Ditadura militar impulsiona poder das milícias por todo Brasil

Após usurpar a presidência da República, as autoridades registraram que às Milícias estão em plena expansão e organizadas em pelo menos 15 estados de norte a sul do Brasil. 

Atividades desse cartel criminoso vão de controle de serviços (água, energia, internet, tv a cabo…) a assassinatos por encomenda, herança dos “esquadrões da morte” no período da ditadura militar. 

O fenômeno das milícias está longe de ser uma exclusividade do Rio de Janeiro. Dados levantados, em 2019, pelo Ministério dos Direitos Humanos (MDH) revelam denúncias de atuação de grupos milicianos em 15 outras unidades da Federação, e estão em plena expansão. Os registros, realizados a partir da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos (Disque 100), expõem uma prática criminosa observada em todas as regiões do país.

Além disso, o MPERJ apresentou um relatório em que apontam 180 localidades controladas pelas narcomilícias, que subjulgam 4 milhões de fluminenses em todo o Estado.

Narcomilicias são o braço paramilitar do Golpe imperialista

As narcomilícias tem como objetivo unir facções criminosas como TCP, PCC à grupos milicianos para conquistar territórios dominados por um inimigo em comum, nesse caso o Comando Vermelho – CV RL. A ação dessas organizações tomam contornos de um cartel criminoso, que conta com a participação de políticos e outros agentes do estado, se articulam de maneira mais complexa, ampliam a rede atacadista em busca de mecanismos sofisticados de lavagem de dinheiro.

Em um exercício de “enxugar” toda a complexidade envolvida no processo, os desdobramentos do golpe de Estado no Brasil podem ser resumidos como um rearranjo das organizações político-sociais da sociedade brasileira. Partindo-se do pressuposto de que não há, na realidade Brasileira, um “estado paralelo” – uma vez que todo poder criminoso no território nacional está associado ao Estado –, não somente os arranjos “oficiais”, mas também os “extraoficiais” são reorganizados. Uma complexa estrutura criminosa, que apenas o Estado é capaz de operar, capaz de envolver os mais variados crimes e culmina com a lavagem de dinheiro no sistema bancário.

A construção do estado de exceção no Brasil acompanha, conforme já exposto repetidamente no editorial Voz Operária, uma série de desdobramentos na segurança pública nacional, que tem ponto alto em torno de dois eventos: a cisão da aliança PCC-CV e a intervenção militar no Rio de Janeiro, ambos durante o governo Temer. Esses dois fatores são os principais responsáveis pela aceleração do rearranjo da segurança pública nacional. Não somente das instituições de segurança do país, como também das organizações ditas como “paralelas” ao Estado. Mais uma vez, é evidente que esses grupos estão ligados à estrutura do Estado, pois não coincidentemente, o estado de exceção promove essa série de eventos em sua ascensão como por exemplo: As forças armadas dão apoio logístico para o transporte de drogas.

Mas é claro que isso tudo não acontece de forma isolada e descontinuada. Na prática, a intervenção militar do RJ serviu para o enfraquecimento da maior facção criminosa do estado, o CV RL. Ao olharmos atentamente os noticiários do ano da intervenção, veremos que a política de segurança pública concentrou esforços em áreas com a presença de traficantes afiliados ao CV, como por exemplo no Complexo do Alemão. De forma ainda mais esdrúxula, acompanhamos naquele ano uma ação da intervenção na Nova Holanda, território com a presença do CV no Complexo da Maré, ignorando a imensa maioria dos territórios restantes da Maré que contam com a presença da maior facção rival no tráfico de drogas, o Terceiro Comando Puro (TCP), facção também conhecida por construir grandes alianças com as milícias cariocas e seus representantes nas polícias, vindo a público na chamada “aliança 5.3”, uma articulação entre milícias como a do Campinho (o “5” aqui é um símbolo miliciano) e setores do TCP (o “3”).

Como já sabemos, não existem coincidências na realidade Brasileira. Este grupo, por sua vez, foi um dos maiores beneficiários do rompimento entre o CV e o PCC, já que a facção paulista, em seu projeto de expansão nacional, não só se operacionaliza em outros estados como também forma alianças com grupos locais, e no caso carioca, especificamente com o TCP.

A facção paulista está a anos associada à estrutura de seu governo local, formado pelo PSDB. Não à toa sua acelerada ascensão no território nacional veio na companhia do governo golpista de Temer, ocupado em grande parte por esse mesmo partido. Da mesma forma, não devemos tratar a ascensão de grupos rivais à maior facção do Estado do Rio, e, por tabela e questão de lógica, favoráveis estratégicos ao PCC, como mera coincidência. Mas então nós nos perguntamos, quem seriam os articuladores desse campo no território do RJ?

O Rio de Janeiro, reduto da família Bolsonaro, é também o berço das milícias. Quando falamos de milicianos, não se trata de mero eufemismo, como alguns campos da esquerda teimam em acreditar, mas de grupos armados que literalmente controlam territórios, favelas e bairros, e lá impõem suas próprias taxas, regras comerciais, “segurança” privada, e, como não poderia deixar de ser, interesses políticos, candidatos e partidos. 

Esses grupos, que normalmente também associam-se a igrejas evangélicas, são agentes diretos e exercem sua influência nas eleições desses territórios apoiados em políticos locais, regionais e também nacionais. A força política do golpismo, no momento do bolsonarismo, não se articula apenas através da virtualidade, mas também desses agentes que reproduzem-se ao longo das periferias urbanas do Rio de Janeiro.

Afirma-se que as milícias são braços armados de poderes locais, uma continuidade política do coronelismo e das políticas de extermínio da ditadura. Ora, é claro que as milícias são associadas a poderes locais e isso é inegável, visto que ela mesma se reproduz na territorialidade, a ocupação do espaço e sua exploração econômica. Mas, ao mesmo tempo, que tipo de força política senão uma maior do que as locais seria capaz de articular diferentes setores, como igrejas e milícias? 

Antes, nos perguntamos que tipo de força política era capaz de articular diferentes setores como os militares, o judiciário, a Rede Globo etc, em torno de um projeto golpista; percebemos que somente uma força política acima da realidade nacional e das divergências entre esses campos poderia articulá-los: o Imperialismo que na sua estratégia de poder, doutrina Monroe, derrubou os governos nacionalistas da América Latina e fez revigorar sua política neoliberal e neocolonial. Da mesma forma, somente um movimento político acima das realidades locais desses grupos seriam capazes de articulá-los, nesse caso, o próprio golpismo no Brasil. E por isso, vemos que o PCC está associado ao TCP, que está associado às milícias, que estão associadas à família Bolsonaro, e vinculados aos militares capazes de traficar drogas, pasmém, usando uma aeronave da FAB a serviço da presidência da República.

O Escritório do Crime, como é conhecido, é uma das facetas dessa articulação. Quase como debochando da nossa cara, o próprio nome deixa claro uma organização criminosa que funciona atrás de uma mesa, e assim articula suas ações. Onde fica a mesa do escritório do crime?

Portanto, quando se fala em milícia, não devemos nos limitar a pensar num oligarca local com seu revólver 38 e seus jagunços urbanos. A própria perseguição às oligarquias locais é uma característica do estado de exceção, da mesma forma como a própria Ditadura Militar o fez com políticos do Rio de Janeiro, como o caso de Carlos Lacerda. Não se trata de olhar para formas estáticas como facções e milícias e suas influências locais, mas de compreender como o estado de exceção articula para a cartelização no Brasil, da mesma forma que aconteceu no caso mexicano a partir da década passada. O que o golpismo quer para o Brasil é transformarmo-nos num Estado sem soberania, onde não só vendem-se petróleo e as nossas demais riquezas nacionais, como também corpos, vidas e quilos de cocaína.

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