Mesmo depois de tudo, esquerda amarela continua ao lado da Lava Jato

(Na foto, ato em desagravo ao juiz federal Marcelo Bretas, aliado do governador fascista Wilson Witzel, que contou com a presença dos golpistas do Vem Pra Rua, políticos da esquerda amarela, como Eliomar Coelho, Randolfe Rodrigues e Marcelo Freixo, e personalidades como Thiago Lacerda, Paula Lavigne e o ilustre Caetano Veloso. 24 de agosto de 2017)

Com o vazamento das conversas de Moro e companhia pelo site The Intercept, a discussão sobre o caráter das prisões da Lava Jato finalmente veio à tona. Em função disso, muitos setores, que até o último domingo (9) defendiam a operação com unhas e dentes, estão sendo confrontados pela realidade: a Lava Jato é uma operação golpista, gestada e coordenada pelo Departamento de Justiça dos EUA. O que, então, fazer com seus presos? Ou melhor: até onde a sanha moralista obscurece a conduta política?

É o caso do suplente de Jean Wyllys, o deputado federal David Miranda, marido do jornalista Glenn Greenwald, que concedeu uma entrevista para o UOL na última quarta (12). Questionado sobre a possibilidade da instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para averiguar o caso, o deputado disse:

Tenho minhas ressalvas. Não quero que pegue completamente a Lava Jato. A redação tem que ser fechada no Moro e no Dallagnol. Eu sou do Rio de Janeiro. Temos Cabral preso, vários políticos corruptos presos. Você quer soltar o Cunha? A Lava Jato cumpriu seu papel, mas os fins não podem justificar os meios.

“A Lava Jato cumpriu seu papel”?

No início de 2017, ainda nas fileiras do PCLCP, lançamos uma tese sobre a crise no Rio [1]. No documento, já acusávamos o caráter destrutivo da operação Lava Jato para o Estado ao apresentarmos os dados sobre o desmonte indústria da construção civil, naval, nuclear e petroquímica do RJ e suas consequências para o povo fluminense (desemprego, aumento da violência, etc.). À época tentaram inclusive nos impedir de repudiar a operação, já que a narrativa de “combate à corrupção” era um princípio para os comunistas atrasados por seus desvios esquerdistas. Hoje, graças aos documentos divulgados pelo The Intercept, fica muito mais claro para estes setores — que abandonaram a análise objetiva da situação concreta para se ater aos consensos liberais —, que a Lava Jato é uma operação golpista, além do caráter imperialista do Golpe de Estado.

O objetivo da Lava Jato é um só: destruir a economia nacional. Só que, para fazer avançar esses objetivos, é preciso destruir a maior organização que a sociedade tem para defendê-la: o Partido dos Trabalhadores. Por isso a coordenação entre o golpe na instância política — que ataca direitos dos trabalhadores organizados—, e a Lava Jato — que destroça a economia nacional.

É curioso que o deputado federal David Miranda, que não titubeia em dizer ser do Rio, deixe o povo que votou em Jean Wyllys de lado para continuar na defesa da operação golpista de destruição nacional, mesmo depois de tudo que seu companheiro trouxe à tona. Essa era a oportunidade perfeita que o Partido Socialismo e Liberdade tinha para se desvincular de seu passado alinhado ao golpe de Estado — que também já tratamos no nosso editorial [2] —, mas David Miranda prefere continuar ao lado dos fascistas, dos golpistas e dos imperialistas. Sua bela alma é inabalável. Talvez a necessidade da Lava Jato em destruir o Partido dos Trabalhadores seja útil para o PSOL e 9 das suas 12 teses congressuais que tratam de superar o PT, o que, aliás não seria uma novidade. Lembremos da falta de escrúpulos do, duas vezes candidato ao governo do Estado pelo PSOL, Tarcísio Motta, ao comemorar a notícia da prisão sem provas de Anthonny Garotinho e ainda afirmar: “agora só falta o Paes”, em referência ao ex-prefeito Eduardo Paes. O partido do socialismo amarelo é especialista em se aproveitar do cadáver político dos outros.

O desvio “de esquerda” é um atraso para os comunistas: política se combate com política, não com moralismos.

Em maio de 1920, V.I. Lenin identificava os sintomas do “esquerdismo”, e dentre eles estava a cegueira infantil que aflingiam os comunistas “de esquerda” que os impediam de travar as batalhas necessárias em função dos “princípios” que os blindavam de descer ao chão imundo da política. Esses esquerdistas, tocados pelo que o filósofo alemão G.W.F. Hegel chamou de “bela alma”, eram então incapazes de fazer sequer análises básicas, como mapear e identificar quais correlações de forças estariam envolvidas em alguma disputa, impedindo inclusive que se enxergasse as tendências históricas que iam se desenhando pelo mundo. Quase 100 anos depois da publicação de “O Esquerdismo, a Doença Infantil do Comunismo”, o diagnóstico do líder bolchevique continua o mesmo.

Depois de muito avaliar nossos erros, começamos a aprender com Lenin. Hoje, nós do editorial VORJ, não temos mais nenhum problema em tratar questões políticas, abordadas pelos esquerdistas como polêmicas cheias de dilemas morais, como a simples e fedorenta política. Vivemos o surgimento de um novo regime militar, o qual vem se construindo sobre as bases do Golpe de Estado, que se ergue pelo fim do pacto social marcado pela constituição cidadã. A República de 1988 caiu, o Brasil é vítima de ataques imperialistas e neocoloniais. Ao confrontarmos a política com a moral, estamos correndo um altíssimo risco de dar força ao Estado de Exceção, como de fato aconteceu no Rio de Janeiro, onde as dobradinhas “anticorrupção” entre Tarcísio e Witzel durante os debates eleitorais de 2018 ganharam destaque em função da prisão de Garotinho, o que acabou alavancando a campanha do atual governador fascista do Estado do Rio. Não existe espaço para purismo e amadorismo: temos um inimigo e precisamos combatê-lo até as últimas consequências.

Os desvios esquerdistas são realmente um atraso. Em função deles, fomos duramente criticados por setores da ultraesquerda quando, por exemplo, nos opomos às prisões de alguns políticos das oligarquias tradicionais em novembro de 2016 pela operação “Cadeia Velha” por entender que seria o prelúdio de uma intervenção federal no Rio de Janeiro. Em fevereiro de 2017, estava declarada, por decreto, a intervenção militar. Intervenção que resultou, inclusive, no assassinato da vereadora do Partido Socialismo e Liberdade, Marielle Franco. Também constatamos o caráter paramilitar do Golpe de Estado quando, analisando os resultados preliminares das operações da intervenção no Rio, comprovamos que o PCC estava sendo importado de São Paulo para o Rio de Janeiro. A Intervenção gestou uma reestruturação do crime organizado no Estado, que hoje conta com milícias fortalecidas, associadas ao tráfico internacional de drogas e de armas, e blindadas por todas as instâncias do executivo, do municipal ao federal, que se expandem por todo o Rio de Janeiro.

“Mas e o Cunha”?

Uma vez que David Miranda tenha citado nominalmente o golpista Eduardo Cunha, devemos lembrar: Cunha não foi preso por seus crimes, como a sabotagem ao governo Dilma, ou pelos crimes que sua Igreja é acusada — que envolvem até o tráfico humano—, mas por uma farsa jurídica da operação da destruição nacional. Na última sexta (8), publicamos um artigo [3] explicando o que foi a prisão de Cunha, condenado a 15 anos de prisão pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão fraudulenta de divisas por participação em negócio da Petrobras no Benin, o que não foge à regra das prisões políticas da Lava Jato, baseadas em espetáculos midiáticos e delações fraudulentas conseguidas por coação, denunciadas por juristas e até pelo Presidente Lula.

Frente tudo isso, defendemos o fim dos processos, perseguições e o fim da Lava Jato e liberdade para todos os presos políticos, uma vez que não resta dúvidas que todos os presos da Lava Jato são prisioneiros políticos. Mas, como a esquerda punitiva só enxerga a prisão, nunca o contexto, devemos explicar. Não nos alongaremos na questão do punitivismo nestas linhas, mas é o caso de, por exemplo, parte do movimento LGBT que comemora a decisão de ontem (13) do STF que, por 8 votos a 3, decidiu equiparar a LGBTfobia ao crime de racismo. O problema disso é que os esquerdistas, por uma cegueira moralista, não conseguem enxergar o tiro no pé que é dar o poder de legislar ao STF golpista, principalmente em meio a um Estado de Exceção. Essa questão é melhor trabalhada nos nossos artigos “Não importa a cor, o punitivismo será sempre reacionário” e “Mais poderes para o Estado de Exceção? Esquerda punitiva aplaude.”

Não temos medo dos covardes que tentam nos difamar e distorcer nossas formulações, afinal desde sempre o fazem, mas nunca conseguiram impedir o avanço progressivo da nossa compreensão política que a cada dia se mostra ainda mais acertada. Todos os golpistas merecem pagar por seus crimes contra o país e o povo brasileiro, mas isso não pode se traduzir por uma sanha tosca, punitiva e moralista, como querem os senhores amarelos, afinal, quem tem a chave da cadeia não somos nós. O que os deputados lavajateitos da esquerda amarela estão tentando fazer é “remoralizar” a Lava Jato, separando as maçãs podres, como Moro e Dallagnol, do resto da operação que, para os esquerdistas, foi positiva. Estão, em última instância, fulanizando, personificando o projeto de destruição nacional, como se este fosse apenas um desvio de caráter e não, de fato, um projeto golpista, “com o supremo e com tudo”, que envolve também a Lava Jato. Nesse sentido, devolvemos a retórica infantil do deputado amarelo: Você quer deixar o Marcelo Bretas sem responder por seus crimes de lesa-pátria?

Notas:
[1] EDITORIAL VOZ OPERÁRIA RJ. Crise do Rio. Rio de Janeiro, 2016. Disponível em: https://vozoperariarj.com/2017/03/22/crise-no-rio-de-janeiro/ Acesso em 13 de junho de 2019.
[2] EDITORIAL VOZ OPERÁRIA RJ. Entre mentiras e chantagens, Esquerda Amarela sempre esteve em sintonia com o golpe imperialista. Rio de Janeiro, 2019. Disponível em: https://vozoperariarj.com/2019/05/16/entre-mentiras-e-chantagens-esquerda-amarela-sempre-esteve-em-sintonia-com-o-golpe-imperialista/ Acesso em 13 de junho de 2019.
[3] EDITORIAL VOZ OPERÁRIA RJ. Lava jato faz uso da prisão política do golpista Eduardo Cunha para destruir a Petrobrás. Rio de Janeiro, 2019. Disponível em: https://vozoperariarj.com/2019/06/08/lava-jato-faz-uso-da-prisao-politica-do-golpista-eduardo-cunha-para-destruir-a-petrobras/ Acesso em 13 de junho de 2019.

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