A histeria midiática comprada pela Esquerda

A posição política das direções de esquerda levam os trabalhadores ao beco sem saída. Parte das organizações dos trabalhadores saíram na defesa do “Fora Bolsonaro” e a outra parte saiu em defesa de uma frente com o PSDB e o centrão. A autodeclara frente ampla na verdade se trata de uma frente neoliberal com personagens da política brasileira os quais aprovaram e continuam aprovando a agenda neoliberal contra o povo brasileiro. Não é a primeira vez que argumentamos contra essa formulação [do “Fora Bolsonaro”], um erro crasso. Um ano atrás, afirmávamos [1] que “cair nessa formulação fácil, preguiçosa e perigosa de “Fora Bolsonaro” significaria uma grande capitulação ao golpe de Estado”, e que, para contornar o governo do GSI, “devemos aproveitar as debilidades do governo militar para manobrar politicamente” em um esforço planejado e permanente, que possibilite “mobilizar as bases populares, centrando o fogo na luta contra o golpe.” No entanto, aquilo que se tratava de um equívoco imediatista e esquerdista, agora assume forma e conteúdo puramente midiáticos.

Também um ano atrás, afirmávamos que o impeachment de Bolsonaro viabilizará um “acordo com Mourão”, que “preservaria o governo das Forças Armadas e fortaleceria o golpe, já que uniria esquerda e direita para um movimento que ampliaria a tutela militar sobre o poder, colocando na cabeça do governo setores mais eficientes para ampliar o programa de traição nacional”. Com efeito, em entrevista recente, o governador assassino do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, sinaliza essa união entre “esquerda e direita” quando afirma publicamente que a convocatória de Bolsonaro para um ato em sua defesa seria “movimento destrutivo para a democracia”, uma “afronta à constituição”. Segundo o juiz lavajateiro, a “resposta jurídica” para esses ataques seria, então, o impeachment.

O gatilho para tamanha histeria coletiva é a convocatória para um ato que, segundo a mídia, seria “contra o congresso e o STF”. O fato é que, para esse ato, não existem convocatórias públicas. Não existem cartazes, nem panfletos e principalmente mobilização real. O que existe é uma mídia que age de maneira coordenada com o golpe de estado, se comportando como excelente propagandista da manifestação em questão. Essa nova cara do erro da esquerda não se traduz mais por apenas um terrível erro de análise, mas por se pautar pela grande mídia, pelas manchetes da imprensa marrom, dos “jornalões do patrão”, como diria Vito Giannotti.  Se esse erro foi, em um primeiro momento, trágico, hoje ele não pode ser outra além de uma farsa.

A começar pelo combate ao “bolsonarismo”, a esquerda se pauta por uma peça publicitária, por um inimigo natimorto. Em primeiro lugar, [2] “o projeto político do governo é a continuidade do ‘Ponte Para o Futuro’, do governo Temer/PSDB/DEM. Além disso, o capital político do governo é ínfimo e em queda”. Os “bolsonaristas” são aquela parcela da população “que em diversos momentos históricos se expressou pelo anti-petismo, anti-brizolismo, anti-varguismo”, quer dizer, não é uma novidade. Já pela via contrária, a criação desse inimigo natimorto preserva a imagem dos militares e garante aos mesmos a capacidade de repactuar o Novo Regime em ascensão. E o fazem com a capitulação e apoio de parte da esquerda, em uma convocação feita por golpistas de marca maior, como FHC e Rodrigo Maia, em um esforço coletivo abertamente oportunista [3] “contra o bolsonarismo e tudo o que ele representa”. Se a República cessou e hoje vemos emergir um novo regime de miséria para o povo, onde estava essa matilha enquanto golpeavam Dilma, incineravam a constituição e instituíam o governo do GSI?

Isso implica em identificar uma debilidade irremediável que as organizações dos trabalhadores têm. Trata-se da falta de uma imprensa, não só massiva e para cumprir a função de organizador coletivo, mas uma imprensa investigativa, que ajude a formular politicamente e de maneira independente ao oligopólio midiático. É inaceitável que organizações “de esquerda” continuem a se pautar sua política, suas polêmicas, seus atos e suas práticas, unanimemente – salvo exceções irrisórias – pelo que a mídia determina. Na histeria contra as Fake News, a grande mídia, conhecida historicamente por suas mentiras, já assumiu até o mesmo o papel de, literalmente, determinar o que é ou não verdade.

O golpe criaou a ilusão da luta para defender de uma democracia que não existe, através de pautas reativas, sem o norte de um programa político. O Brasil jamais foi um país democrático. Somente Vargas, Juscelino Kubitschek, FHC e Lula chegaram ao final dos seus mandatos. O Brasil nunca fez reforma agrária, cerca de 5 milhões de pessoas estão desnutridas, mais de metade da população não tem emprego formal (soma do desemprego e a informalidade), 800 mil brasileiros estão presos desumanamente, a tortura é institucionalizada, somos um país que nunca prendeu seus torturadores. Pelo contrario, os militares torturadores são saudados em rede nacional. A democracia burguesa é uma mentira. Os votos caçados de Dilma, os ataques aos direitos trabalhistas e a entrega do nosso patrimônio nacional comprovam que não somos um país, mais sim uma neocolônia estadunidense.

Se partimos do pressuposto que somos uma neocolônia estadunidense não será o “forismo” e muito menos a capitulação à uma frente neoliberal que resolverá o problema da crise. Independente do fantoche que esteja sentado no Palácio do Planalto, o golpe avançará.

O Partido dos Trabalhadores tem o direito de governar o país e é a única força política nacionalista capaz de conduzir um programa nacional-desenvolvimentista e o projeto democrático-popular. Porém, defender o direito do PT de voltar à presidência é insuficiente diante do aprofundamento da ditadura.

É necessário defender em conjunto a anulação do golpe, fazendo justiça histórica ao golpe contra a presidente Dilma. Enfrentar a Lava-Jato e anular todos seus processos e punição aos agentes da CIA-FBI da quadrilha de Curitiba. Defender a restituição do patrimônio roubado pelos EUA durante o golpe de Estado e a anulação de todas as medidas dos governos golpistas. Esse processo, que em médio prazo, nos levará a criar a Assembleia Nacional Constituinte, para refundar a República através da mobilização insureccional das massas. Porém, nada disso será possível sem antes enfrentar os militares, impedindo sua anistia e expurgando a alta cúpula, pois nunca seremos uma nação com a existência de uma Forças Armada que permanentemente conspira e golpeia o seu próprio povo.

Anulação dos processos da Lava-Jato!

Anulação do golpe e de todos suas medidas!

Abaixo o golpe e o governo do gabinete de Segurança Institucional!

Brasil Urgente, Lula Presidente!

Volta PT! Por um programa de governo do Partido dos Trabalhadores que coloque a necessidade da Assembleia Nacional Constituinte!

Expurgo irrestrito aos militares traficantes e golpistas de 2016!

[1] EDITORIAL VOZ OPERÁRIA. “Fora Bolsonaro”? Esquerdistas repetem o erro que aceitou o golpe contra Dilma. Rio de Janeiro, 2019. Disponível em: https://vozoperariarj.com/2019/03/13/fora-bolsonaro-esquerdistas-repetem-o-erro-que-aceitou-o-golpe-contra-dilma/ Acesso em 29 de fevereiro de 2020.

[2] EDITORIAL VOZ OPERÁRIA. Sem o jornalismo de esgoto, o golpe não teria sido possível. Rio de Janeiro, 2019. Disponível em: https://vozoperariarj.com/2019/12/02/sem-o-jornalismo-de-esgoto-o-golpe-nao-teria-sido-possivel/ Acesso em 29 de fevereiro de 2020.

[3] EDITORIAL VOZ OPERÁRIA RJ. Rodrigo Maia e o oportunismo da “oposição responsável” Rio de Janeiro, 2019. Disponível em: https://vozoperariarj.com/2019/01/26/rodrigo-maia-e-o-oportunismo-da-oposicao-responsavel/ Acesso em 29 de fevereiro de 2020.

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