Feminismo marxista, quarentena e violência de gênero no Rio de Janeiro – Coluna

por Christina Iuppen

Querida, o branco manda em tudo desde que eu me entendo por gente. (Talvez o homem negro esteja no poder em algum lugar além do oceano, mas só sabemos o que vemos). Por isto o branco larga a carga e manda o crioulo pegar. Ele pega, porque tem que pegar, mas num carrega. Dá trás mulher dele. As crioula é as mula do mundo até onde eu sei.

Zora Neale Hourston, Seus olhos viam Deus, pág. 31*

Em meados deste março de 2020, grande parte da população do Rio de Janeiro, a exemplo do país e de considerável parcela do planeta, começou a vivenciar uma nova forma de restrição social: o recolhimento a seus lares. 

Não entraremos aqui no mérito de que, como disse o poeta, nem toda casa é exatamente um lar. Contudo, chamou a atenção o crescimento exponencial de 50% de aumento dos registros de violência familiar e doméstica contra a mulher apenas nestes poucos dias de convívio compulsório dos núcleos familiares. De todas as ocorrências atendidas pelo Plantão Judiciário, consta que 70% foram denúncias de alguma forma de agressão machista.

Esses números, por mais generalizados, revestem-se de especial significado, não apenas para as mulheres, senão para o conjunto da militância marxista.  Isto porque estamos entrando em contato, no Brasil e nos países irmãos da América Latina, com discussões e estudos múltiplos sobre uma história que tem estado oculta, mascarada ou silenciada através dos últimos séculos ou, a rigor, desde a Idade Média, quando se dá o princípio da transição da acumulação primitiva de capital para o capitalismo. A história da mulher afeta definitivamente o nascedouro do próprio sistema de exploração do ser humano pelo ser humano. 

Dizia Lênin, em sua conhecida audácia e lucidez, que era necessário ao ser humano desfrutar de condições plenamente dignas de sobrevivência para que se dedicasse “às coisas do espírito”. Sob esse foco, analisemos hoje, sob as atuais condições de uma inesperada pandemia e consequente quarentena, seres humanos submetidos aos salários miseráveis que se praticam no Brasil e, pior, faltando a muitos sequer essa iniquidade mensal segura, precariamente substituída pela informalidade; filhos das mesmas condições inumanas que afetam gerações e gerações de trabalhadores; criados sob as mesmas carências e inversões de valores; vivendo sob toda sorte de bombardeios e distorções midiáticos e religiosos; ameaçados de morte, de um lado, por um novo vírus sobre o qual têm pouco ou nenhum controle e, de outro, pela fome e impossibilidade de trabalho imposta pela ordem governamental de isolamento. Consideremos esses indivíduos confinados em espaços mínimos, predominantemente carentes de serviços e confortos básicos, vetadas suas criativas saídas de fantasia e lazer, impiedosamente a braços apenas com suas carências e frustrações. Consideremos no mesmo espaço um ser – ou vários – que o mesmo capitalismo genocida historicamente satanizou por sua conveniência: a mulher. Consideremos que até essa mulher historicamente satanizada não tenha tido acesso jamais à consciência de seus próprios direitos e valores. Teremos aí o caldo inexorável da violência, a que chamamos ‘de gênero’, porque o é, mas que precisamos aprender a ver e combater também como violência do sistema.

Porque é o capitalismo que cria e é ao capitalismo que interessa a divisão da classe trabalhadora por gênero binário – ‘homem e mulher’ -, destinando às mulheres o papel de reprodução do trabalho, quer através da geração de novos braços para exploração de trabalho quer pela atividade não-remunerada e artificialmente subestimada em termos sociais, políticos, religiosos e humanos. Numa palavra, embora caiba à mulher papel preponderante na reprodução da força de trabalho – porque é ela que não apenas pare como cuida, mantém vivo, alimentado, limpo e saudável o trabalhador assim reconhecido – esse papel foi convenientemente ocultado, tergiversado e criminosamente distorcido pelos senhores do capital – aí incluídos os grandes detentores das riquezas acumuladas pela Igreja – com o propósito inegável de aprofundar a exploração, contando com a valiosa colaboração da outra parcela explorada: o trabalhador de ‘sexo masculino’.

Remonta a algumas centenas de anos não apenas essa divisão qualitativamente arbitrária da força de trabalho como suas causas, instrumentos e métodos. Temos a intenção e o compromisso de trazer essa discussão seguidamente onde nos seja dada voz.

Segundo Patrícia Collins, “como objetos desumanizados, as mulas são máquinas vivas e podem ser tratadas como parte da paisagem”. As análises inspiradas no  feminismo negro, de que Collins é expoente, acerca do trabalho remunerado e não remunerado “proporcionam uma melhor apreciação da complexa e poderosa interação que dá forma à posição das mulheres negras como ‘mulas do mundo’. E também podem lançar luz sobre as conexões entre trabalho e família”. E sobre a violência machista, acrescentamos nós.

Por tudo isso, a conscientização e combate a todo desvio machista, em especial a violência de gênero, concreta ou simbólica, consistem tarefa irrenunciável para todo aquele e toda aquela que se haja proposto combater o sistema iníquo do capitalismo.

As reivindicações das trabalhadoras negras por condições de assistência do sistema a seus filhos evoluíram para a sistematização do feminismo negro. Bebendo solidariamente nessa fonte e estendendo o olhar para muito aquém na História, estudiosas como Federici, Davies, Daly, Ehrenreich e outras derivaram o que entendemos hoje como feminismo marxista.

O feminismo marxista, que vem tomando crescente espaço no discurso militante e acadêmico neste início de milênio, precisa ser conscientizado, incorporado e trabalhado pelo conjunto de todos os militantes, em especial os que proclamam opção pelo marxismo como ferramenta de análise e atuação. Mas será necessariamente da mulher, secularmente vendada e amordaçada, a mão que costurará e erguerá essa bandeira, e será feminina a voz que clamará por suas novas consignas.  

……………*Do original, citado por Collins em O pensamento feminista negro.

Obs.: As colunas não representam necessariamente os posicionamentos políticos do Editorial do Jornal Voz Operária. O Jornal está aberto as manifestações sinceras dos revolucionários no Brasil. Entre em contato para abrir uma coluna.

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