Defesa de Junho de 2013 é parte do golpe no Brasil

Toda semana, para confundir e atrapalhar a organização da luta contra o golpe, surgem discussões que não levam a nada. São operações de distração preparadas pelos golpistas. Dessa vez, o PSOL levanta a tese de que a Revolução Colorida de junho de 2013 teria sido, na verdade, uma “revolta popular espontânea”. Os fatos demonstram o contrário.

A discussão começou porque, em entrevista ao canal Telesur, o Presidente Lula denunciou o envolvimento dos Estados Unidos nas manifestações de 2013 como parte do golpe contra o governo nacionalista do PT. Por conta dessa declaração acertada, o PSOL e seus satélites iniciaram uma campanha de difamação e ataques contra o Partido dos Trabalhadores.

Lula está correto. As jornadas de junho estão inseridas na estratégia de guerra híbrida aplicada pelo imperialismo contra os países subdesenvolvidos, mais especificamente à sua primeira fase — a da Revolução Colorida.

Tida como a estratégia de guerra para o Século XXI, a “Guerra Híbrida” compreende duas fases principais: a primeira Revolução Colorida e, caso a primeira fase falhe, uma segunda fase chamada de Guerra Assimétrica com o uso de grupos “insurgentes” armados (mercenários). Os manuais da Revolução Colorida se encontram nos trabalhos de Gene Sharp, norteamericano que sistematizou uma série de táticas para a derrubada de governos tidos como inimigos do eixo EUA-UE. Seu livro, Da Ditadura a Democracia, foi traduzido e distribuído em todo o mundo pela CIA, ONGs e instituições filantrópicas como a National Endowment for Democracy (NED), United States Agency for International Development (USAID), Fundação Ford, Fundação Clinton, Freedom House, Open Society Foundations, International Republican Institute, dentre outros. A Revolução Colorida demanda um longo estudo social das agências de inteligência estrangeira e encontra nas redes sociais seu principal veículo de propagação. Seu primeiro triunfo foi na Sérvia de Milosevic, na chamada “Revolução Bulldozer”, em 2000, utilizando pagers, os velhos “aparelhos beep“, para a divulgação em massa de mensagens que penetram no tecido social. A receita da Revolução Colorida consiste em um discurso ultrademocrático liberal, com palavras de ordem difusas, extremamente dispersas, mas tendo como pauta única a troca de regime (regime change).

A Revolução Colorida de junho de 2013 no Brasil, chamada de “Jornadas de Junho”, foi uma operação orquestrada pelos departamentos de inteligência dentro e fora do país. Porém, ela foi precedida por manifestações legítimas pautadas pela luta clara, objetiva e justa pelo Passe-Livre, Fim da PM, contra a Globo e abertura dos arquivos da Ditadura. Entre fevereiro e maio daquele ano, essas eram as palavras de ordem que dominavam as manifestações contra o aumento da passagem.

O PSOL e seus satélites não fizeram até hoje o balanço do que foram aquelas manifestações. Ao fazer a defesa dos operativos da CIA no Brasil, mostra-se mais uma vez como um partido sustentáculo do golpe de Estado.

Ao contrário do PSOL, que apenas aderiu às manifestações quando elas eram grandes, nós, militantes que hoje editamos com o Jornal Voz Operária, estivemos à época juntos, desde o inicio nas mobilizações, e vimos de perto como a direita sequestrou, impulsionou e dispersou aquela mobilização, assim que concluiu seu objetivo.

O objetivo em si era desgastar o governo Dilma. De fato, o governo veio despencar sua popularidade após essas manifestações. Entretanto, apesar delas, conseguiu derrotar o candidato do golpe, Aécio Neves, em 2014.

HISTÓRICO ORGANIZATIVO E A EXPERIÊNCIA DO FÓRUM DE LUTAS CONTRA O AUMENTO DA PASSAGEM

O Movimento Passe Livre foi apresentado pela mídia como o organizador das passeatas de junho de 2013. Porém, quem organizou inicialmente as mobilizações no Rio de Janeiro foi o Fórum de Lutas Contra o Aumento da Passagem. Em cada estado, uma organização similar surgiu. Em Porto Alegre era o Bloco de Lutas, em São Paulo o MPL e assim por diante.

Fevereiro de 2009, influenciado pelas mobilizações do Passe Livre secundarista de 2007, a juventude do PT, UJS, alguns setores do PSOL e satélites, outras organizações e até anarquistas, criam o Fórum de Lutas Contra o Aumento da Passagem.

Desde 2009, esse fórum era organizado sem direção, mas suas deliberações eram consensos entre as organizações presentes. Por todos os anos seguintes, esse Fórum se dedicou a realizar panfletagens e a organizar passeatas contestando o aumento da passagem, a precariedade do transporte público e a condição de trabalho dos motoristas e cobradores. Sua base social de atuação era prioritariamente as universidades e escolas.

Em fevereiro de 2013, reunidos no campus do IFRJ Maracanã, o mencionado Fórum convocou uma passeata em resposta ao aumento da passagem anunciado pelo então prefeito do município do Rio, Eduardo Paes. Contudo, o aumento da tarifa foi adiado para abril do mesmo ano, fato que coincidiu com o aumento das tarifas de outras cidades.

Em abril foi convocada a primeira manifestação do ano pelo Fórum. Cerca de 500 pessoas ocuparam uma faixa da avenida Presidente Vargas, em frente à Central do Brasil. Não tardou para o Batalhão de Choque ser acionado e dispersar a manifestação.

Foi inegável o grau desproporcional da repressão contra uma manifestação tão pequena. Eram manifestantes com ferimentos de bombas e balas de borracha, bombas de gás e alguns presos. Essa repressão gerou revolta nas organizações signatárias do Fórum que convocaram novas manifestações.

A FASE DE INFILTRAÇÃO E COOPTAÇÃO INICIOU COM ATAQUES AO CAMPO DEMOCRÁTICO-POPULAR

Em maio, com quatro meses de mobilização, as manifestações que começaram com a pauta do passe livre evoluíram para a luta contra a violência policial e eram direcionados os ataques contra aos governos estaduais do PSDB e PMDB.

Porém, em nova plenária do Fórum realizada na UERJ, percebemos o movimento de infiltração. Pela primeira vez, as organizações de esquerda, em especial o PT e PCdoB eram atacados. Um grupo autodeclarado “independente” e anarquista, que posteriormente deram origem à falecida Frente Independente Popular – FIP, se associou às correntes do PSOL para propor uma emenda que visava expulsar os membros da Juventude do PT e UJS do Fórum. A alegação desses grupos era que tais juventudes eram base de apoio do governo Sérgio Cabral. A emenda não passou, mas ali começava a movimentação de infiltração.

Na mesma semana, associado ao fato exposto acima, como na época éramos responsáveis pelas páginas da imprensa do Fórum, podemos perceber uma explosão no alcance dos eventos da página. Uma página que contava com cerca de 4 mil curtidas, conseguia em poucas horas chegar em à 100 mil de alcance, fato impossível sem a utilização de impulsionamentos. Chegamos a relatar esse fato nas plenárias do Fórum.

Só em 2017 foi tornado pública a informação de que Putin e Erdogan alertaram Dilma que empresas de publicidade dos Estados Unidos e agências de inteligência estavam impulsionando o alcance das convocatórias das manifestações na internet.

DESORGANIZAÇÃO DA ESQUERDA E A CONVERSÃO EM REVOLUÇÃO COLORIDA

O período que antecedeu às manifestações da Revolução Colorida de 17 e 20 de junho de 2013, foi marcado pela divisão e sectarismo dos grupos de oposição ao PT. As correntes do PSOL apenas foram construir efetivamente as atividades do Fórum quando perceberam o alcance das mobilizações. Na época, PSOL, PSTU e PCB, achando que poderiam construir um movimento para “superar o PT” — balela até hoje usada com exaustão —, desarticularam o Fórum em disputas menores: plenárias intermináveis, falta de deliberações, discussões sem fundamento e disputas de corrente abriram o caminho para infiltrados atuarem.

No mês de junho percebemos o surgimento de diversas organizações minúsculas e fóruns paralelos ao Fórum de Lutas. Essa movimentação era explicada pelo PSOL como resultado do surgimento de uma “nova militância”, espontânea e democrática. Porém, percebemos que se tratava de organizações falsas, criadas para cooptar, confundir e desorganizar a atuação da esquerda.

Se tratava de organizações formadas pelos aparatos policiais para aglutinar jovens esquerdistas e radicais para logo mais entregá-los à polícia, mas antes direcionar contra atividades organizadas e partidos de esquerda.

Esses elementos infiltrados atuaram livremente com a ajuda do PSOL, que na época alimentava o discurso do horizontalismo e espontaneidade. De início, já se percebe que se trata deu ma política falsa e ilegítima, uma vez que incentiva um pequeno grupo a se julgar no direito de passar por cima das decisões coletivas em nome de uma suposta ultra democracia. A história mostra que extremo horizontalismo leva, na verdade, à extrema verticalizção, pois assim é mais fácil que meia dúzia de indivíduos se sintam no direito de falar em nome de todos. Por essa razão defendemos o direito de organização das entidades e partidos da classe trabalhadora.

EXPULSÃO DO PT MARCA O FIM DO FÓRUM

Com o objetivo de fazer demagogia barata com a base social pequeno burguesa, o PSOL omiti todos seus erros no processo de junho e santifica essa mobilização como fosse uma revolta popular. Foi uma revolta falsa, que quando alcançou seu objetivo, que era desgastar o governo Dilma, cessou da mesma forma que se iniciou.

Já em meio à “mobilização” de junho de 2013, com o apoio do PSOL, voltou à pauta a questão da expulsão do PT e PCdoB do Fórum, novamente apresentada pela turma da Sininho, que à época se autodeclaravam como dirigentes das mobilizações. Com os votos favoráveis do PSOL e PSTU, e a abstenção do PCB, a emenda passou com facilidade e, na mesma plenária, já com a tarefa concluída de isolar o PT do Fórum, os agentes que propuseram um novo racha ao Fórum e anunciaram a criação da FIP.

Em julho, com a repercussão do caso do sequestro e desaparecimento de Amarildo, conseguimos retomar a bandeira contra a violência policial e pautar o fim da PM, superando a pauta reacionária da luta contra a corrupção e limitada do aumento da passagem. Em agosto, vendo que o PSOL era inútil para defender as organizações dos trabalhadores, articulamos um campo, com a participação da JPT e UJS para reverter as decisões sectárias.

De maneira cínica, logo apareceu o PSOL para “suavizar” a pauta do Fim da PM com a palavra de ordem pedindo a desmilitarização da polícia, a construção de uma polícia “cidadã e humana”. Completamente descompassado com a exigência de justiça para Amarildo e fim da PM.

Em agosto, durante uma plenária realizada no IFCS UFRJ, correntes do PSOL propuseram uma emenda com a seguinte formulação: “Fora Paes, Mete o Pezão Dilma Vez”. Pela primeira vez escutamos ser pautado o “Fora Dilma”. Paes e Pezão eram colocados na palavra de ordem apenas para disfarçar a política de derrubada do governo federal. Essa resolução foi acompanhada pelo voto de apoio do PSTU, FIP, a turma da Sininho, anarquistas e abstenção de outras correntes do PSOL.

Em outubro, após o fracasso e desmobilização da FIP, o PSOL dá votos para aceitar novamente a FIP no Fórum.

As mobilizações continuam até Fevereiro de 2014, quando durante uma manifestação, um cinegrafista foi morto. Curiosamente, a FIP logo faz uma campanha para libertação dos assassinos confessos do cinegrafista. Logo apos esse fato, a polícia associou envolvidos aos Fóruns e começaram uma dura repressão ao movimento.

PSOL mostra que só existe para gerar confusão e desorganizar o movimento de esquerda. A declaração acertada, porém óbvia do presidente Lula, onde denuncia a participação dos Estados Unidos nas jornadas de junho de 2013, gerou ataques do presidente nacional e outros dirigentes do PSOL. Não é de espantar tal declaração de um partido que declarou apoio às marchas em Hong Kong, os neonazistas na Ucrânia, os terroristas do ESL na Síria e os golpistas da Lava Jato no Brasil.

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