Os 70 anos de Fundação da República Popular da China: Cooperação, Desenvolvimento e Alternativa

Há 70 anos, em um dia como esse, era fundada uma República Popular. No dia 1º de outubro de 1949, Máo Zédōng sinalizava o fim da longa guerra entre o Gòngchǎndǎng (Partido Comunista – PCCh) e o Guómíndǎng (Partido Nacionalista – KMT) e proclamava a fundação da República Popular da China (RPC). À época, o histórico Voz Operária, fundado também 1949, também publicou sua edição de número 20, um especial comemorando a proclamação da República Popular. Para ler, clique aqui ou acesse: https://vozoperariarjcom.files.wordpress.com/2019/09/per154512_1949_00020.pdf


Breve histórico

Antes da revolução, a nação milenar chinesa foi submetida a “100 anos de humilhação” por potências colonialistas e imperialistas estrangeiras, o que fez a maior potência do Antigo Regime decair ao status de um dos países mais pobres do mundo. Como forma de reparação histórica, o presidente Mao proferiu no seu discurso de fundação – ouvido por mais de 200 milhões de pessoas que se reuniam diante do antigo Palácio Imperial (hoje conhecido como “Palácio Museu”) na cidade de Běijīng – que “Este governo está disposto a estabelecer relações diplomáticas com qualquer governo estrangeiro que esteja disposto a observar os princípios de igualdade, benefício mútuo e respeito mútuo à integridade territorial e à soberania.” [1]

Proclamação da República Popular da China

O governo do KMT, derrotado pelos comunistas, foi removido da China Continental e fixado em Taiwan pelos EUA. Apesar disso, a RPC só viria a ser reconhecida na ONU em outubro de 1971, a partir da Resolução 2758 da Assembleia Geral das Nações Unidas, chamada “Restauração dos direitos legítimos da República Popular da China nas Nações Unidas”. 76 países votaram a favor, incluindo URSS, Reino Unido e França, e outros 35, liderados pelos EUA, votaram contra.

Com o falecimento do líder e fundador da RPC, o timoneiro Mao, em 9 de setembro de 1976, a China entrou em uma nova etapa, a das Quatro Modernizações (indústria, agricultura, ciência e tecnologia e forças armadas), dando início à uma nova era na transição ao socialismo com características chinesas.

Os avanços da Revolução

Em 70 anos de sua fundação, de um país empobrecido, miserável e devastado pela ocupação colonial e pela guerra Civil, um país atrasado em relação à Europa, a República Popular conseguiu transformar a China na maior potência do século XXI.

Muitos tentam minimizar a importância da “Era Mao” (1949-1976) e atribuir o sucesso da China contemporânea meramente às reformas das Quatro Modernizações. No entanto, como apresenta Arrighi [2], as reformas só puderam ter sucesso graças aos avanços em educação e segurança social.

Há relatos de que, apesar do gigantesco número de operários nas fábricas, os supervisores operam em uma relação de 15 para cada 5.000 operários, o que releva uma grande capacidade de auto gerenciamento propiciado pelo elevo grau na educação. Foi na Era Mao que a China aumentou o período médio de escolarização para oito anos e a população estudantil para 340 milhões de pessoas. Em 1976, a taxa de alfabetização de adultos era de 67,5%. Depois das reformas, entre 1980 e 2000 a taxa de alfabetização de adultos subiu para 92%. Entre 1950 e 1980, a população subiu de 552 milhões para 1,017 bilhões de pessoas.

No período maoista ocorreu o “boom agrícola” que possibilitou que as comunas agrícolas aumentassem em duas vezes a terra agrícola irrigada, além de disseminar o uso de fertilizantes e do arroz semi anão de alta produtividade, o qual em 1977 ocupava 80% da terra destinada ao cultivo de arroz no país. Associado ao fim da escassez, o progresso na saúde preventiva, pública e universal, erradicou as epidemias.

Foram essas condições favoráveis à proliferação da vida do povo chinês que fez com que a expectativa de vida– a taxa que segundo o Banco Mundial é o maior indicador do sucesso de um país – quase dobrar em trinta anos. Em 1950, a média era de 35 anos. Em 1980, 65 anos. Com as reformas, entre 1980 e 2000 a expectativa de vida subiu para 70 anos. Diz John Ross que “os indicadores sociais da China superam até mesmo os econômicos” [3]. Isso quer dizer que as reformas apenas asseguram as maiores conquistas sociais iniciadas pela Revolução. Como diz a canção: “sem o Partido Comunista não haveria nova China”. [4]

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Estudantes durante celebração dos 90 anos de fundação do Partido Comunista da China

O desenvolvimento econômico como motor do desenvolvimento social

Na economia, os avanços são de saltar os olhos. Junto com o soviético durante o governo de Stalin, o progresso chinês é o mais espetacular visto pela humanidade. Antes da fundação da RPC, a China era o país mais pobre do mundo. Diz Bruno Guigue [5] que o PIB chinês per capita era “cerca metade do da África e menos de três quartos do da Índia”. Entre 1950 e 1980, o PIB cresceu em média 2,8% ao ano. Com as reformas, a economia aumentou em 3.200%, com um crescimento médio do PIB de 9,6% entre 1978 e 2016.

Seremos intransigentes em reafirmar que a Revolução fez saltar um país que foi imposto a “100 de humilhação” por potenciais coloniais e imperialistas a um país que exporta tecnologia de ponta. Isso não é à toa. A “abertura econômica” alardeada pelos oportunistas ocidentais nada tem a ver com a entrega total das riquezas nacionais que prega o Consenso de Washington. Existem critérios extremamente rigorosos para se aceitar a entrada de uma multinacional na China. Por exemplo, para se beneficiar das espetaculares condições para os negócios (como um mercado consumidor de 1,4 bilhões de pessoas e incentivos fiscais), a empresa deve ter altíssimo grau de competitividade no mercado mundial, é obrigada a realizar transferência de tecnologia para o país e financiar os programas de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da China, sob os critério definidos pela própria China. Isso faz com que 78% dos gastos com P&D venham de empresas.

Entre 1994 e 2006, o gasto da China com P&D teve um aumento de 17% ao ano, em comparação com 4 a 5% do Japão, EUA e EU. Arrighi relata que, “embora os EUA gastassem cinco vezes mais que a China com P&D, os chineses possuíam pouco menos da metade de pesquisadores”. Em 2017, o número de artigos científicos publicados pelos chineses foi de 492,9 mil contra 546,6 mil dos EUA e somente 68,7 mil do Brasil. Segundo relatório da WIPO [6], das 3,1 milhões de patentes depositadas no mundo nesse mesmo ano, 42,8% são da China contra 19,4% dos EUA. Isso representa uma entrada de 1,38 milhões de novas patentes na China contra 606 mil para os EUA. Em números absolutos, em 2017 haviam 13,72 milhões de patentes ativas no mundo: 2,98 milhões dos EUA e 2,1 milhões da China, seguida por 2 milhões no Japão. A estimativa é que o número de pessoas envolvidas com P&D já tenha ultrapassado os 3,5 milhões, provenientes de 1,7 mil institutos de pesquisa governamentais, 25 mil instituições de ensino superior, 489 laboratórios nacionais, 359 centros de pesquisa para engenharia tecnológica, 168 parques industriais de C&T, 91 mil empresas de alta tecnologia (dados de 2016), 3.255 incubadoras, 4.298 espaços maker com 133,3 mil startups (dados de 2016) e 2,4 mil centros de P&D de empresas estrangeiras. Os gastos da China com P&D chegaram a US$ 260 bilhões, um quinto do gasto mundial.

Vemos que, pelo contrário do que dizem os arautos do neoliberalismo, a abertura econômica da China é diametralmente oposta àquela imposta ao Brasil pelo golpe imperialista. A transferência de tecnologia e investimento nas instituições de P&D chinesas são um exemplo disso. No Brasil, temos casos de empresas norueguesas que financiam projetos de pesquisa em institutos públicos propostos por eles próprios, como o desenvolvimento privado de patente de perfuração profunda em gelo. Ou seja, chega a ser risível quem tenta comparar o neocolonialismo no Brasil com os acordos com multinacionais em solo chinês, visto que trazem retornos ao povo, facilmente perceptíveis.

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Universidade Beihang, em Pequim

China na contramão do mundo liberal

Em 70 anos de governo do Partido Comunista, colando a prova a estratégia de abertura para desenvolver a indústria nacional, apelidada de “NEP de mil anos” pelos marxistas ocidentais, conseguiu se transformar em uma exportadora de tecnologia de ponta, que está em marcha para romper de vez o monopólio de tecnologia que os EUA e Europa impõe aos países do mundo.

Movidos pelo objetivo de concluir a construção de “uma sociedade moderadamente próspera em todos os aspectos” [7], eliminando a pobreza até 2021 – data em que se completam 100 anos de fundação do PCCh, o país se considera uma economia em transição para o socialismo com características chinesas cuja primeira etapa se concluirá até 2049. Portanto, a “NEP de mil anos” tem propósito e data para acabar. Se será concretizado conforme o prometido, só o tempo dirá. Mas, até agora, os únicos equívocos de planejamento de médio e longo prazo do Partido Comunista foram quando os resultados dos planos quinquenais superaram as metas estabelecidas.

Como se romper a barreira colonial do monopólio tecnológico não fosse motivo suficiente para se exaltar a China como um exemplo para os países pobres e em desenvolvimento, o país se encontra atualmente na contramão do mundo. Enquanto os EUA e Europa veem na redução de direitos trabalhistas, arrocho salarial e cortes de gastos com programas sociais a resposta para a sua estagnação econômica, a China trabalha justamente com a perspectiva contrária.

Em termos de poder de compra, o salário dos trabalhadores dos EUA não tem ganhos reais desde 1970. O dos chineses sobe, desde 2001, a 12% ao ano [8]. Considerando que a inflação no país asiático gira em torno dos 1,4% ao ano, o aumento é enorme. Nas províncias costeiras, o salário médio era o equivalente a US$500 em 2015. Para fins de comparação, em 2015 o salário mínimo brasileiro era R$788,00, e a média do dólar de R$3,331, ou seja, um salário de US$236.56. Temos então que, em 2015, o salário chinês era superior ao dobro do brasileiro.

Com a sabotagem econômica, a alta do dólar e as políticas do golpismo, o salário brasileiro entrou em franca redução no aumento percentual. Já na China, mesmo com o aumento da população urbana vinda do campo, o salário segue um ritmo de crescimento inimaginável para o Brasil de hoje. Ao invés de pensar em arrochos e cortes, a resposta do governo chinês é de aumentar o planejamento urbanístico e o anúncio da Iniciativa do “Cinturão e Rota” em 2013, o qual trataremos logo mais.

Uma “ditadura” que estimula greves

Recentemente, a China foi palco de uma disputa entre um dos homens mais ricos da China, o empresário fundador do site de e-commerce Alibaba, Jack Ma, e a mídia do Partido Comunista da China. Jack Ma disse que trabalhar 12 horas em uma empresa seria uma “bênção” para os jovens, defendendo o sistema 996 (“das 9 da manhã às 9 da noite, seis dias por semana”) na conta do WeChat da empresa. Utilizando de sua experiência pessoal no início da empresa, dizia que “comparado a eles, até hoje, eu ainda me sinto sortudo, eu não me arrependo de trabalhar 12 horas por dia, eu nunca mudaria essa parte de mim”.

Não tardou até que a Xinhua, porta-voz oficial da RPC, respondesse o comentário de Jack Ma, “lembrando” o empresário que a Lei do Trabalho na China determina que a carga máxima diária é de 8 horas e a semanal não deve passar de 44 horas, que portanto o “sistema 996” é ilegal. A Bayuetan também se pronunciou contra as declarações do empresário.

Antes da Xinha e a Bayuetan, o Diário do Povo, órgão de imprensa do PCCh, já havia criticado os partidários de Jack Ma dizendo que a aplicação obrigatória de um esquema de 72 horas semanais “não só reflete a arrogância dos gerentes de negócios, mas também é injusta e impraticável”. “Criar uma cultura corporativa de ‘estímulo às horas extras’ não apenas não ajudará na competitividade das empresas, como também pode inibir a capacidade dessa empresa de inovar”. O artigo do jornal do PCCh conclui dizendo que “A valorização do trabalho duro não equivale a forçar os funcionários a trabalhar horas extras. Não se deve anexar os rótulos morais de ‘preguiçosos’ ou de ‘não quererem se esforçar’ a funcionários contrários ao sistema 996”. [9]

https://ichef.bbci.co.uk/news/660/cpsprodpb/DE2A/production/_107647865_3ddebfb8-88ed-4e9d-807e-379f17efd067.jpg
Manifestação pró-China em Hong Kong

Lembremos o caso da fábrica de inseticida de Dongyang em 2005. A cidade de pouco mais de 800 mil habitantes, da província de Zhejiang, no leste da China, teve a produção de uma fábrica de inseticidas revista após moradores locais identificarem a grande quantidade de poluição lançada contra um rio nos arredores do sítio. Foram convocadas algumas passeatas contra a manutenção da fábrica e o secretário distrital do PCCh responsável pela região interrompeu as atividades, atendendo as demandas dos moradores.

Outro caso, que completou 10 anos em julho, foi o da greve na siderúrgica Tonghua Iron & Steel Works na província de Jilin, no norte da China [10]. Em uma reunião, o executivo-chefe da empresa ameaçou os trabalhadores com demissões massivas que chegavam a 3.000 funcionários em três dias. O executivo foi espancado até a morte pelos trabalhadores. E a posição do governo? Segundo o The New York Times: “O governo provincial de Jilin ordenou que o Grupo privado Jianlong(grupo do executivo morto) abandonasse a compra da estatal Tonghua Iron & Steel depois que trabalhadores protestando contra a perda de empregos mataram um executivo, disse o Beijing News na segunda-feira. A instrução, anunciada pela rede de televisão de Jilin na noite passada, também ordenou que Jianlong, de Pequim, nunca mais participasse de nenhum plano de compra da Tonghua, informou a Bloomberg News.” [11] Qual foi a resposta do governo chinês? A privatização foi interrompida, nenhum trabalhador preso ou processado. “Não é esse o tipo de poder que os trabalhadores devem ter?” [12]

Segundo o Voice of America, em 2014 houveram cerca de 1.400 greves na China. A lei do trabalho de 1995 ratificou o direito ao salário e descanso, limitou as jornadas de trabalho e determinou a validade das negociações coletivas. O projeto para a construção de uma “sociedade moderadamente próspera em todos os aspectos” também envolve a ampliação desses direitos. O PCCh tem como diretiva a necessidade de garantir que os trabalhadores recebam pontual e integralmente, que se lancem programas para fornecer maior fiscalização e proteção trabalhistas, além de forçar os empregadores a melhorar a segurança nos locais de trabalho. [13]

Os próximos passos

O planejamento central do Partido Comunista tem dado resultado. Alguns problemas identificados pelo ocidente ao final da década de 2000, como a alta emissão de CO2 e a migração interna das áreas rurais para as áreas urbanas (estimava-se em 2007 que até 2021 cerca de 300 milhões deixariam o campo), tiveram resposta imediata. Logo ao início da década de 2010 — principalmente com a posse de Xi Jinping como Secretário Geral do PCCh em novembro de 2012 e como Presidente da China em março de 2013 —, a China não só entrou em uma “guinada à esquerda”, com a ampliação do trabalho ideológico, dos direitos trabalhistas e da fiscalização das condições de trabalho, como inaugurou um projeto que, até então, é a maior obra contemporânea da humanidade. Trata-se da Iniciativa do “Cinturão e Rota”.

O projeto anunciado pelo presidente Xi Jinping em setembro de 2013 durante uma visita ao Cazaquistão com um discurso intitulado “Promover a amizade entre nossa gente e trabalhar juntos para construir um futuro mais brilhante”, visa a curto e médio prazo escoar a produção chinesa e fomentar o mercado global a partir da construção de diversos “corredores de desenvolvimento” [14] ao longo de uma rede de transporte integrada, tridimensional e interconectada, composta por estradas de ferro, autoestradas, aviação, navegação, oleodutos e gasodutos, linhas de transmissão elétrica e rede de comunicações, com o objetivo de construir uma “sociedade industrial-informatizada” de médio a longo prazo. Cerca de 65 países responderam o chamado da Iniciativa “Cinturão e Rota”, que respondem por 4,6 bilhões pessoas (63% do total mundial) e um volume econômico de 2,1 trilhões de dólares (29% do total mundial) [15]. O projeto abre precedente também para o aumento da circulação de Renminbi (RMB, a moeda chinesa), promovendo gradativamente a desdolarização da economia mundial, o que é uma iniciativa louvável, uma vez que uso do dólar é uma das maiores armas de guerra do imperialismo contra os países em desenvolvimento. [16]

Mapa da primeira etapa da Iniciativa “Cinturão e Rota”

Para a dinâmica interna chinesa, esses novos “corredores de desenvolvimento” criados pela Iniciativa do “Cinturão e Rota” implicam em uma descentralização industrial do leste rumo ao oeste do país. Isso se traduz pela industrialização do campo, rompendo as dicotomias entre campo e cidade. Novas oportunidades estão sendo gestadas em regiões até então rurais, o que deve reduzir a gigantesca migração interna em direção aos centro urbanos. Essa dinâmica implica também em uma redução da mão de obra disponível nos centro urbanos, o que já vem sendo identificado pelos empresários estrangeiros como um dos fatores responsáveis pela a alta nos salários de operários chineses. Novamente, na contramão do ocidente, a China não investe no desemprego para “estimular o crescimento”, mas no planejamento central e a ampliação dos postos de trabalho por todo o país.

A Iniciativa do “Cinturão e Rota” não se desvincula das outras iniciativas do governo central para combater a emissão de CO2 e outros gases poluentes. Em um relatório do governo, o premier Li Keqiang detalhou que as emissões de Dióxido de enxofre e de óxido de nitrogênio haviam tido um corte de 3%. Nas resoluções do 19º Congresso Nacional do Partido Comunista da China, realizado em 2017, o “desenvolvimento verde” foi marcado como uma das cinco metas para o próximo período, tendo duas tarefas principais para “tornar o céu azul novamente” [17]: (1) durante 2020, 338 prefeituras chinesas devem propiciar que os moradores consigam respirar ar puro em 80% dos dias, o que significa uma queda de 18% na densidade média anual do PM2.5 (material particulado, do inglês particulate matter) nas cidades que falharam em alcançar os padrões estabelecidos para 2015; (2) deverá haver um bom planejamento e bases sólidas para assegurar uma melhora significativa do meioambiente até 2035.

O governo central determinou que, até 2025, 20% da frota de automóveis em circulação na China deverá ser elétrica, e não faltam incentivos para isso, já que seis das dez maiores fábricas de bateria de íon lítio (usado pelos carros elétricos) do mundo ficam no país. Além disso, uma futura proibição do uso de carros de motor a combustão está no horizonte, já que o governo determinou que a autonomia das baterias devem ser duplicadas até 2020 pelas fabricantes instaladas no país. Em termos de investimento, somente em 2017 a CALT, empresa concorrente da fabricante de baterias da Tesla nos EUA, recebeu US$15 milhões do governo chinês.

Os progressos são otimistas e comprováveis. Segundo a Nature Geoscience [18], entre 2014 e 2016, a emissão de CO2 entrou em uma queda constante de 4.2%, o que surpreendeu estudiosos britânicos, que projetavam o pico das emissões de CO2 para não antes de 2025. É o país que mais investe em energias renováveis: Desde 2014, a China vem sendo o país que mais investe. Dos cinco países líderes nesse ramo, em 2017 a China foi responsável por 46.5% (US$ 132,6 bilhões), seguido pelos países da União Europeia (20.16%), EUA (19.99%), Japão (8.22%) e Alemanha (5.13%).

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Desafios a serem enfrentados

A China como o principal bastião do desenvolvimento terceiro-mundista vem sofrendo ataques. No centro de uma “guerra comercial” com os EUA, a política chinesa tem sido cercada pelo imperialismo. Campanhas de difamação contra o país já são antigas, mas estão atingindo um ponto sem retorno.

Recentemente, os EUA tem armado Taiwan na perspectiva de desestabilizar a China. Em julho deste ano, foi confirmada a compra de US$ 2,2 bilhões em armas dos EUA por Taiwan que inclui 108 tanques Abrams M1A2T e cerca de 250 mísseis Stinger. Aprovado em setembro pela Comissão de Relações Exteriores do Senado dos EUA, o “Decreto Taipei” só aumenta as provocações dos EUA contra a China, que já teve que lidar com a travessia de um navio militar dos EUA pelo Estreito de Taiwan em agosto. Outros inimigos podem voltar a também dar as caras, como o Japão, que vem se consolidando como o maior importador de armas da Alemanha e com quem a China mantém outra disputa territorial.

Os EUA estão forçando sua estratégia de guerra híbrida contra o território chinês. A Revolução Colorida em curso em Hong Kong representa um grave ataque contra a soberania nacional. Mas, por mais extenso que seja o currículo dos EUA em fomentar disputas étnicas, a China fez o dever de casa. O país é pioneiro no estabelecimento de fronteiras virtuais, portanto praticamente livre (com exceção do “escritório asiático da CIA”, Hong Kong e outras RAE) das ferramentas usadas mundo afora para criar consensos e “mentes de colmeia” afim de derrubar governos. Talvez seja o país mais preparado de todo o planeta para combater as pretensões imperialistas nessa (nem tão) nova forma.

Inclusive, ao que tudo indica, nesse contexto da estagnação europeia em função do atrelamento à hegemonia estadunidense, a China tem feito um esforço tremendo para retirar a Europa da zona de influência dos EUA, disputando os países europeus e apresentando os benefícios de se associar à Iniciativa do “Cinturão e Rota”.

Recomendado pela Oficina de Teoria do Departamento de Publicidade do Comitê Central do PCCh e a Oficina de Educação de Quadros do Departamento de Organização do Comitê Central do PCCh, além de ter sido incluído na lista dos “Grandes Livros da China de 2015” pela Sociedade de Críticos de Livros da China e “Excelentes Best Sellers” em julho de 2015 pelo Diário da Imprensa, Publicação, Rádio, Filme e Televisão da China, o professor de Relações Internacionais do Instituto Chongyang, Wang Yiwei — em seu livro “La Franja y La Ruta: Qué Ofrecerá China al Mundo en su Ascenso” — fala em oito aspectos os quais a Iniciativa do “Cinturão e Rota” trará oportunidades para a Europa caso ela adira ao projeto: (1) oportunidade para que a Europa tenha uma “revitalização econômica”; (2) oportunidade para a construção do “grande mercado eurasiático e renascimento da civilização”; (3) oportunidade para a integração da Europa; (4) oportunidade para a reconciliação entre a União Europeia e a Rússia — o que pode ajudar a resolver a crise da Ucrânia e “forjar a paz e estabilidade a longo prazo”; (5) oportunidade para que a Europa participe mais nos assuntos Ásia-Pacífico, ampliando sua influência na região, a qual foi “marginalizada” e deixada para trás pelos EUA com sua estratégia de “retorno a Ásia”; (6) oportunidade para que a UE incremente sua influência mundial, visto que a “Iniciativa do Cinturão e Rota reforçará a influência mundial da UE mediante a promoção de um desenvolvimento verde, sustentável e inclusivo, e as elevadas normas laborais e meio ambientais amplamente defendidas pela UE (…)” (p.073) ; (7) oportunidade para enriquecer ainda mais a associação estratégica global entre China e a União Europeia, sob a base do Plano Estratégico 2020 para a Colaboração China-UE; (8) oportunidade para que Europa encontre a oportunidade de equilibrar sua relação transatlântica, que, segundo o autor, desde a Segunda Guerra Mundial, a Europa está em uma relação de dependência em relação aos EUA.

Conclusão

Não pretendemos com essa breve e resumida análise, bater o martelo sobre as várias discussões que envolvem o gigante asiático. Mas, pelo contrário, pretendemos estimular e aproximar os nossos leitores desse país que, indiscutivelmente, é um exemplo para o mundo em desenvolvimento. Saudamos os 70 anos de proclamação da República Popular da China e seguiremos acompanhando com entusiasmo o futuro desse país pelo qual nutrimos profundo respeito e admiração. Esperamos que, em curto a médio prazo, possamos voltar a compartilhar projetos e experiências comuns e, sobretudo, reatar os laços de amizade entre Brasil e China tão ameaçados pelo golpe imperialista e seus lacaios.


Notas e referências:

[1] Mao Zedong, Discurso de Proclamação da República Popular da China. 1 de Outubro de 1949. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/mao/1949/10/01.htm#r1 Acesso em: 25 de setembro de 2019

[2] Giovanni Arrighi, Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. São Paulo, Boitempo, 2008, 432 pp.

[3] Artigo de John Ross com tradução de Gabriel Deslandes para a Revista Opera, disponível em: https://revistaopera.com.br/2017/09/11/indicadores-sociais-da-china-superam-ate-mesmo-os-economicos/ Acesso em: 26 de setembro de 2019

[4] “Sem o Partido Comunista não haveria nova China”, traduzida do original: 没有共产党就没有新中国; piying: Méiyǒu Gòngchǎndǎng Jiù Méiyǒu Xīn Zhōngguó. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando a China enfrentava a invasão japonesa, Jiǎng Jièshí (conhecido no ocidente como Chiang Kai-shek) publicava um livro com o slogan “Sem o Partido Nacionalista não haveria China” em março de 1943. Em agosto do mesmo ano, o Partido Comunista lançou uma resposta crítica chamada “Sem o Partido Comunista não haveria China”. Em outubro, a canção de mesmo nome foi criada e, em 1950, foi incluída a designação “nova” antes de “China” na canção, resultando em “Sem o Partido Comunista não haveria nova China”. A canção foi incluída no épico musical de 1965, “Dōngfānghóng” (“O Leste é Vermelho”), dirigido e produzido por Wang Ping. Conheça a canção em: https://www.youtube.com/watch?v=n_O4JyU7_ik&t=

[5] “O socialismo chinês e o mito do fim da história”. Artigo de Bruno Guigue com tradução de Gabriel Deslandes para a Revista Opera, disponível em: https://revistaopera.com.br/2018/12/17/o-socialismo-chines-e-o-mito-do-fim-da-historia/ Acesso em: 25 de setembro de 2019

[6] Relatório do World Intellectual Property Organization: WIPO IP Factsand Figures 2018. Disponível em: https://www.wipo.int/edocs/pubdocs/en/wipo_pub_943_2018.pdf Acesso em: 26 de setembro de 2019

[7] Xi Jinping, A Governança da China – Volume II. Beijing, Editora de Línguas Estrangeiras Cia. Ltda., 2018, 696 pp.

[8] Jianxing & Yangon. A tightening grip. The Economist, Reino Unido. 12 de março de 2015. Disponível em: https://www.economist.com/briefing/2015/03/12/a-tightening-grip Acesso em: 26 de setembro de 2019.

[9] Laurie Chen. Alibaba founder Jack Ma says companies forcing staff to work overtime are ‘foolish’, South China Morning Post, China. 15 de abril de 2019. Fragmento traduzido por Gabriel Deslandes, retirado do artigo “Mídia estatal chinesa condena jornada de trabalho de 12 horas proposta por Jack Ma” de Gabriel Deslandes para a Revista Opera. Disponível em: https://revistaopera.com.br/2019/04/22/midia-estatal-chinesa-condena-jornada-de-trabalho-de-12-horas-proposta-por-jack-ma/ Acesso em: 26 de setembro de 2019

[10] Tania Branigan. Chinese steel workers beat takeover boss to death over job cuts. The Guardian, Reino Unido. 27 de julho de 2009. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2009/jul/27/china-steel-workers-boss-beaten Acesso em: 26 de setembro de 2019

[11] David Barbosa. China Steel Executive Killed as Workes and Police Clash. The New York Times, EUA. 26 de julho de 2009. Disponível em: https://www.nytimes.com/2009/07/27/world/asia/27steelchina.html Acesso em: 26 de setembro de 2019

[12]  Heustam FS. China: Aumento salarial e militância dos trabalhadores. Disponível em: https://medium.com/@estrelasamarelas/china-aumento-salarial-e-milit%C3%A2ncia-dos-trabalhadores-f3ca4f554d89 Acesso em: 26 de setembro de 2019

[13] Sobre a participação dos trabalhadores no sistema político chinês, verificar o artigo “China: Congressos de trabalhadores e a democracia nos locais de trabalho”, de Ian Goodrum e com tradução de Gabriel Deslandes para a Revista Opera. Disponível em: https://revistaopera.com.br/2019/07/31/china-congressos-de-trabalhadores-e-a-democracia-nos-locais-de-trabalho/ Acesso em: 27 de setembro de 2019

[14] Voz Operária RJ. Corredores de Desenvolvimento da Eurásia, América Latina e África. 2 de abril de 2019. Disponível em: https://vozoperariarj.com/2019/04/02/corredores-de-desenvolvimento-da-eurasia-america-latina-e-africa/ Acesso em: 26 de setembro de 2019.

[15] Wang Yiwei. La Franja y La Ruta: Qué Ofrecerá China al Mundo em su Ascenso. Beijing, New World Press, 2018, 239 pp.

[16] Voz Operária RJ. Como Rússia e China combatem o uso do dólar enquanto arma de guerra. 28 de fevereiro de 2019. Disponível em: https://vozoperariarj.com/2019/02/28/como-russia-e-china-combatem-o-uso-do-dolar-como-arma-de-guerra/ Acesso em: 26 de setembro de 2019.

[17] 19th National Congress of the Communist Party of China. Keywords to Understand China. Vol. II. Compiled by China International Publishing Group, Academy of Contemporary China and World Studies, China Academy of Translation. Beijing, New World Press, 2018.

[18] Dabo Guan, Jing Meng, David M. Reiner, Ning Zhang, Yuli Shan, Zhifu Mi, Shuai Shao, Zhu Liu, Qiang Zhang & Steven J. Davis. Structural decline in China’s CO2 emissions through transitions in industry and energy systems. Nature Geoscience volume 11, 2018. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41561-018-0161-1 Acesso em: 27 de setembro de 2019

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