O Papel do PT em 2020 – Entrevista com Edson Santos

Com a aproximação das eleições municipais de 2020, o editorial Voz Operária está fazendo uma série de entrevistas com candidatos e personalidades de peso do Rio de Janeiro. Hoje o nosso convidado é o companheiro Edson Santos, ex-Ministro para Promoção da Igualdade Racial do governo Lula, eleito duas vezes deputado federal (2006 e 2010) e quatro vezes vereador (1989 a 2006).

Voz Operária: Está em curso um movimento no PT em resposta à crise do Estado, que propõe uma candidatura própria para prefeitura do município. Como o companheiro trabalha essa questão da candidatura própria, levando em conta a questão nacional?

Edson Santos: O PT foi o partido mais atacado a história do Brasil. Alguns próceres da direita diziam que acabariam com PT. Apesar de tudo e de todas as agressões sofridas, o PT tá aí, com a maior bancada na Câmara de Deputados, e tem o Lula como uma referência – a grande referência – nacional da esquerda. Mesmo o Lula tendo sido preso, atacado e vilipendiado durante todo esse período do golpe, o partido e a liderança do Lula resistem. Então, nesse período eleitoral, onde se discute os problemas locais, a questão nacional também está presente. Até porque o Rio de Janeiro é uma cidade que sofre com os benefícios de uma economia pujante à nível nacional, e sofre os malefícios de uma economia em decomposição também em nível nacional, que é o fato em curso.

O Rio de Janeiro foi o estado mais penalizado nessa virada do golpe. Os ataques à Petrobras, desmantelamento da cadeia produtiva de petróleo, estaleiros fechados, afetou muito Rio de Janeiro. Então, em termos de geração de renda, foi muito reduzida a questão do COMPERJ. A paralisação de investimento do COMPERJ também mostra o quanto o Rio perde com essa política fiscalista neoliberal em vigor em nosso país.

E o PT é referência porque o PT buscou aplicar um modelo baseado no receituário que leva em conta o papel do estado no desenvolvimento. A descoberta do pré-sal abriu uma janela de oportunidades para (1) a apropriação pelo Estado da renda do petróleo através do modelo de partilha e (2) expandir a cadeia produtiva do petróleo onde o Rio de Janeiro tinha, e tem, um papel fundamental. A crise do Rio de Janeiro tá muito vinculada à perda dessa receita do Estado em função da crise no setor de petróleo e, principalmente, dos efeitos da operação Lava Jato na economia do nosso Estado.

A apresentação de candidatura se faz necessária até para a gente fazer a defesa de um modelo o qual o estado jogou um papel fundamental no desenvolvimento do país. Brasil é visto como a grande potência emergente no mundo. Brasil trabalhou junto a China, Índia, África do Sul e Rússia, por uma alternativa de governança internacional ao modus americano. Então a apresentação de uma candidatura aqui, no Rio de Janeiro, segue esse caráter mais geral, mas tem também a questão do local.

O Rio de Janeiro tá sendo muito mal gerido pelo perfeito que vem se revelando um inepto na gestão da coisa pública. Nada funciona no Rio de Janeiro: saúde, educação, conservação. A [avenida] Niemeyer já está fechada tem alguns aniversários e ninguém fala mais nada. A população até esqueceu que existe a Avenida Niemeyer. Resultado da inoperância do Crivella no exercício da prefeitura. O PT apresentar uma proposta para a cidade do Rio de Janeiro é fundamental, seja pelo ponto de vista do desenvolvimento econômico, da recuperação econômica do estado, da questão do Turismo, a questão da Ciência e Tecnologia ou, do ponto de vista social, é ter uma atenção maior para aqueles que estão numa situação de vulnerabilidade maior. Então eu acho que o PT não pode se furtar a apresentar uma alternativa à cidade do Rio nas eleições de 2020. E tem um outro elemento aí, até partidário, que a questão de fortalecer o partido pela base, fortalecimento via eleição municipal. Então a gente não pode abdicar dessa tarefa. Além disso, só o PT pode fazer a defesa dos governos do PT, do legado do presidente Lula, o que se vai fazer necessário nesse pleito eleitoral de 2020, que se encaminha para se apresentar como um plebiscito. O certo é que o Bolsonaro, dada sua queda de popularidade, faz o crescimento do PT ser bastante palpável para a população. O PT surgir como uma alternativa a esse caos que tá colocado no país, em particular no Rio de Janeiro.

Voz Operária: O companheiro comentou sobre o papel da eleição municipal para a organização. Temos algumas experiências desse processo, como o caso de Jacarepaguá, que em 2018, conseguiu fundar um núcleo que reorganizou o partido na região. Como você enxerga essa relação?

Edson Santos: É uma função de auxiliar e ser auxiliado. A existência de núcleos de base trás para dentro do partido o debate da realidade local. Isso é importante para quem é candidato a vereador, e para quem tem a tarefa de ser candidato à perfeito. Quer dizer, conhecimento da realidade do local, a relação do partido com a população da região é fundamental para alimentar o partido com o que é real, do choque de realidade. O efeito, por exemplo, de uma política de saúde por uma comunidade como a Curicica, como a Cidade de Deus, ou ainda o não funcionamento de uma UPA, de uma casa de saúde da família, qual o impacto que isso tem a uma pessoa que faz atendimento tratamento de diabetes, hipertensão, que tá grávida, a prevenção de doenças, etc. Então o núcleo, a militância local, ela pode alimentar os candidatos a vereança, a candidato a prefeito, alimentar o partido dessas informações para que a gente possa fazer um debate levando em conta a realidade concreta do povo carioca.

Eu recebi com muito bons olhos essa política de nucleação – tem algo que o nosso núcleo aqui [de Jacarepaguá] tem um viés mais ligado à educação, então precisamos ampliar para outras áreas, mas já foi um início muito promissor das atividades do núcleo.

Voz Operária: Esse movimento de base indiciou seu nome para a forçar o debate político sobre candidatura própria municipal. Como se dá essa articulação?

Edson Santos: Primeiro, preciso dizer que esse movimento é uma aspiração de parte da militância do PT, e do próprio presidente Lula. Ele, quando esteve aqui, foi enfático na questão de o PT ter candidato no Rio de Janeiro, na cidade do Rio. Uma cidade como essa, que tem, do ponto de vista cultural, uma influência muito grande sobre o resto do país. Ter candidato aqui é a certeza que tem uma repercussão nacional de uma candidatura do PT, aqui no município do Rio de Janeiro. Eu acho que essa é a principal questão: a candidatura própria é um instrumento de diálogo com a militância e de diálogo mais amplo com a sociedade enquanto PT, mostrando o que foi feito no Brasil em termos de programa social, em termos de políticas de desenvolvimento local, mostrando que foi feito no Brasil e colocando a possibilidade de se replicar isso, levando em conta a realidade do Rio de Janeiro, se aplicar isso aqui também. Importante é a concepção, é a visão de fazer, de forma participativa, buscando entender a vocação para poder fazer uma intervenção que renda frutos à municipalidade. Essa eu acho que é uma questão candidatura própria propicia.

Outra questão que o Voz Operária coloca é a questão do nome. Eu acho que a gente não tem que discutir o nome agora. Temos que discutir a tese da candidatura própria. Uma candidatura com perfil popular, que dialogue com a população negra – que é a maioria aqui no Rio de Janeiro, então tem esse diálogo, tem essa identidade com a população com a maioria da população da cidade do Rio de Janeiro. Temos então o nome da Benedita, por exemplo, que é um excelente nome para se apresentar nesse pleito, que reúne todas as prerrogativas – aliás mais uma, já que agora o Lula anunciou a vontade de restabelecer um diálogo com setor evangélico. A Benedita, por sua militância religiosa, ajuda e pode ser um elemento importante na construção dessa rede evangélica de apoio ao PT. Então, eu acho que temos que enxergar essa questão da candidatura própria a partir desse viés, do diálogo com a militância, do diálogo com as bases que apoiaram e apoiam os governos do PT, e fazer a disputa com os setores conservadores do Rio de Janeiro. Eu tenho muita convicção que se fizermos um processo de construção da candidatura própria, com viés popular, chegaremos longe nesta eleição, ao ponto de chegar ao segundo turno. Importante relembrar as realizações do governo Lula aqui no Rio, do ponto de vista da juventude, do acesso à universidade, as políticas de assistência feitas a partir do governo Lula, coisas importantes para ser recuperadas nesse processo eleitoral para mostrar que o Rio tem alternativa. Mostrar que o Rio tem alternativa para essa crise que está vivendo.

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