Áustria.

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