Cocaína apreendida no avião da comitiva presidencial foi fornecida pelo chefe do tráfico do Morro do Dendê

Novos elementos do caso do “Aerococa” são revelados. Militares transportaram cocaína pura do Morro do Dendê, localizado próximo à Base Aérea onde o “Aerococa” faz manutenção. Posteriormente, chefe da organização local [que é aliada das milícias] foi assassinado em uma operação atípica da Polícia para queima de arquivo.

A narrativa dos militares para incriminar o sargento 

No dia 10 de julho de 2019, realizou-se a audiência pública na Câmara dos Deputados com a participação conjunta da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) e da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM), atendendo aos requerimentos sobre o assunto da apreensão de drogas com militar a serviço de aeronave presidencial. 

Foram convidados: General Augusto Heleno Ribeiro Pereira, Ministro do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República (GSI-PR); Tenente-Brigadeiro do Ar Carlos de Almeida Baptista Junior, representando o Ministro de Estado da Defesa, Fernando Azevedo e Silva; e Tenente-Brigadeiro do Ar Carlos Augusto Amaral Oliveira, representando o Comandante da Aeronáutica, Tenente-Brigadeiro do Ar Antônio Carlos Moretti Bermudez.

A tônica da audiência por parte dos militares e da bancada do governo foi passar credibilidade às forças armadas e a presidência da república, valendo-se de argumentos frágeis, alegando que as Forças Armadas defendem a soberania nacional. Afirmação completamente falsa haja vista que essa instituição participa do desmonte da indústria aeroespacial, inclusive responsável pela entrega aos norteamericanos da Base de Alcântara e Embraer, além de ser a mentora de todos os golpes de estado incluindo o golpe de 2016; e de uma pesquisa de opinião do jornal Folha de São Paulo que aponta o grau de confiança  da população de 42% e 28%, respectivamente, nas instituições Forças Armadas e Presidência da República.

Os militares primeiro tentaram minimizar e preservar a imagem das Forças Armadas, tratando a apreensão como um “fato isolado”, como se fosse uma novidade a participação dos militares no tráfico de drogas, “um desvio de conduta” do militar. Buscaram, depois, incriminar o sargento Manoel Silva Rodrigues como o único autor do crime de tráfico, e posteriormente expuseram que as investigações, em andamento, estão sob sigilo de justiça e pediram paciência à população, fazendo votos de confiança ao inquérito policial militar e a Justiça Militar, alegando imparcialidade. 

Em resumo, a audiência teve um baixo nível de debate político, e principalmente de esclarecimento sobre o fato em questão. Primeiro pelo desinteresse dos militares em revelar os detalhes da operação, por exemplo como constituem os preparativos, os planos de voo, circunstâncias e contexto da apreensão. Evidentemente, os militares são os últimos interessados pela elucidação desse caso, logo eles que tem desprezo à transparência pública. E, em segundo, pela baixa qualidade das intervenções dos parlamentares que optaram por discursos fracos em detrimento das perguntas mais relevantes.  

A  Rede Globo reforça a narrativa dos militares

A Rede Globo, em matéria exclusiva do Fantástico, teve acesso à investigação [da Superintendência Regional da Polícia Federal do Distrito Federal], divulgada no dia 01 de setembro de 2019, em que descreve detalhes da viagem da comitiva presidencial do miliciano Jair Bolsonaro à cúpula do G20. A visita foi marcada pelo apreensão de 39 quilos de cocaína em Sevilha. Episódio que constrangeu o governo brasileiro e repercutiu negativamente no exterior. Apontado como o principal suspeito, está o militar integrante do Grupo de Transporte Especial (GTE) da Força Aérea Brasileira (FAB). 

A reportagem é uma operação da emissora para trazer credibilidade a uma mentira mal-contada, e reabilitar a imagem dos militares no Brasil e no Exterior. É uma tentativa desesperada para ocultar a relação das milícias com o governo e militares que vão muito além do narcotráfico, envolve associação com facções criminosa e até a morte do chefe do tráfico de drogas do Morro do Dendê. 

Por quê é uma mentira mal-contada ?

A matéria começa com o seguinte questionamento: “Como uma carga de 39 quilos de cocaína passou pelo esquema de segurança da base aérea de Brasília e foi parar dentro de um avião de apoio da comitiva presidencial?” 

Daqui em diante reside a controvérsia: por que a matéria parte do pressuposto que o embarque da droga partiu da base aérea de brasília ? Sabemos que a Rede Globo recebe informação privilegiada da PF do Moro, que inclusive é fonte dessa reportagem do fantástico.

Diz a reportagem do fantástico:  “Motos, caminhões, carros… na base aérea da capital do Brasil, tudo é checado, na entrada e na saída. Mesmo do lado de fora, qualquer movimentação estranha termina com abordagem de soldados.”

Na Câmara, contrariando o que foi dito, sobre o aspecto do efetivo para controle das aeronaves em termo de entrada e saída de material e pessoal, o general Heleno declarou: é quase impossível dispor de um efetivo tanto no campo militar quanto do campo GSI que possa estar, permanentemente, voltado para a segurança da aeronave em termo de entrada de gente, saída de material e entrada de material. Nós [GSI] temos um espaço, que antecede, e que acontece após a viagem [sucede] onde há uma atenção especial para esse aspecto [averiguação e controle da aeronave] , fora isso alguma coisa que seja planejada e que seja utilizada…[está fora de alcance do GSI]. (CREDN, 2019) 

Ou seja, o ministro atesta que não há controle quando a aeronave não está em operação, contrariando o que foi dito na reportagem. 

General Golpista Augusto Heleno fica irritado com o deputado Alexandre Padilha PT/SP após ser perguntado sobre seu enriquecimento ilícito no COB

Também na audiência pública, o tenente-brigadeiro do Ar Carlos Augusto de Almeida disse: “Obviamente, que isso costuma ser bastante vulnerável na vez que as aeronaves saem de brasília e pousam em aeroportos desprovidos de infraestrutura e se tornam muito difícil ter um nível de segurança elevado em procedimentos que são do dia-a-dia.”  

Portanto, o militar não descarta a possibilidade da droga ter sido embarcada em qualquer base aérea ou aeroporto no Brasil. Para maior esclarecimento dos fatos, o editorial do Jornal Voz Operária, enviou um novo requerimento para o CREDN, e solicitou que a FAB e o GSI esclareçam “onde” e “quando” a aeronave esteve antes da chegada em Brasília até o dia 25 de junho quando a aeronave partiu rumo à Sevilha.

Sabemos que a manutenção das aeronaves são realizadas pela equipe de mecânicos do GTE na base aérea de Brasília e no aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro. É provável que a aeronave estivesse pousado no aeroporto do Galeão (Ilha do Governador) nas datas que antecedem o voo à Sevilha. 

Na matéria da Rede Globo, para justificar que o sargento agiu sozinho, argumenta que, de acordo com o inquérito da PF,  “o sargento deixou o carro dele na base aérea um dia antes da viagem para Sevilha. O veículo ficou parado. Para rodar pela cidade, ele usou um outro carro, alugado. E para voltar para a base, no dia da viagem, usou um terceiro veículo, que ele pediu por aplicativo de celular.” 

Do contrário, o Sargento sabendo que a base aérea é bastante monitorada, é possível que não tenha embarcado com a droga nesse momento, e essa informação induz que o sargento tinha alguma facilitação para adentrar na aeronave sem que houvesse o controle de sua bagagem, mas isso não se comprova.

E continua “Antes do embarque, no salão da base aérea, os ocupantes do voo tiveram apenas que pesar as bagagens. Na investigação, não consta que os militares tenham passado por um raio-x ou revista. Da pesagem, foi feito apenas um registro à mão, tudo muito informal. E o documento mostra que nem todos pesaram suas malas, como o sargento Silva Rodrigues, que não aparece na lista.”

Tal afirmação contradiz o que o tenente-brigadeiro Carlos Augusto afirmou na audiência na Câmara: “os procedimentos de segurança que inclui o emprego de cães farejadores de drogas e explosivos e raio-x para identificar e impedir o uso das nossas aeronaves para o cometimento de ilícitos. Imediatamente estamos em revisão desses procedimentos e treinando mais pessoas para operar os aparelhos de raio-x com vista a expandir a sua utilização dos voos do GTE.”

E reforça a ideia que o sargento foi incriminado para ocultar o envolvimento dos militares e milicianos [os verdadeiros mandantes do crime]. À ausência de registros que comprovem a posse de pertences do sargento descarta a hipótese e reforça a tese que o mesmo embarcou na aeronave sem objetos na mão.

Eduardo Bolsonaro negou o pedido de depoimento do sargento Silva Rodrigues à Audiência Pública na Câmara  


A comissão de relações exteriores e defesa nacional (CREDN) presidida pelo deputado Eduardo Bolsonaro negou o pedido dos advogados do sargento Manoel Silva Rodrigues, acusado de transportar 39 quilos de cocaína em avião da comitiva da presidência. A defesa do réu enviou e-mails para o deputado solicitando prestar depoimento que não foram atendidos pelo presidente da comissão. Após tentativas frustradas, os advogados ajuizaram o pedido reclamando por direito de resposta, assegurado na Constituição, sobre o processo. 


O militar que se encontra preso na Espanha afirma que o presidente da comissão convidou o general Augusto Heleno do Gabinete de Segurança Institucional e membros da Força Aérea Brasileira para se manifestarem sobre o episódio de sua prisão. O militar alega que ele também tem o direito de se manifestar sobre o caso. 


O réu que responde em inquérito policial militar pede que seja representado pelo seu advogado. No entanto, a juíza de primeira instância da vara Cível de Taquatinga (DF), Carina Leite Macedo indeferiu o pedido pois “[…] referidas comissões não constituem veículos de comunicação e tampouco são competentes para tramitação de processo criminal, no qual o requerente terá oportunidade de defesa assegurada […]”.

Oficial da FAB afirma que o Alto Comando da Aeronáutica mandou Bolsonaro mudar de rota para o G20 

Na audiência tenente-brigadeiro Carlos de Almeida afirmou:

“Quando o fato ocorreu no dia 25/06 às 9h [horário de brasília] nós estávamos iniciando uma reunião do alto comando da aeronáutica, todos os 4 estrelas [generais] estavam reunidos quando essa notícia chegou. Imediatamente o comandante da aeronáutica foi ao ministério da defesa comunicar o fato ao ministro da defesa [Fernando Azevedo e Silva] e essa sugestão para mudar a rota foi feita pelo alto comando da aeronáutica, que ficou reunido durante o tempo que o ministro recebeu o comandante da aeronáutica e logicamente isso [mudar a rota] era pra evitar uma especulação maior sobre o fato.” (CREDN, 2019)

Quanto ao planejamento do vôo, esses critérios, a primeira coisa se planeja com a presidência da república quais são os destinos que o presidente precisa pousar para fazer os seus trabalhos e, a partir daí, é feita uma análise técnica, e obviamente, junto à equipe de apoio da presidência. Com relação aos desdobramentos dos vôos de apoio, já que os nossos aviões têm autonomia limitada, uma vez que o país é longe da Europa, quando temos que fazer voos que atravessam o oceano, muitas vezes tem que ser feito pousos técnicos para o reabastecimento e, obviamente, esse planejamento também é negociado com o presidente da república, assessoria da presidência da república e o GSI para que se possa fazer a harmonização desse planejamento. (CREDN, 2019)

Nessa declaração deixa evidente que os militares e o Jair Bolsonaro tinham planejado e negociado com a FAB e o GSI o destino para Sevilha. E diferentemente da suspeição dos parlamentares que cogitaram que a droga poderia ter destino para o Japão foi descartada. Então porque o militar desembarcou, em Sevilha, com a bagagem contendo a droga? 

Queima de arquivo: A morte do traficante Fernandinho Guarabu foi para ocultar o envolvimento dos militares, milicianos e traficantes do TCP

No dia 27 de junho, a coordenadoria da Polícia Civil desencadeou uma operação batizada “Repugnare criminis”, com a participação de agentes dos batalhões de Operações Especiais (Bope), de Polícia de Choque (BpChq), de Ações com Cães (BAC) e do Grupamento aeromóvel (GAM) no Morro do Dendê.

Segundo o polícia, a ação cumpria mandados de prisão de criminosos que pertenciam a quadrilha chefiada por Fernando Gomes de Freitas, conhecido pelo apelido Fernandinho Guarabu. O alvo da operação eram dois policias militares, donos de depósitos de gás, que eram usados para lavagem de dinheiro.

No entanto, um informante revelou à polícia o paradeiro do líder do TCP. Era o bandido mais procurado no Estado e o disque-denúncia oferecia recompensa de 30 mil reais por qualquer informação que resultasse a sua captura. Guarabu estava retornando com seus comparsas de uma reunião que foi repentinamente cancelada na Maré com lideranças da Facção que foram mortos após uma emboscada policial.

Além de Guarabu, morreram o ex-PM Antônio Eugênio de Souza Freitas, conhecido como Batoré, Gilberto Coelho de Oliveira, Gil, amigo de infância de Fernandinho, e dois bandidos identificados como Piu e Logan, apontados como sucessor do chefe do Morro do Dendê. Todos estavam no mesmo carro, e não havia um forte esquema de segurança para proteger o traficante.

Uma embosca bem-sucedida que culminou com a “queima de arquivo”, um dia após a apreensão da cocaína em Sevilha. Denúncias apontam para o Fernandinho Guarabu como o fornecedor da droga apreendida no avião da comitiva presidencial. Ele teria assumido às negociações. E como funciona a dinâmica desse tipo de crime?

Quando se trata do tráfico envolvendo autoridades, os chefes do narcotráfico assumem diretamente as negociações afim de preservar o anonimato e o sigilo da informação. Tudo é meticulosamente planejado, integrantes da facção em menor posição hierárquica nunca ficam sabendo desse tipo de delito. Apenas pessoas como Guarabu e os comparsas que são líderes da quadrilha detêm esse tipo de informação, além de pessoas envolvidas diretamente ou que de algum modo tiveram contato com os executores. Afinal quem suspeitaria de um crime político desses? Qual instituição investigaria as circunstâncias da morte de um notório traficante ?

O Morro do Dendê é reduto do chefe do tráfico, Fernandinho Garabu, do Terceiro Comando Puro – TCP. Segundo o Ministério Público do Rio de Janeiro – MPERJ, o traficante dominou por 16 anos comunidades e bairros da região da Ilha do Governador.

Na investigação do MPERJ e da Polícia Civil, a facção transformou o Morro do Dendê em um entreposto de drogas e de armas. A localidade é apontada como uma área estratégica por ter a presença do Aeroporto Internacional do Galeão e de inúmeras bases das Forças Armadas. Da comunidade saíam os entorpecentes, armas e munições que eram distribuídos para integrantes da facção TCP. A ação criminosa era tão complexa e estruturada que tinha envolvimento até de pescadores locais que eram coagidos a navegar pelas águas da Baía da Guanabara transportando drogas e armas. Também aponta que todo mês, a quadrilha gastava meio milhão de reais com propina para policiais do 17º Batalhão da PM da Ilha do Governador. Revela a corrupção policial que envolve as atividades ilícitas deste cartel. E diz muito mais: dado a quantia significativa em propina gerado por esse criminoso, 500 mil por mês, a capacidade logística dessa organização em adquirir armas, tais como os 117 fuzis do ex-PM Ronnie Lessa e aferir lucros com o tráfico drogas, extorquir e coagir a população e expandir os negócios. A quem interessa a morte do chefe do TCP ? Ao comandante do 17º batalhão que não é! A não ser que seja para ocultar o envolvimento dos militares, milicianos e traficantes do TCP que foram flagrados praticando o tráfico internacional de drogas dentro de um avião da FAB a serviço da presidência da república.

O narcomiliciano Fernandinho Guarabu era evangélico e possuía 14 mandados de prisão contra ele, atribuídos a crimes diversos ligado a prática delituosa, incluindo homicídios e ocultação de cadáver. No Morro do Dendê, o criminoso mandou construir uma igreja evangélica e pichar nos murros dizeres e versículos bíblicos enquanto isso ordenava seus comparsas a fechar terreiros e expulsar “Pais e Mães de Santo”.

Segundo o MPERJ, Guarabu se associou a milicianos há cerca de três anos para extorquir comerciantes, controlar serviços como internet e tv a cabo, além de cobrar taxas de motoristas de vans que circulam na Ilha do Governador. Estima-se que a exploração de 500 cooperativados tenha rendido à quadrilha R$ 27 milhões entre 2013 e 2017.

Além disso, o MPERJ apresentou um relatório em que apontam a região da Ilha do Governador como uma das cerca de 180 localidades controladas pelas narcomilícias, que subjulgam 4 milhões de fluminenses em todo o Estado.

Narcomilicias são o braço paramilitar do Golpe imperialista

As narcomilícias tem como objetivo unir facções criminosas como TCP, PCC à grupos milicianos para conquistar territórios dominados por um inimigo em comum, nesse caso o Comando Vermelho – CV RL. A ação dessas organizações tomam contornos de um cartel criminoso, que conta com a participação de políticos e outros agentes do estado, se articulam de maneira mais complexa, ampliam a rede atacadista em busca de mecanismos sofisticados de lavagem de dinheiro.

Em um exercício de “enxugar” toda a complexidade envolvida no processo, os desdobramentos do golpe de Estado no Brasil podem ser resumidos como um rearranjo das organizações político-sociais da sociedade brasileira. Partindo-se do pressuposto de que não há, na realidade Brasileira, um “estado paralelo” – uma vez que todo poder criminoso no território nacional está associado ao Estado –, não somente os arranjos “oficiais”, mas também os “extraoficiais” são reorganizados. 


A construção do estado de exceção no Brasil acompanha, conforme já exposto repetidamente no editorial Voz Operária, uma série de desdobramentos na segurança pública nacional, que tem ponto alto em torno de dois eventos: a cisão da aliança PCC-CV e a intervenção militar no Rio de Janeiro, ambos durante o governo Temer. Esses dois fatores são os principais responsáveis pela aceleração do rearranjo da segurança pública nacional. Não somente das instituições de segurança do país, como também das organizações ditas como “paralelas” ao Estado. Mais uma vez, é evidente que esses grupos estão ligados à estrutura do Estado, pois não coincidentemente, o estado de exceção promove essa série de eventos em sua ascensão.


Mas é claro que isso tudo não acontece de forma isolada e descontinuada. Na prática, a intervenção militar do RJ serviu para o enfraquecimento da maior facção criminosa do estado, o CV RL. Ao olharmos atentamente os noticiários do ano da intervenção, veremos que a política de segurança pública concentrou esforços em áreas com a presença de traficantes afiliados ao CV, como por exemplo no Complexo do Alemão. De forma ainda mais esdrúxula, acompanhamos naquele ano uma ação da intervenção na Nova Holanda, território com a presença do CV no Complexo da Maré, ignorando a imensa maioria dos territórios restantes da Maré que contam com a presença da maior facção rival no tráfico de drogas, o Terceiro Comando Puro (TCP), facção também conhecida por construir grandes alianças com as milícias cariocas e seus representantes nas polícias, vindo a público na chamada “aliança 5.3”, uma articulação entre milícias como a do Campinho (o “5” aqui é um símbolo miliciano) e setores do TCP (o “3”).


Como já sabemos, não existem coincidências na realidade Brasileira. Este grupo, por sua vez, foi um dos maiores beneficiários do rompimento entre o CV e o PCC, já que a facção paulista, em seu projeto de expansão nacional, não só se operacionaliza em outros estados como também forma alianças com grupos locais, e no caso carioca, especificamente com o TCP.
A facção paulista está a anos associada à estrutura de seu governo local, formado pelo PSDB. Não à toa sua acelerada ascensão no território nacional veio na companhia do governo golpista de Temer, ocupado em grande parte por esse mesmo partido. Da mesma forma, não devemos tratar a ascensão de grupos rivais à maior facção do Estado do Rio, e, por tabela e questão de lógica, favoráveis estratégicos ao PCC, como mera coincidência. Mas então nós nos perguntamos, quem seriam os articuladores desse campo no território do RJ?


O Rio de Janeiro, reduto da família Bolsonaro, é também o berço das milícias. Quando falamos de milicianos, não se trata de mero eufemismo, como alguns campos da esquerda teimam em acreditar, mas de grupos armados que literalmente controlam territórios, favelas e bairros, e lá impõem suas próprias taxas, regras comerciais, “segurança” privada, e, como não poderia deixar de ser, interesses políticos, candidatos e partidos. 
Esses grupos, que normalmente também associam-se a igrejas evangélicas, são agentes diretos e exercem sua influência nas eleições desses territórios apoiados em políticos locais, regionais e também nacionais. A força política do golpismo, no momento do bolsonarismo, não se articula apenas através da virtualidade, mas também desses agentes que reproduzem-se ao longo das periferias urbanas do Rio de Janeiro.


Afirma-se que as milícias são braços armados de poderes locais, uma continuidade política do coronelismo e das políticas de extermínio da ditadura. Ora, é claro que as milícias são associadas a poderes locais e isso é inegável, visto que ela mesma se reproduz na territorialidade, a ocupação do espaço e sua exploração econômica. Mas, ao mesmo tempo, que tipo de força política senão uma maior do que as locais seria capaz de articular diferentes setores, como igrejas e milícias? 


Antes, nos perguntamos que tipo de força política era capaz de articular diferentes setores como os militares, o judiciário, a Rede Globo etc, em torno de um projeto golpista; percebemos que somente uma força política acima da realidade nacional e das divergências entre esses campos poderia articulá-los: o Imperialismo. Da mesma forma, somente um movimento político acima das realidades locais desses grupos seriam capazes de articulá-los, nesse caso, o próprio golpismo no Brasil. E por isso, vemos que o PCC está associado ao TCP, que está associado às milícias, que estão associadas à família Bolsonaro, e vinculados aos militares capazes de traficar drogas, pasmém, usando uma aeronave da FAB a serviço da presidência da República.

O Escritório do Crime, como é conhecido, é uma das facetas dessa articulação. Quase como debochando da nossa cara, o próprio nome deixa claro uma organização criminosa que funciona atrás de uma mesa, e assim articula suas ações. Onde fica a mesa do escritório do crime?


Portanto, quando se fala em milícia, não devemos nos limitar a pensar num oligarca local com seu revólver 38 e seus jagunços urbanos. A própria perseguição às oligarquias locais é uma característica do estado de exceção, da mesma forma como a própria Ditadura Militar o fez com políticos do Rio de Janeiro, como o caso de Carlos Lacerda. Não se trata de olhar para formas estáticas como facções e milícias e suas influências locais, mas de compreender como o estado de exceção articula para a cartelização no Brasil, da mesma forma que aconteceu no caso mexicano a partir da década passada. O que o golpismo quer para o Brasil é transformarmo-nos num Estado sem soberania, onde não só vendem-se petróleo e as nossas demais riquezas nacionais, como também corpos, vidas e quilos de cocaína.

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