Um exemplo para o Mundo: União Africana freia a pandemia do coronavírus

Quando esse artigo foi fechado, hoje (dia 3 de abril), nenhum país africano está entre os 30 países mais afetados pelo novo coronavírus no mundo. A África se beneficiou da chegada lenta do vírus no continente, que deu a seus 54 países uma oportunidade única de estabelecer os sistemas de saúde pública para análise e tratamento do covid-19.

RESPOSTA RÁPIDA DA UNIÃO AFRICANA PRESERVA VIDAS

Em 2 de abril de 2020, os números registrados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) naqueles 206 países ou territórios afetados pelo COVID-19 totalizavam 972.640 casos confirmados, entre os quais 53 mil falecidos. No mundo, o crescimento da doença é vertiginoso. Se compararmos os dados registrados até o dia 19 de janeiro na África, o número de casos confirmados não passava de 80.

Os dados atualizados no continente africano são os seguintes: 6561 casos confirmados e 276 mortes (dados de 3 de abril, OMS).

Fonte OMS: Casos confirmados – mortes

Há algumas especulações de observadores internacionais que afirmam que tais números relativamente baixos de casos da COVID-19 na África poderiam ser simplesmente resultado de sistemas de relatórios ruins e baixas taxas de análise. Pelo contrário; de acordo com a Central de Diagnósticos, Controle e Prevenção da África –CDC-, essas centrais de diagnósticos existem em cada país africano e mantêm contato permanente com todos os países afetados. A CDC mobiliza apoio laboratorial, vigilância e outros tipos de resposta quando solicitado. Hoje, 33 dos 47 países da África Subsaariana têm instalações de teste e provas para a COVID-19.

O mais certo é que o número relativamente baixo dos casos está relacionada à resposta imediata da União Africana. No início da pandemia, em fevereiro, os ministros da Saúde dos países membros da União Africana se reuniram para coordenar uma estratégia continental conjunta e orientações para avaliação, restrições de movimento e monitoramento de pessoas em risco.

Por exemplo, a União Africana definiu realizar exercícios de simulação em 10 países da África Ocidental, em associação com a OMS. Além disso, estão sendo feitos esforços para adquirir estoques de equipamentos médicos de emergência, incluindo diagnósticos (mais de 6.000 kits de teste), scanners térmicos e outros equipamentos que podem ser usados para equipar rapidamente os países. As informações para relatar atividades de resposta e controle são realizadas em 28 laboratórios africanos.

POR QUE A ÁFRICA CONSEGUIU ATRASAR A CHEGADA DA COVID-19

Apesar das fortes relações diplomáticas e comerciais entre China e o continente africano, que facilita o fluxo de pessoas, a pandemia chegou tarde à África. Hoje, a China é a maior parceira comercial da África. Existem cerca de 10 mil empresas chinesas operando em todo o continente; quase 2 milhões de chineses vivem lá, enquanto muitos africanos também visitam a China constantemente.

A pandemia na África tem baixo crescimento porque houve resposta imediata e coordenada da União Africana. Fato que ressalta a importância de fortalecer mecanismos multilaterais, tais como a Unasul que foi desmembrada pelos governos golpistas no nosso continente.

Além do que se listou anteriormente, em meados de fevereiro a África passou de 2 para 16 os laboratórios que poderiam diagnosticar o novo coronavírus em menos de duas semanas. Além disso, os passageiros vindos da China e outros países asiáticos, da Europa e Estados Unidos são submetidos imediatamente a quarentena.

No início da pandemia, chegou-se a especular em alguns meios de comunicação ocidentais, que o clima quente e úmido do continente africano era inóspito para o coronavírus. Porém essa hipótese foi descartada e a ciência provou que não há relação. Muitas cidades na África são superpovoadas como, por exemplo, Joanesburgo e Adisburgo, que possuem cerca de 8 milhões de habitantes cada e têm dois grandes aeroportos internacionais, além de uma população significativa vivendo em favelas; mas mantiveram índices de contaminação pelo coronavírus relativamente controlados. Porém outras regiões na Argélia e Marrocos mostraram o fator inverso e registram elevadas taxas de contaminação.

Nos últimos anos, a União Africana tornou-se experimentada no controle de epidemias. Os países já enfrentaram o surto de ebola e criaram instalações de isolamento e experiência no controle de doenças infecciosas, mesmo quando se trata de detecção. Além disso, na África há 7 milhões de pessoas diagnosticada com HIV, fator que aumenta a população de risco, pois a doença enfraquece o sistema imunológico. Esta é uma situação capaz de deixar muitas pessoas potencialmente mais vulnerável ao COVID-19.

Além do mais, os países criaram parcerias com Cuba, referência mundial na saúde, que enviou mais de 460 médicos e enfermeiros para a Guiné-Equatorial, Libéria e Serra Leoa, sob a direção da OMS. Graças à medicina preventiva realizada por Cuba e os governos locais, Serra Leoa apresentou apenas dois casos e nenhuma morte até o momento.

Nenhuma organização filantrópica ou grupo de empresários consegue dar respostas para pandemias. Foram novamente recursos públicos, coordenação e cooperação estratégica entre os governos africanos que mantiveram os números da pandemia relativamente baixos. Isto prova, mais uma vez, que o neoliberalismo não serve para coisa alguma de decente no que tange aos interesses legítimos dos povos.

Felizmente, a União Africana fez o COVID-19 chegar atrasado à África, e seus países adotaram medidas de alerta e emergência que fornecem isolamento social para todos.

UNIÃO EUROPEIA EM DESINTEGRAÇÃO PREFERIU PRESERVAR SUA ECONOMIA DECADENTE

Apesar de dispor de muito mais recursos que a União Africana, na “toda poderosa” União Europeia, cada país atua por si; os países do norte abandonaram os países do sul. Itália, Espanha, Portugal, Grécia e países dos Balcãs estão sofrendo com a explosão de casos e sistemas de saúde e funerário em colapso. Enquanto isto, na zona do euro os governos privilegiam a decadente economia capitalista em detrimento da vida.

O bloco europeu está em desintegração, porque não consegue realizar uma articulação para conter a epidemia. O orçamento aprovado no parlamento europeu foi para salvar o mercado financeiro e foi pífio o investimento nos sistemas de saúde desses países.

O Primeiro-Ministro Boris Johnson, no Reino Unido, adotou o isolamento vertical que mantém confinado apenas idosos e pessoas com doenças prévias. Esta medida se provou ineficaz. Na Holanda, o Primeiro-Ministro Mark Rutte quis promover a “imunidade coletiva”, rejeitando as recomendações da OMS. Segundo ele: “é preciso que um número máximo de pessoas desenvolva naturalmente anticorpos para o Covid-19”. O Presidente da França, Emmanuel Macron, e o Primeiro-Ministro de Portugal, António Costa,  defendiam que crianças fossem expostas ao vírus. Na Itália, o prefeito da cidade de Milão, Giuseppe Sala impulsionou a campanha “Milão não para”. Em 26/03 a cidade registrou 35 mil contágios e 4.816 mortes.

O Presidente sérvio, Aleksandar Vucic, no dia 15 de março declarou o estado de emergência. Afirmou que “a solidariedade europeia não existe” e “é um conto de fadas”. No pronunciamento, acusou a União Europeia (UE) de abandonar o país ao privá-lo de equipamentos de proteção, porque a Comissão Europeia anunciou restrições às exportações de material médico de proteção, como máscaras, a fim de garantir as suas próprias necessidades. O sérvio aproveitou para agradecer à China pela ajuda no combate ao novo coronavírus. E acrescentou que “não há outra solução a não ser contar com ‘os irmãos chineses’ “. A Embaixadora chinesa em Belgrado, Chen Bo, anunciou a chegada ao país de equipamentos de prevenção além da presença de especialistas chineses que farão 7.000 testes diários. No momento, a Sérvia registrou 1.000 pessoas infectadas e contabilizou pelo menos 20 óbitos.

SE TIVÉSSEMOS UMA UNASUR ATIVA PODERÍAMOS TER ATRASADO A PANDEMIA NA AMÉRICA DO SUL

Após a fase de golpes de Estado imperialistas pelo continente, as ditaduras militares de fato, implementadas a partir desses recentes golpes, resolveram desintegrar os mecanismos de cooperação no continente, tais como UNASUL e MERCOSUL, privilegiando os fóruns submissos ao controle do imperialismo norte-americano, como OEA e TIAR.

O objetivo único desses países era instigar o conflito na Venezuela e cercar os governos nacionalistas de Cuba, Nicarágua e Venezuela. Graças à cooperação entre as ditaduras, conseguiram golpear o governo de Evo Morales, implementando uma ditadura militar.

Essa política está gerando seus reflexos, entre eles a falta hoje de instrumentos de prevenção, controle, cooperação e monitoramento da expansão da COVID na América do Sul.

A incapacidade das ditaduras aglutinadas no Cartel de Lima e na acéfala PROSUL de dar respostas à pandemia é evidente. O governo do traidor Lênin Moreno, simplesmente desapareceu, enquanto corpos de vítimas do coronavírus empilham-se nas ruas do Equador. No Chile, o ditador Piñera voltou-se para resolver seus negócios e deixou o povo entregue à própria sorte. Na Colômbia a situação é alarmante, o que resultaria na condenação dos chefes de Estado daquele país em qualquer tribunal internacional, por crimes contra humanidade. E no Brasil, a máfia que assaltou o Palácio do Planalto prefere garantir o lucro dos bancos e dá uma única opção para o povo: “trabalhe e morra de COVID”

Não podemos esperar um despertar de consciência humanista nos psicopatas   treinados nos EUA para matar seus próprio povo, como é o caso dos generais que se adonaram do poder no Brasil. Fica mais uma vez provada a eficácia de instrumentos multilaterais independentes, como era o caso da UNASUL, que em diversos momentos atuou para encontrar e coordenar respostas dos países da América do Sul, quando tínhamos governos progressistas e nacionalistas. Portanto, a resposta dessa situação dramática que vivemos não se dará de outra forma que não seja no contragolpe, não só para recuperar o governo que aplique medidas de proteção do povo, como rearticule os países da América do Sul para dar respostas conjuntas.

Em um conjuntura de guerra, pandemia e crise internacional, não haverá saídas individuais: ou os países da América Latina dão respostas coletivas ou não haverá soluções para conter a doença e preservar vidas.

2 comentários

  1. Obrigado pela atenção ao continente africano, incomum na mídia hegemônica, e mesmo entre setores progressistas.
    E mais ainda pela qualidade da informação, com visão comparativa e crítica
    em relação ao papel da UNIÃO AFRICANA, e ao desmantelamento da UNASUL.

    Curtido por 1 pessoa

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