Porque os trotskistas devem apoiar o relançamento em papel do Jornal Voz Operária? – Coluna

Texto original da Revista Ciência & Revolução pode ser lido clicando aqui

O jornal Voz Operária, na época de seu lançamento – virada da década de 50 – glorificava Stalin, chamando-o de “guia dos povos, campeão da paz”. Esta posição legitimava Stalin como uma continuidade de Lenin, que tinha estabelecido como princípio a luta contra guerra ao criar a III Internacional, dissolvida por Stalin na década de 40. Uma oposição a um campeão da paz só poderia ocupar um lugar contra-revolucionário, mesmo se feita do interior da classe operária. O tribunal de excessão que condenou Trotski a morte tinha agido, por esta lógica, em nome da paz e em decorrência disso, a IV Internacional não tinha razão para existir. Há 70 anos, em suas capas e matérias, o Jornal Voz Operária servia à disputa da consciência política dos operários pelo ponto de vista do lado vencedor na disputa interna do Partido Comunista da URSS. E os vencedores defendiam que uma Internacional atrapalhava o trabalho político nos países. Obviamente esta posição não era consenso entre todos que lideraram a revolução bolchevique, havia também uma minoria política no PC-URSS que veio a se denominar Oposição de Esquerda, evoluiu para uma Oposição Internacional de Esquerda e daí para uma nova Internacional. 


Os bolcheviques que evoluíram nesta direção cisionista começaram a apresentar suas críticas às políticas adotadas na URSS de dentro do Politburo. Uma grande controvérsia foi a NEP, Nova Política Econômica, que introduzia elementos capitalistas na economia soviética, e foi, sob liderança de Lenin, aprovada no mesmo congresso do Partido Comunista que baniu frações internas, em 1921. Os problemas que o Politburo estava confrontado eram os mais difíceis que a classe operária, e os marxistas como parte dela, já tinham se colocado até então. O que fazer com o estado, o partido, os sindicatos, as greves e levantes depois da tomada do poder? Como alimentar o povo de uma nação pobre, devastada pela guerra? 
Haveria alguma outra forma de tratar as divergências entre os membros do Politburo que não terminasse em exílio, assassinato e ao futuro desmantelamento da URSS? A hipótese menos provável é que seres humanos confrontados com problemas tão difíceis pela primeira vez na história não cometessem erros. Nem mesmo quem acerta muito é imune a erros e aquelas pessoas estarem no poder era a prova de terem acertado muito, afinal o problema da gestão após a revolução só se colocou porque foi possível a tomada do poder.


E este é nosso ponto de partida. O partido bolchevique estava certo em lutar para tomar o poder e mantê-lo após conquistado. Se as medidas tomadas para manter o poder foram as mais efetivas a curto, médio ou longo prazo é o objeto da análise histórica e dialética sobre a Revolussão Russa. E ninguém que se considere marxista está livre desta reflexão central para a luta de classes mundial.


Trotski, banido, se deu esta tarefa e continuou realizando análises acuradas sobre o diálogo de Lenin com as massas que tinha permitido aos bolcheviques tomarem o poder. Sua análise política acentua o fato de que a própria URSS poderia naufragar caso a revolução não se espalhasse mundialmente. Para combater, inclusive em defesa da URSS, Trotski acaba lançando o chamado por uma nova Internacional, reafirmando a unidade indissociável da classe operária mundial e a impossibilidade de socialismo num só país. Seu assassinato interrompeu sua profícua produção intelectual e criou novos problemas para os que se associavam às suas análises.


Quaisquer que fossem as difíceis condições dos trotskistas até 1950 existirem politicamente, afinal estavam exilados em sua própria classe, nenhuma das posições de Trotski recuava das premissas econômicas que tornou possível a Lenin formular o Imperialismo como etapa suprema e final do capitalismo. O programa da IV Internacional, formulado por Trotski, em 1938, se baseava em duas premissas; As condições objetivas estão dadas para a revolução mundial e o Imperialismo é a prova que o capitalismo não mais desenvolve as forças produtivas do planeta; E que a premissa subjetiva para a revolução socialista não estava dada, em função da crise da direção revolucionária do proletariado.
Porém, na mesma década de 50, os herdeiros de Trotski a frente da IV Internacional revisam este programa. Pablo e Mandel iniciam a formulação sobre uma terceira época para o capitalismo, espantados com o que chamam de desenvolvimento das forças produtivas ao fim da segunda guerra. Um analise marxista pode estabelecer exatamente quais os limites de uma reconstrução econômica apoiada na destruição causada pela guerra para o desenvolvimento global das forças produtivas, e poderemos voltar a isso em outro texto. A revisão encontrou resistência no interior da organização, tendo o círculo operário de Paris um papel de destaque. Mais uma vez, as condições de democracia interna não se confirmam, o que, assinalamos, fazem parte da crise da direção revolucionária detectada (e não desenvolvida) por Trotski, e o círculo é perseguido internamente e futuramente vai aprofundar os estudos econômicos e científicos que permitiam combater o revisionismo teórico. A IV Internacional, nascida da constatação da crise de direção revolucionária, não escapa da própria crise que detecta.


Ato contínuo, a revisão programática se estende da premissa econômica do programa para a política organizativa e a liderança oficial da IV Internacional prossegue numa elaboração que caracteriza a burocracia estalinista como capaz de fazer a revolução à sua própria maneira. Para esconder sua capitulação a burocracia stainista que tinha assassinado Trotski, Mandel, na década seguinte se propõe a formular sobre o problema da burocracia e acaba inaugurando um longo período de confusão teórica na classe operária mundial que dura até os dias de hoje.
A lógica de Mandel é simples, as burocracias são um mal necessário e cabe aos revolucionários lutar contra sua mentalidade conservadora. Quando não fosse mais possível lutar para que uma determinada burocracia tivesse uma formação ideológica revolucionária, se passaria a lutar para construir outra burocracia. Saber a diferença entre estes momentos seria a pedra de toque dos revolucionários mandelistas. Esta evolução do pensamento que se reivindica trotskista, no entanto, não parte das relações materiais que sustentam uma determinada burocracia em particular e as burocracias em geral. De Trotski é absorvida a denúncia que fez da burocracia estalinista, mas não sua análise em função da dinâmica de poder imperialista, o que levou a vulgarização do trotskismo como denuncistas do atraso ideológico das direções operárias, criando um círculo vicioso de rachas internos, com cada grupo ou militante se sentindo moral e ideologicamente capaz de acusar os dirigentes das organizações existentes de capitulação e criarem novas às quais possam dirigir eles mesmos.
A partir de 1953, a resistência francesa no interior da IV Internacional evolui no sentido da preservação da indissociabilidade entre leninismo e trotskismo, consagrados nas premissas do programa de transição. A luta por partidos operários continuou se desenvolvendo, assim como a luta pela independência de classe as organizações. O que deu um dos conteúdos a uma longa batalha pela reconstrução da IV Internacional e verificação da atualidade de seu programa, culminando em sua  reproclamação no ano de 1993. Durante 40 anos, desde a resistência do círculo operário, o militante Pierre Lambert se dedicou a construir as condições organizativas que permitissem dizer que a IV Internacional existia conforme seu programa e que este continuava válido. Deixou como legado a compreensão que a transição também se aplicaria do ponto de vista organizativo: a transição na construção do partido. Lambert não teorizou sobre isso, mas um balanço das atividades internacionais realizadas mostram a aplicação pratica do método, não se trata mais do que fazer, mas também de como fazer também.

O momento da reproclamação, poucos anos após a queda do muro de Berlim não ficou imune aos debates que levaram o trotskismo a centenas de rachas pelo mundo, a saber, qual o momento em que se rompe política e organizativamente com uma determinada burocracia. Em 2015, com Lambert, que se referia a este tipo de debate como adaptação aos aparelhos, já falecido, estas divergências não encontram quem as faça desescalar, e as brigas no interior do aparelho da seção francesa acabam levando ao estalo da IV Internacional, com duas organizações de alcance mundial saindo dela com acusações mútuas. Haveria outra forma de tratar as divergências que não levasse a cisão da IV Internacional


Até agora, este texto tem apresentado divergências entre russos e entre europeus, o que isso teria a ver com o lançamento de um jornal no Rio de Janeiro?
No Brasil atual foram os trotskistas influenciados pela ramificação mandelista na IV Internacional importantes agentes de divisão da classe operária, rachando seus partidos e sindicatos para construírem outros que pudessem dirigir. E este é o legado que Mandel dá aos militantes revolucionários que lhe seguem: o direito que se atribuem de decidir quando uma burocracia deveria ser descartada pela classe. A tarefa que cabe aos militantes é apressar isso, denunciando a direção burocrática de conciliadora de classes. A lógica é inexorável: quando formos nós a dirigir, faremos certo, dizem os candidatos a burocrata. Esta interpretação grosseira do que seja a crise de direção é uma falácia que alimenta o golpismo no interior da classe operária. Golpe que se expressa com o não reconhecimento do direito da direção da classe, mesmo equivocada, ocupar o lugar que a classe lhe conferiu diante da classe inimiga.Ao invés de resolver a crise de direção revolucionária, esta forma de lidar com a burocratização das organizações aprofunda a crise porque lava as mãos e dá o subestrato para que a luta pela democracia interna nas organizações operárias seja substituída pela construção de novos partidos ou o abandono deles. A voz de cima ainda reforça, “não estão satisfeitos, retirem-se”. É nesta onda que pegam impulso partidos-movimento que se apresentam como menos organizados, centralizados e, portanto, menos burocratizados. E este é o ponto que estamos no Brasil e no mundo hoje, com uma série de partidos-movimento se apresentando como radicais de esquerda, em sua própria opinião revolucionários, mas incapazes de formularem a defesa do governo do partido operário. 70 anos depois do lançamento do primeiro Voz Operária, o mundo mudou bastante.


Os problemas que dão origem a rachas e divisões no movimento operário são muito dificeis. De um lado direções tendem a se burocratizar, em função de suas relações com o aparelho de estado, excluindo seus adversários internos ou aprovando ritos que dificultam a livre expressão da maioria em sua base. De outro, militantes dos movimentos sociais se chocam com os obstáculos colocados pelos burocratas ao atendimento de suas reivindicações e demandas democráticas e de proteção. Estes problemas estão presentes o tempo todo na luta de classes, constituindo parte das contradições que dão origem a crise da direção revolucionária.
O problema da democracia se coloca da mesma forma dentro e fora do partido porque é sempre um problema numérico, o poder da maioria. E a maioria será sempre oprimida pelo sistema que se baseia na apropriação privada das horas de trabalho na produção de mercadorias. A conclusão de Lenin em 1917, de que o Imperialismo seria incompatível com a democracia tem sido constatada até por aqueles que se deixaram seduzir por pequenos interregnos democráticos aqui e ali pelo planeta. O poder político da maioria, porém, precisa se expressar a partir de um programa político de atendimento de suas necessidades imediatas e permanentes e por isso, precisa de um partido que lute pelo poder. Quando a maioria não tem consciência política do que precisa ser feito para que suas necessidades permanentes sejam atendidas, isto é; acabar com o sistema capitalista e instaurar o socialismo, muitas medidas paleativas aparecem como possíveis soluções para seus problemas. Daí a tendência ao conservadorismo das massas. É a falta do exercício de analise coletiva dos problemas que leve a soluções duradouras.


E mesmo entre aqueles que já estão convencidos da necessidade do fim do capitalismo, não é facil se chegar a um acordo sobre quais os passos a serem dados. Este problema está colocado para qualquer quebra de paradigma. Antes de um paradigma científico ser quebrado não é facil vizualizar todo o desentrave à ciência que o novo paradigma causaria. Em relação à substituição do paradigma econômico da propriedade, da privada para a social, há todo um esforço de inteligência para impedir até que o debate se realize. A contra-revolução tem sido planejada e sua ciência tem se desenvolvido se apropriando de todos os algoritmos estatisticos que as ferramentas de comunicação tem produzido.

Independente das dificuldades de entendermo-nos, podemos nos colocar de acordo que o problema da unidade política do proletariado é central para a vitória na luta de classes. O problema material para a unidade é que as condições de existência da classe operária são diversas, e isto é objetivo. As componentes do proletariado não pisam os mesmos chãos. Assalariados são privilegiados diante de desempregados, Brancos diante de negros. Homens diante de mulheres. E outras tantas diversidades que criam diferentes prioridades entre quem só tem suas horas de trabalho para vender. A divergência no interior da classe é, desta forma, orgânica à própria classe, dentro da qual todo dissenso é necessário para que se produzam as sínteses. Mas como manter a paz se, além destas divergências orgânicas, existe uma divergência fundamental entre os burocratas e o militante comum ou entre o burocrata e qualquer membro da classe trabalhadora que não seja parte de sua elite. Os burocratas não precisam da revolução, ao contrário, precisam de alguma estabilidade para poderem planejar a ação do partido. Manter a paz é, num certo sentido, manter o poder já conquistado por esta burocracia diante das classes proprietárias, que não hesita em perseguir a seus membros. Mas paz não é pão e circo apenas. Já disseram antes, não sem razão, que paz sem voz, não é paz, é medo.


O conflito de interesses entre a burocracia e a classe que, ao se organizar, a construiu,  é um dado da situação. Quando os de baixo continuam silenciados esta contradição tende a evoluir para uma crise de representatividade política, que normalmente é instigada pela midia imperialista construindo o momento para o contra-ataque. Que sempre vem e cada vez com mais força. Entender a dinâmica golpista das classes imperialistas sobre os estados, governos, partidos e militantes parece complicado, E se formos ouvir os intelectuais parece ainda mais complicado, mas fica extremamente simples quando se ouve as histórias de todos e todas nós, vítimas de abuso político. Este ciclo de abuso das classes proprietárias toda vezes os perseguidos do sistema precisam de muitas coisas e todas incluem usarem de suas próprias vozes para serem conquistadas. E é a escuta e o atendimento desta voz a pacificação possível. O poder só se realiza como legítimo quando, nos fatos, atende os interesses da maioria numérica e é ela que sabe quais são.


A crise de direção atravessou todo o governo do PT, não pelo que foi acusado por ideólogos de origem burguesa ou pequeno-burguesa, mas porque o genocídio sobre a maioria preta continuou ocorrendo. Diante da crise de sentido, muitas mães acabaram encontrando conforto na vontade de Deus, provavelmente na igreja mais proxima de sua casa. Isso aconteceu com a família do sindicalista Anderson Luís, que dá nome ao círculo que edita este blog e se reuniu com Lambert em 1998. Anderson, assassinado em 2006, acabou entrando para as estatísticas tanto de negros quanto de militantes assassinados durante os governos do PT. E o PT, no governo, não estava preocupado em criar núcleos nos diversos territórios, que lutassem por justiça e acolhessem a dor da família e dos amigos de Anderson e tantos outros jovens negros que tombaram injustamente. Seguir as regras do jogo, portanto, não é o conteúdo da democracia, este é só o rito. Democracia é ser, no mínimo, capaz de manter os filhos da maioria vivos.

Mandel fez o desfavor ao movimento operário de dizer aos militantes que deveriam escutar o que dizem os burocratas. Mesmo que fosse para ficar avaliando suas traições. A aliança deste tipo de teoria é praticamente imediata com a academia, que se aproveita disso para dizer: ouçam os intelectuais! E, na festa da academia ocidental, Lenin, aquele encrenqueiro, ficou barrado na porta. Estava autorizado ser marxista sem Lenin. Como se um não fosse a decorrência obrigatória do outro. Mas há que se escutar quem? Quem faz ou quem fala de quem faz?  A distinção é sutil, mas muito charlatanismo pega carona nisto e Mandel colocou a cereja no bolo dos arrivistas. Do lado leninista, no entanto, Lambert, idoso, insistia que deveriam ser ouvidos os jovens negros do Rio de Janeiro e mais jovem também tinha previsto um reencontro entre trotskistas e setores saídos da crise do aparelho stalinista. 


De forma que não é dificil apoiar o relançamento em papel de um jornal leninista que carrega uma história de erros e acertos de um período histórico, ainda mais quando o projeto está sendo desenvolvido por jovens proletários militantes do PT do Rio de Janeiro. Somos, além do mais, testemunhas que estes jovens tem dado a cara a tapa lutando para que o PT organize sua base social em núcleos para diputar o poder nos territórios. E com base neste programa tem feito suas alianças internas. Não estivessemos, talvez, sob aprofundamento do Golpe, se em 2016 tivessemos um PT com núcleos enraízados para dizer em todos os cantos deste país que ninguém tiraria a presidência do PT. Somente com a base social – que precisa do PT no governo – organizada é que dizer  “não vai ter golpe” não seria uma bravata. Os burocratas, por sua vez, acreditavam que podiam esperar 2018, assim como acham hoje que podem esperar 2022. 


Os militantes do Voz Operária apoiaram a volta de Dilma como o significado possível de dizer “não vai ter golpe” antes do golpe e não virar um charlatão depois dele. Até hoje apoiam a anulação do Impeachment como uma possível solução que poderia ser usada para o PT voltar ao poder se o partido decidisse não esperar 2022. Mas ao contrário do povo pobre, a burocracia pode esperar e tem os meios de criar os ritos que disciplinam o partido. Se fosse perguntar a cada filiado do PT se acha que o partido deveria  lutar para voltar ao governo e tratar ele mesmo, no governo, da crise deflagrada pelo Covid 19, não temos dúvida da resposta. Mas quando as condições de democracia interna não são atendidas, o poder não é exercido de fato com as posições da maioria numérica. Esta possibilidade de que uma minoria numérica exerça a maioria política é o que conforma a opressão política no capitalismo e é exercida geralmente através de poder econômico, métodos burocráticos e perseguição, e isso vale tanto para dentro quanto para fora do partido. De forma, que a romantização de que ser bom militante é levar muita pancada sem reclamar e nem se defender coletivamente é a importação da ideologia do abuso para dentro da classe que precisa se livrar dele. E foi abuso tirarem a presidência de Dilma.

Não são questões fáceis. Mas, não temos dúvida que o PT brasileiro e seus anos de governo são tão importantes para a classe trabalhadora internacional quanto os eventos em torno da revolução Russa e o mesmo acontece em todas as situações em que se coloca o problema do poder pelo partido das classes não proprietárias. Avançando a reflexão, não localizamos nenhuma razão objetiva para que existam vários partidos da classe trabalhadora disputando o poder. Tanto no Brasil quanto em qualquer outro lugar do mundo, basta um, porque nossa unidade e tamanho é nossa força. E ele nem precisa ser revolucionário, basta ser democrático o suficiente para representar efetivamente o conjunto das classes não proprietárias e suas componentes, o que implica que seus filiados possam falar por si mesmos sem serem tratados como garrafinhas em processos copiados das eleições capitalistas. Afinal, se a maioria não consegue ter força política para democratizar este partido como conseguirá construir uma sociedade na qual democracia seja mais que um rito? O exemplo do assassinato de Marielle que completou mais um aniversário neste sábado está aí. De que adiantou a Marielle estar em outro partido que não o PT? Os assassinos de Marielle foram empoderados pelo voto de Bolsonaro no impeachment de Dilma. Ser do PSOL não a tornou diferente diante da repressão mas a impediu, por exemplo, de lutar para desfazer o golpe e pela volta da Dilma antes de ser morta. No fim das contas para que servem críticas, divergências e depurações que fazem as gentes apanharem igualmente e se defenderem separadas? Porque não coube Marielle no PT? 

A polêmica inútil, recentemente, foi reacesa entre Trotskistas e Stalinistas na recente guerra de memes entre Trots e Tankies. Sobre isso, um ressurgimento stalinista na juventude diz mais a respeito do fato de qua a maioria dos auto-intitulados trotskistas da atualidade abandonaram a luta contra o Império do que sobre as qualidades de Stalin. Como não desprezar quinta-colunas?

O problema de difícil solução para qualquer comunista é que o caminho para a república mundial dos sovietes não esta pavimentado nem pelo stalinismo nem por nenhuma outra formação internacional.  E isso implica que a crise de direção não encontrou ainda uma solução concreta. Lambert preferia  (e nós também) ouvir os jovens negros do Rio de Janeiro a ouvir burocratas, mas nem mesmo sua organização escapou de fazer o debate a partir das necessidades do aparelho e não da base que precisa de unidade internacional. Este fenômeno, sim, poderia se chamar “dialética das conquistas parciais”, expressão correta para explicar sobre o que se dá a polarização no interior da classe, e não aquilo que Mandel explica. Acontece que este problema é extremamente sério e não pode ser resolvido por movimentos sociais e intelectuais, pois ele só se coloca a partir da decisão de disputa de poder político contra as classes proprietárias.

Aquilo de que cirandeiros acusam o PT, querer o poder, é o seu maior valor. Deveria lutar muito mais poder diante da classe inimiga. E, justiça seja feita, ao contrário de muitos partidos da II Internacional, o PT não saiu da presidência da república pela vontade popular. O partido tem base popular que sabe, a partir do seu dia-a-dia, que as condições de sua existência individual e coletiva se deterioraram muito após o golpe e, por isso, espera ver um partido decidido a governar, retomando o mandato que o povo lhe conferiu e que o golpe e seu aprofundamento na prisão de Lula interromperam.

Uma imprensa que ajude a organizar os núcleos de base do PT do Rio como resposta organizativa local ao golpe, no coração do bolsonarismo, é mais do que necessária. Nosso sincero desejo é que os jovens militantes que se deram a missão de relançar o Voz Operária em papel venham a cometer muitos erros neste caminho, porque só quem faz pode errar ou acertar, mas que a discussão política entre aqueles e aquelas que pisam o mesmo chão, tornem todos os erros fonte de aprendizado preciosos na lida com problemas concretos da maioria a partir dos lugares onde eles acontecem.

Obs.: As colunas não representam necessariamente os posicionamentos políticos do Editorial do Jornal Voz Operária. O Jornal está aberto as manifestações sinceras dos revolucionários no Brasil. Entre em contato para abrir uma coluna.

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