Os trinta anos de atraso dos comunistas lavajateiros

Não é novidade para nenhum dos nossos leitores que as organizações da antiga “oposição de esquerda” defendem a operação Lava Jato com unhas e dentes. Lembremos que, desde 2014, quando o caráter golpista e nazifascista da operação Lava Jato já dava seus primeiros sinais, o Partido Comunista Brasileiro (PCB) — fundado em 1992 após o racha com o Partido Popular Socialista (PPS), a partir do cadáver do antigo Partido Comunista —, defendia os “aspectos positivos” da operação golpista. Para isso, sempre encheram seus portais virtuais de notas políticas, assinadas por membros do Comitê Central, recheadas de fraseologia ultra revolucionária, com uma única função: iludir jovens radicais da pequena-burguesia universitária.

Apesar de muito parecidos, a defesa tosca da Lava Jato pelo PSOL e pelo PCB diferem. O primeiro tem a intenção estratégica de enterrar o Partido dos Trabalhadores, acusado pelos amarelos de ter “aderido ao sistema corrupto para manter a governabilidade” [1]. Já para o PCB, que vem progressivamente se comportando como um comensal do PSOL, adotar essa política reacionária tem uma ambição mais humilde: satisfazer seus círculos sociais pequeno-burgueses e, com isso, influenciar no recrutamento de alguns poucos militantes amarelos para suas fileiras pretensamente comunistas.

O PCB de 1992 e o desenvolvimento da análise do Golpe de Estado

Esse grupo, que reivindica o nome do histórico Partido Comunista de março de 1922 — apesar de ter sido fundado em 1992, se coloca como a alternativa revolucionária, o que certamente não passa de bravata. O PCB de 1992 trocou a política pelo marketing, e com isso, abandonou o compromisso da vanguarda com a verdade, trocando-a por algo mais palatável à “opinião pública”. É bem óbvio que uma organização pretensamente marxista-leninista, ao defender uma operação de destruição nacional para conciliar com as mentiras dos golpistas, não deve jamais ser identificada como comunista. Esses setores não tem, no melhor dos cenários, nenhum discernimento político. Na prática atuam como elementos de confusão para a classe trabalhadora, da mesma forma que os agentes do golpe, de direita ou “de esquerda”.

Em março de 2015, o PCB assinava uma nota [2] recheadas de mentiras, como o falseamento sobre a “desmobilização dos trabalhadores pelo PT”. Uma análise séria, de compromisso com a classe trabalhadora, deve levar em consideração que o período de governo do Partido dos Trabalhadores uma das épocas com uma grande quantidade de greves na história da Nova República (entre 1984 e 2013, segundo o DIEESE, ocorreram 22550 greves das quais 6432 greves, cerca de 30% do total, ocorreram entre 2003 e 2013). Além disso, a nota negava o caráter imperialista do Golpe de Estado, resumindo à uma “disputa entre PT e PSDB se dá no campo da administração do capitalismo” (sic). Mais tarde, em dezembro [3], o PCB se recusou a construir o campo antigolpista e convocou sua militância a lutar única e exclusivamente contra o ajuste fiscal. Já em abril de 2016 [4], com o golpe não mais como uma possibilidade mas um fato, o partido do comunismo amarelo continuou com a política do “nem, nem” que aprendeu com seus amigos trotskistas do PSTU. Hoje, mesmo depois de tudo, o cenário segue igual.

No início da Lava Jato, o editorial Voz Operária RJ já denunciava as ligações de Moro com a CIA. Na contra-mão, o PCB fazia chacota [5] com aqueles que denunciavam a operação imperialista, chegando a acusar “teoria da conspiração” (sic). Custaram 5 longos anos de golpe de Estado para o PCB entender que a Lava-Jato foi elaborada pela CIA, quando na época não faltavam provas desse fato. Mas, mesmo assim, os comunistas amarelos ainda não entenderam o cenário no país.

Fraseologia pseudorrevolucionária não é critério de compromisso com o povo

Como já afirmamos inúmeras vezes, o que está em jogo no país é a própria soberania nacional. O projeto golpista não é só um conjunto de medidas de austeridade, mas uma agenda que visa o desmonte da indústria e da economia brasileira, do movimento dos trabalhadores pelas suas bases e, como vem sendo desenhado, até da desintegração territorial.

Tal qual o vereador amarelo, Tarcísio Motta[6], o youtuber ligado ao grupo de 1992, Jones Makaveli, recentemente publicou um artigo [7] onde, como já é de práxis do PCB de 1992, faz uma comparação rasteira, vulgar e reacionária, do “ajuste de Dilma” — o qual o digital influencer prefere ignorar que foi proposto no âmbito de uma sabotagem golpista —, com o projeto de destruição nacional dos governos Temer e Bolsonaro.

Recordamos que, à época, esses comunistas amarelos travavam a discussão política afirmando que a relação entre Lava Jato e os EUA contra a soberania nacional era “demasiadamente complexa para a compreensão das massas”. Em resposta, cansamos de responder que as massas não compactuam dos desvios esquerdistas dos comunistas amarelos. Muito pelo contrário, as massas já deram provas o suficientes de que compreendem muito mais a situação política nacional do que grande parte da esquerda brasileira [8].

Hoje, 5 anos depois da Lava Jato sequestrar a soberania nacional e já revelado por um jornalista estrangeiro as suas vísceras apodrecidas pela formação de um cartel criminoso para perseguir o Partido dos Trabalhadores, o PCB de 1992 se esforça para resgatar “aspectos positivos” da Lava Jato [9], em uma operação semelhante à feita por, novamente, agentes golpistas de direita “de esquerda”. Carregado de fraseologia pseudorrevolucionária, esse grupo de eruditos tenta maquiar com um longo, denso e falso debate acadêmico a pauta reacionária do “combate à corrupção”. “Para acabar com a corrupção é preciso acabar com o capitalismo”, diz a nota genericamente prolixa do PCB.

Na nota não se denuncia o golpe em momento algum. Também não aponta que o combate à corrupção é uma mentira, uma vez que essa “luta” é levada à cabo pelos bandidos da burguesia que criaram um sistema criminoso, via institucionalização da Lava Jato e influência do poder das Forças Armadas, por cima dos restos mortais da República de 1988. Nem mesmo dados reais sobre os “problemas do Brasil”, que mostram que a corrupção está longe de ser o maior [10], são levados em consideração: o “combate à corrupção” não passa de um debate reacionário que sempre foi um álibi da burguesia imperialista para perseguir a esquerda consequente e aumentar o punitivismo. Pelo contrário, o PCB de 1992 mente e falseia a realidade. Segundo eles: “a Lava-Jato provou e desvendou a corrupção sistêmica do regime político brasileiro”.

Não é mais necessário “destruir o capitalismo” para acabar corrupção, como diz o grupo de letrados, afinal, a Lava Jato, por eles defendida, já destruiu o capitalismo brasileiro. Em 5 anos de combate à corrupção foram destruídas milhares de empresas de todas as cadeias produtivas e de serviços nacionais, todas fortalecidas pelo governo dos trabalhadores, da agropecuária ao complexo nuclear [11]. A renda destas empresas já foram transferidas às transnacionais dos países imperialistas.

Esse grupo de comunistas amarelos parece ter se esquecido — ou talvez nunca tenha percebido —, que a tarefa imediata dos comunistas e dos patriotas no Brasil é derrotar o golpe imperialista [12]. É afirmando e defendendo o projeto patriótico de desenvolvimento da economia nacional que nos contrapomos e combatemos a ocupação neocolonial estadunidense contra o nosso país. Não existe uma saída “nem, nem”: a única via possível é lutar pela liberdade do presidente Lula, sob as bases do projeto democrático popular e apontando a necessidade de uma nova constituinte. É tarefa dos comunistas superar seus trinta anos de atraso e partir para a defesa da maior organização da classe trabalhadora da América Latina: o Partido dos Trabalhadores [13].

Notas:
[1] A questão é abordada no artigo do VORJ, apelidado pela militância carioca de “dossiê PSOL”: “Entre mentiras e chantagens, Esquerda Amarela sempre esteve em sintonia com o golpe imperialista”
[2] Nota política do PCB em 15 de março de 2015: “CONSTRUIR ALTERNATIVA POPULAR contra a chantagem do impeachment e a conciliação governista”
[3] Nota política do PCB em 14 de dezembro de 2015: “O PCB e o ato contra o impeachment da presidente Dilma, dia 16 de dezembro”
[4] Nota política do PCB em 16 de abril de 2016: “Nem impeachment nem pacto com a burguesia: A saída é pela esquerda!”
[5] O artigo de Jacques Gruman, “​O enigma de Mônica​” não é assinado pelo corpo do PCB. No entanto, no rodapé do site do grupo, é indicado que a “relevância das informações contidas justificam a publicação.” Qual a “relevância das informações” contidas, podemos só supor.
[6] No artigo “Mesmo depois de tudo, esquerda amarela continua ao lado da Lava Jato”, o editorial VORJ destrincha as mentiras e reducionismos presentes na campanha publicitária do vereador Tarcísio Motta sobre os cortes da educação.
[7] “Chegou a hora da Revolução Brasileira – Crítica à ideologia da industrialização e do crescimento econômico”, publicada originalmente em 27 de junho de 2019 no Blog da Boitempo e depois republicada no portal do PCB.
[8] Na exposição “Dialética da Polarização”, apresentada na Tribuna de Debates Internos do editorial VORJ às vésperas das eleições de 2018, o autor pontua que “a defesa republicana inexorável do PT fez a crítica às instituições chegar nos extratos mais populares com um lastro gigantesco, coisa que a crítica “de esquerda” nunca conseguiu. Hoje qualquer um duvida da legalidade e da normalidade democrática depois de todo o processo injusto contra o presidente Lula. E esse é, essencialmente, o movimento contraditório da nossa época. Quer dizer, é pela defesa da democracia burguesa que ela chega ao seu limite.”
[9] Artigo de Luis Fernandes, militante do Comitê Central do PCB: “O Lava Jatismo se resume a Sérgio Moro?”
[10] Em dados trazidos à tona por nós na nota “Não à prisão de Lula: Derrotar o golpe e sua operação golpista Lava Jato!”, de maio de 2017, afirmávamos que “O Judiciário e a Mídia utilizam um pretexto fraudulento de que o maior problema do Brasil é a corrupção: em dados oficiais, a corrupção desviou, até 2015, 40 bilhões de reais; enquanto se registram desvios gigantescos em evasão de divisas – apenas em 2011, o Brasil perdeu 490 bilhões de reais; na sonegação de Impostos, em 2014, registrou 501 bilhões de reais; em 2016, as empresas privadas sonegaram quase 1 trilhão de reais. No ano de 2016, o Brasil perdeu 150 bilhões de reais na Dívida Pública; em 2015, até 31/dez, consumiu R$ 962 bilhões correspondente à 42% do gasto federal. Isso deixa evidente que o debate da corrupção é apenas um pretexto moralista, para escamotear os graves problemas no Brasil.” A fonte dos dados estão anexadas ao artigo comentado na próxima nota.
[11] No documento “A Crise no Rio”, apresentamos elementos para a crítica dos impactos econômicos da Lava Jato no Estado do Rio de Janeiro.
[12] Editorial VORJ publicado em 1 de abril de 2019: “LULA LIVRE É A LUTA CENTRAL PARA DERROTAR O GOLPE DE ESTADO”
[13] A questão da responsabilidade e urgência da construção do PT pelos comunistas brasileiros é tratada no artigo “Porque os marxistas-leninistas devem construir o PT?”, de 25 de novembro de 2018. Nele, fizemos um balanço do movimento comunista brasileiro e apresentamos os motivos pelos quais rompemos com os grupos pretensamente marxistas-leninstas para ingressas nas fileiras do Partido dos Trabalhadores.

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