O Condor está de volta: A reação golpista também é continental

Neste domingo (10), o presidente da Bolívia, democraticamente eleito em outubro para exercer seu quinto mandato, Evo Morales foi forçado a renunciar por uma junta golpista de militares, liberais e evangélicos neopentecostais.

O processo golpista já vem sendo denunciado por nós desde o início de abril do ano em curso, quando o senado dos EUA adiantou que não reconheceria uma nova reeleição do presidente e o golpista Carlos Mesa pediu que aos EUA que aplicassem as sanções contra o país, “ações econômicas para estrangular Bolívia” (sic). Já em outubro, dias antes das eleições, Evo denunciou o plano de militares aposentados que planejam até mesmo incendiar a sede do governo durante as eleições.

Neste final de semana, as ameaças contra o país chegaram em um ponto sem retorno: a oposição, que não reconhecia a derrota esmagadora nas urnas — mesmo sabendo que viria a receber ainda no primeiro turno — passou a incendiar casas e sequestrar familiares do Evo e seus ministros. Coagido, o presidente chegou a propor novas eleições, mas os militares e evangélicos obrigaram a sua renúncia.

A rede de televisão russa, RT, revelou que o golpe é a consumação da operação da CIA, batizada “Rey Desnudo”, que previa desestabilizar o governo democrático boliviano. Na operação contra a Bolívia, os governos fantoches dos EUA que compõem o Grupo de Lima tiveram um papel fundamental. O chanceler golpista, Ernesto Araújo, chegou a se reunir com o evangélico fundamentalista neopentecostal Luis Fernando Camacho, garantindo apoio logístico e salvaguarda diplomática ao traidores.

As duas linhas golpistas

O golpistas, financiados por empresas chilenas e historicamente pelo dinheiro do narcotráfico, encontram no povo organizado um empecilho básico para se governar. Tal qual na Venezuela, golpistas bolivianos são minoria, não possuem autonomia política e contam com grande repulsa do povo, por tanto se iludem aqueles que pensam que de golpes militares surgem, como num passe de mágica, a estabilidade e o reinado liberal: de golpes contra movimentos organizados e enraizados no povo se sucedem psicopatas armados, grupos paramilitares para perseguir e assassinar.

Nesse sentido, se desenham duas linhas golpistas complementares na Bolívia: (1) aquela encabeçada por Carlos Mesa, que aponta para compor um governo de transição sem a participação do MAS e (2) a linha do extermínio, apontada pelos evangélicos de Luis Fernando Camacho e militares.

Esta segunda linha se dá quando os militares deixam seus postos para que a direita avance com seus atentados. Além disso, não é possível a aplicação de uma política de extermínio sem a logística militar.

A Bolívia está em guerra. Como dito por ocasião do fracasso do golpe de Estado contra a Venezuela no último dia 30 de abril, “hoje não é mais necessário um memorando formal para um país declarar uma guerra“. Os ataques contra a Bolívia, tal qual aqueles contra a Venezuela, Brasil, Paraguai, Nicarágua e outros países, reúnem elementos próprios dos manuais de guerra dos EUA que anunciam a 4GW (do inglês 4th Generation War, ou “Guerras de Quarta Geração”). A campanha contra o país latino-americano assume as características da fórmula descrita por Andrew Korybko, ao tratar da Guerra Híbrida, a saber: uma primeira fase que consiste na Revolução Colorida, onde se tenta derrubar o governo nacional pela formação de enxames guiados por uma campanha midiática e digital e, depois, caso a Revolução Colorida falhe, uma segunda fase de insurgência armada, fazendo uso de grupos paramilitares e táticas de terrorismo para remover o governo.

O Condor está de volta: Neocolonialismo e a questão militar

A Bolívia estava com uma taxa de crescimento de 5% ao ano sob a administração de Evo Morales. Além disso, nos últimos anos, importantes avanços na indústria nacional vem sendo feitos. Em visita à Moscou em julho, Evo assinou um acordo com o presidente Putin para desenvolver um programa nuclear no país, com a construção conjunta de um reator nuclear na cidade de El Alto. O projeto visa atuar em vários setores civis, como na indústria, geologia, medicina e agricultura, e se iniciou em meados de 2015 mediante parcerias com o Brasil. No entanto, com a descontinuidade do programa nuclear brasileiro pelos golpistas da Lava Jato, que levaram à prisão do Almirante Othon, a parceria Brasil-Bolívia está ameaçada.

Os ataques, via golpes militares contra os países latino-americanos que avançaram com algum projeto patriótico, são uma política encabeçada pelo imperialismo que pretende impedir o desenvolvimento nacional dos países do terceiro mundo. A OEA (Organização dos Estados Americanos), hegemonizada por satélites das neocolônias do eixo EUA-União Europeia, atua como uma extensão da política externa do Departamento de Estado dos EUA. Os vários golpes contra os países latino-americanos, como Honduras de Zelaya, Paraguai de Lugo e o Brasil de Dilma, são centralizados, são um só.

Muito se profetizou sobre o “fim do ciclo neoliberal”, que estaria sendo anunciado pela vitória eleitoral dos patriotas argentinos e bolivianos, e pelas manifestações populares no Equador e no Chile contra os golpistas, o que estaria “quebrando a hegemonia do neoliberalismo”. A libertação do presidente Lula e do companheiro Dirceu nessa sexta (08) também colocou em cheque o silêncio ensurdecedor dos golpistas nesses últimos dias.

A verdade é que o neoliberalismo nunca foi uma política voluntária dos países onde ele foi aplicado. A vontade popular expressa nas urnas, depois de constantes derrotas dos candidatos do imperialismo, já deixou bem claro que neoliberalismo não é hegemônico no povo — muito pelo contrário. Mas, para o imperialismo, democracia e outros valores abstratos não tem a menor importância, sobretudo onde quer que ele considere seu quintal. A hegemonia que conta no final das contas não é o da vontade popular, mas aquela expressa pelo poder real, pelo exercício das armas.

Os exércitos dos países latino-americanos, em sua maioria ligados a uma herança oligárquica antinacional, servem como forças de ocupação estrangeira em seus próprios países. É aqui que os golpes militares assumem aqui um caráter de força neocolonial, para impor diretamente a política que o imperialismo aplica indiretamente. Política essa que é aplicada afim de enfraquecer o poder nacional dos países em desenvolvimento, a partir das políticas de desemprego, de destruição das indústrias e das economias nacionais, e até mesmo das próprias forças armadas, afim de inviabilizar qualquer “milagre econômico” no século XXI e instaurar enormes desafios organizativos para a organização dos trabalhadores — afinal, o quão difícil é pensar a política quando o que impera é a fome?

Vemos então que tal qual o Golpe Imperialista é continental, a reação também o é. Tal qual na Operação Condor, quando os governos militares da América do Sul entre os anos 70 e 80 se articularam para exterminar as forças patrióticas que reagiam à dominação imperialista, os algozes dos EUA e da União Europeia jamais ficariam de braços cruzados vendo os patriotas se movimentarem e [em alguns casos] voltarem aos governos sem nenhuma reação. Agora, após a primeira vitória [libertação do presidente Lula] do movimento dos trabalhadores no Brasil — o principal país na correlação de forças no cone sul — em quatro anos, os golpistas do Grupo de Lima precisaram reagir a altura. Nesse ínterim, não só a integridade de Evo está ameaçada, mas sobretudo a de Lula, a maior liderança viva da América Latina. O Condor está de volta.

Tempos para recuos, tempos para avanços

O rigor estratégico e a maleabilidade tática são características imprescindíveis para a vitória de qualquer projeto político. Uma tática muito controversa e arriscada é o recuo. Não são poucos os exemplos históricos que mostram a importância de recuos em determinados momentos. Na ciência militar, os recuos podem ter, dentre outras, a função de reorganizar as forças para um novo avanço, ou também ser uma forma ataque. Durante a 2ª Guerra (1941-1945), o camarada Stalin soube aliar a necessidade de retroceder em determinados momentos, à provocar escassez de recursos contra o invasor fascista, de forma a inimigo em uma realidade onde, apesar de ter avançado com uma aparente vantagem, não conseguia manter as condições de vida das tropas. Isso se desdobrou em uma ofensiva chave dos soviéticos que possibilitou a virada na guerra. Outro caso da história recente se deu na Guerra da Coreia (1950-1953-presente), quando as forças patrióticas implementaram um recuo tático contra os invasores estadunidenses, que retornou todo o efetivo para as regiões montanhosas, próximas à fronteira com a China. Lá, com o apoio dos revolucionários chineses, foi organizada uma emboscada massiva a partir de táticas de guerrilhas ensinadas pelos veteranos das batalhas na Manchúria, o que possibilitou um avanço para além do paralelo 38º pela segunda vez no registro da guerra.

Evo teve casas de familiares incendiadas, membros do governo tiveram seus familiares sequestrados e, após a renúncia, a prisão decretada de vários funcionários, como a presidente do STF boliviano e uma prisão emitida contra o próprio Evo. O presidente se encontra com a integridade ameaçada e cercado sem conseguir sair da periferia de La Paz. Diferente da Venezuela, a Bolívia não conta com uma gigantesca milícia popular armada, e Evo sempre andou na corda bamba. Reorganizar as forças armadas, descentralizando as cadeias de comando do exército com a formando centenas de novos generais leais ao projeto bolivariano, como feito pelos presidentes Chávez e Maduro, não é uma tarefa imediata e fácil de ser realizada. A vontade abstrata de agentes políticos sempre será esmagada pela política real, mas desprezar o que as condições real possibilitam ou não, isto é, desprezar a realidade nacional por ter em mente uma fórmula genérica e universalista é tão abstrato quanto qualquer política baseada na vontade — e não no poder. Por tanto, é preciso reconhecer que não havia outra forma que não recuo de Evo.

Quando a política se assume enquanto guerra, derramar sangue é inevitável. Mas isso não se traduz por uma irresponsabilidade voluntarista de colocar pessoas desarmadas para morrerem em vão. Acusar covardia contra o presidente é fruto de uma infantilidade infeliz, fruto de desvios que Lenin e outros revolucionários buscaram combater. A decisão de Evo em recuar e não ceder às pressões golpistas de enfrentamento aberto exigiu uma coragem ímpar, afinal abdicar da administração do Estado é uma jogada extremamente arriscada. Nesta madrugada de segunda-feira, já vemos os primeiros resultados imediatos da coragem de Morales: centenas de demonstrações do povo boliviano contra o golpe, nas quais se fala abertamente em “guerra civil”, e masistas (apoiadores do partido de Evo, o Movimento Al Socialismo – MAS) anunciam a “inauguração da polícia sindical”. O próprio Evo já fala em resistir a partir de Cochabamba (capital da região de mesmo nome). Apesar de não se ter a indicação quantitativa de seguinte informação, forças lealistas ao presidente também se manifestaram e, ao que tudo indica, o contragolpe está sendo organizado.

O recuo tático de Evo tem se mostrado acertado em menos de 24h depois do seu anúncio: foi uma forma de comprar tempo, salvaguardar a integridade dos quadros do MAS e reorganizar as forças. Em todo o continente latino-americano, os militantes patriotas devem estar preparados para reagir ao exercício do poder real, ao exercício das armas pelos governos militares de traição nacional, fantoches dos EUA e da União Europeia. E para isso, devemos seguir com o exemplo bolchevique e combater os desvios, de esquerda ou de direita.

Para acompanharmos a contraofensiva popular latino-americana no Brasil, o Partido dos Trabalhadores deve ter noção do seu papel imprescindível na história, que se traduz por uma política coordenada e organizada, tendo como centro a defesa das estruturas partidárias e de seus militantes, que garanta a continuidade do trabalho político. É urgente uma agenda que continue atuando nos espaços onde ainda é possível travar a luta institucional, mas que avance na luta de massas e no combate bom e justo contra o governo militar do GSI.

O desenvolvimento e a estabilidade regional só serão alcançados a partir do restabelecimento do governo legítimo do Partido dos Trabalhadores, usurpado pelo imperialismo em 2016. Posto isso, devem estar no horizonte estratégico dos trabalhadores brasileiros a (1) repatriação do patrimônio roubado pelo golpe e (2) uma reforma política que tenha como um dos eixos principais a reformulação das cadeias de comando das Forças Armadas, afim de frustrar os conspiradores e traidores. Só assim teremos Pátria.

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