O futebol brasileiro por detrás das telas – Coluna

Por Gabriel Araújo

De acordo com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em dados divulgados em 2016 pela sua Diretoria de Registro e Transferência (DRT), existiam naquele momento no país 28.000 mil atletas registrados com contrato profissional em todo país. Desses 28.000 registrados, 23.238 mil recebiam salários até R$1.000,00. Ou seja, 82,40% do total de jogadores registrados no país recebiam valores equivalentes a um salário mínimo. E 13,68%, o equivalente a 3.859 atletas, recebem entre R$1.000,00 e R$5.000,00.

Segundo outro dado advindo do Ministério Público do Trabalho (MPT) do mesmo ano dos dados mencionados acima, divulgado pelo jornal burguês Folha de São Paulo, 1% dos atletas recebem valores equivalentes aos rendimentos de 78% dos jogadores registrados.

Os dois levantamentos mostram um grande vão em relação ao não registro desses trabalhadores, pois se a CBF em época dizia que haviam 28.000 mil atletas por um lado, o MPT constatou que haviam apenas 12.880. Revelando uma séria fragilidade no registro desses atletas, o que reforça a tese de que essa, assim como a grande maioria das profissões no Brasil, se encontra em circunstâncias de enorme vulnerabilidade por parte do trabalhador que a exerce.

Os juízes e auxiliares como é de conhecimento geral não possuem vinculo empregatício com as Federações e a CBF. Foram reconhecidos pela Presidenta Dilma como profissionais, porém a regulação os colocam em condições de autônomos, permitindo uma relação de trabalho onde a fragilidade e a desestabilidade são as regras. Portanto, a equipe de arbitragem recebe apenas por jogos trabalhados. 

Com a chegada da pandemia causada pelo Coronavírus aqui no Brasil, todas as atividades esportivas do país foram suspensas, assim como de eventos no âmbito internacional. O que por sua vez demonstra que o papo furado de Bolsonaro de que os atletas estão protegidos do vírus, é mera jogada retórica para salvar a extração de mais-valia dos trabalhadores. Já que, como mencionamos, os próprios atletas estão paralisando sua atividade laboral.

Tudo isso tem tido enormes impactos no mundo da bola, principalmente para os clubes brasileiros, que assim como toda sociedade brasileira, vem sendo expropriados pelos grandes monopólios bancários e atualmente vem tendo quedas de arrecadação com a ruptura com alguns patrocinadores (grandes monopólios capitalistas). Porém, os clubes e seus dirigentes, com suas mentalidades e práticas patronais, tem efetivado na prática a agenda político-econômica burguesa de retirar os déficits causados pela crise sanitária e econômica, do lombo dos trabalhadores que nada tem a ver com a derrocada de ambas. Pois afinal, quem poderia prevenir é quem as planeja, e esse poder a classe trabalhadora e os atletas não possuem.

Recentemente a Comissão Nacional de Clubes (CNC) que é o órgão da CBF responsável por representar os clubes das séries A, B, C e D, fez uma proposta para a Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf). A proposta era de redução salarial em 50% se os efeitos da pandemia perdurar por 30 dias e suspensão do contrato caso dure por mais de 60 dias (algo que está nítido que acontecerá). Com a recusa por parte da Fenapaf, realizaram outra proposta para a redução no valor de 25%. Até o presente momento, apenas os atletas do Grêmio aceitaram ter seus salários reduzidos.

Apesar de em um primeiro momento a ruptura contratual e redução dos rendimentos afetar apenas os jogadores que recebem acima de R$51.000,00, com o agravamento da situação, certamente medidas iguais chegariam para os que recebem salários inferiores. Afinal, tal medida foi prevista em lei (MP 927), provida pelo governo dos patrões e dos militares, com a permissão de que os patrões pudessem ficar 4 meses sem ter de pagar os salários dos trabalhadores. E essa medida e esse instrumento legal, se não tivesse sido derrubada, certamente seria utilizados pelos clubes.

Eles também estão ansiosos para a tramitação do PL 699/2020, que conforme foi constatada em artigo publicado pelo jornal Voz Operária, essa alteração na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) permite a renegociação da jornada de trabalho e os salários durante períodos emergências de saúde pública, calamidade pública e desastres naturais.

Enquanto os representantes políticos dos patrões preparam todo esse pacote de maldades contra a classe trabalhadora, quando se trata do patronato o trato dado é outro. A benevolência é tamanha, que em meio ao caos no país, tiveram a pachorra de entregar mais de R$1,3 trilhões para o capital financeiro e sequer tocam na necessidade de cobrar imediatamente os grandes monopólios que devem R$426 bilhões para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Outro órgão da CBF que se destaca na situação por ter abandonado a própria sorte os profissionais das equipes de arbitragem, é Comissão de Arbitragem. Nenhuma declaração a respeito da situação de árbitros e auxiliares foi dada. Essa tendência é seguida pelas Federações Estaduais. De acordo com matéria do Portal R7 que pertence ao monopólio de comunicação Rede Record e a Igreja Universal, feita por Cosme Rímoli, apenas o Sindicato dos Árbitros de Futebol de São Paulo procurou a Federação Paulista de Futebol (FPF) e não obteve resposta. Não há também posicionamento público por parte da Associação Nacional dos Árbitros de Futebol (ANAF).

Observando a situação relatada acima, os jogadores, árbitros, auxiliares de arbitragem e demais funcionários dos clubes de futebol do país, devem se somar nas fileiras da classe trabalhadora e tem de se unir com as torcidas organizadas para que não seja permitida a retirada de direitos conquistados, as demissões em massa, a ditadura e a censura nas arquibancadas, e a subserviência total dos clubes aos patrocinadores, aos monopólios de comunicação, ao governo fascista e aos bancos. Nesse sentido, se faz necessária a radicalização da urgente democratização dos clubes passando o controle dos mesmos para as Torcidas Organizadas (ou seja, para a classe operária), para derrubar a proposta de transformar os clubes em Sociedades Anônimas que visa que os mesmos sejam abocanhados pelos bancos internacionais e grandes clubes do mercado da bola ocidental.

Portanto, a vitória dos trabalhadores do futebol perpassa fundamentalmente pela necessidade de vitória de um futebol voltado para os interesses políticos, econômicos, culturais e sociais da classe trabalhadora brasileira em seu conjunto. Sendo assim, o futebol popular e o fim dos abusos dos dirigentes dos clubes, só pode ser efetivado através da queda do governo fascista que é um dos grandes fiadores do processo de deterioração do futebol brasileiro.

Obs.: As colunas não representam necessariamente os posicionamentos políticos do Editorial do Jornal Voz Operária. O Jornal está aberto as manifestações sinceras dos revolucionários no Brasil. Entre em contato para abrir uma coluna.

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