A falácia dos supostos militares “moderados” e “democráticos” – Coluna

Por Gabriel Araújo

A esquerda pequeno burguesa se satisfaz apenas com o discurso. Basta que alguém conte uma lorota à ela, que esta toma isto como verdade absoluta. Durante o período de articulação do golpe e da retirada da Presidente Dilma do seu legitimo posto de Comandante em Chefe de nossa pátria, muitos aventaram a possibilidade de existência de um oficialato nacionalista, democrático e moderado. 

Bastou que o então Comandante do Exército, General Eduardo Villas Boas, fosse às mídias sociais e à imprensa, discursar que era defensor da democracia e da constituição, para que o coração da esquerda se confortasse e sua mente se narcotizasse com as declarações dúbias e maleáveis, tipicamente aplicadas para gerar confusão. 

Uma movimentação da cúpula militar muito fácil de ser feita e que dedica muito pouco esforço político. Basta falar a contra-informação e aguardar os resultados.

Os resultados são colhidos até hoje, visto que, por não ter existido uma exótica ocupação do Planalto e da Esplanada dos Ministérios com tanques e tudo mais, há ainda quem levante palavras de ordens tolas como: “Ditadura Nunca Mais!”. Ora, como assim ditadura nunca mais? Algum torturador e assassino da ditadura militar foi penalizado judicialmente? As recomendações do Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade foram postos em prática? O que seria então a presença majoritária do Partido Militar nos postos ministeriais e na Vice-Presidência da República? Para que foi criado o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) e o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP)? Do que se trata, nesse sentido, a alocação de mais de 3.000 militares nos cargos de escalão inferior nos ministérios e demais órgãos do Estado, como as empresas estatais, universidades públicas e a militarização das escolas públicas? O que explica a massiva presença dos militares nas casas legislativas? Porque altos oficiais se encontram como assessores de ministros da suprema corte brasileira? O que motiva a orientação de que os processos contra ações dos militares em operações de intervenção militar sejam julgados exclusivamente pela justiça militar? Seria porque os militares são seres divinos, democráticos e moderados? 

Óbvio que não companheiros! A realidade está escachada em nossa face: os herdeiros dos torturadores e assassinos assaltaram novamente o poder político da nação para si, com claros objetivos de manter as diretrizes políticas entreguistas que foram estabelecidas desde a criação da Escola Superior de Guerra (ESG), inspirada no adestramento feito pela National War College. Delimitando, portanto, como objetivo, a total e completa subserviência aos interesses do Departamento de Estado Norte-Americano e a guerra contra o próprio povo brasileiro, bem como suas organizações e lideranças. 

Essa façanha foi aprofundada com o golpe de 1964 por meio da expulsão, prisão, tortura e assassinato, de inúmeros militares que faziam parte da ala progressista das Forças Armadas. O que então, não deixa margem factual para que esse tipo de ilusão sobre uma suposta existência de alguma ala democrática e moderada nas Forças Armadas, seja fomentada nas fileiras de combate da esquerda brasileira. 

Essa retórica dos militares como moderadores e garantidores da democracia foi novamente apresentada pela imprensa burguesa, alegando que os militares do governo e os comandantes dos três componentes das Forças Armadas, estariam descontentes e destoantes para com as diretrizes de Bolsonaro e as reivindicações de intervenção militar presentes nos atos fascistas convocados durante a pandemia do coronavírus. Mas se há tanto estranhamento e contradição entre Bolsonaro e os militares, porque permitiram que um dos atos ocorressem em frente ao Quartel General do Exército e qual a motivação de uma reunião com todos os ministros militares e comandantes dos componentes das FFAA um dia antes do ato do dia 03/05?

Em entrevista a uma rádio gaucha, sobre as declarações de Bolsonaro alegando que as Forças Armadas estão com ele e que o ajudarão a “cumprir” a constituição doa a quem doer, o General Hamilton Mourão (PRTB) confirmou que de fato existe o apoio “institucional ao Chefe de Estado” e defendeu Bolsonaro na questão da intervenção do STF nas nomeações realizadas pelo governo, além do ato de expulsão dos diplomatas venezuelanos. Sob alegação de que tais ações são de competência do chefe do Executivo Federal.

Nesse sentido, mais uma vez, os generais, que são os verdadeiros chefes do Estado Brasileiro, se valem da retórica dúbia para por panos frios sobre o eminente recrudescimento do aparato estatal e aprofundamento do golpe militar, com o objetivo de manter a esquerda da passividade e despreocupada, já que tudo pode se nos pronunciamentos forem colocadas as palavras-chaves para ludibriar os dirigentes políticos dos trabalhadores.

O Clube Militar, outra instituição controlada pelos golpistas e que foi presidida recentemente pelo General Hamilton Mourão (que deixou como sucessor o General Eduardo José Barbosa), também saiu em defesa de Bolsonaro, manteve sua postura hostil e ameaçadora, que sempre é adotada quando o STF e o Congresso não marcham conforme o bumbo de sua banda militar. 

Um exemplo recente foi a replicação da “Nota a Nação Brasileira” divulgada pelo Presidente de Fato, o Ministro de Estado Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, General Augusto Heleno, no site do Clube Militar. Onde o mesmo faz uma ameaça aberta de golpe contra as instituições do Estado, os trabalhadores e principalmente ao STF. 

A nota foi divulgada após um pedido do Ministro do STF, Celso de Mello, à Procuradoria Geral da União para que o celular de Bolsonaro fosse apreendido e depois de ter divulgado o vídeo da reunião ministerial em que Bolsonaro diz que irá intervir nas investigações da Polícia Federal para jogar para debaixo do tapete as falcatruas de sua família e amigos. O texto na integra diz:

O pedido de apreensão do celular do Presidente da República é inconcebível e, até certo ponto, inacreditável.

Caso se efetivasse, seria uma afronta à autoridade máxima do Poder Executivo e uma interferência inadmissível de outro Poder, na privacidade do Presidente da República e na segurança institucional do país.

O Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República alerta as autoridades constituídas que tal atitude é uma evidente tentativa de comprometer a harmonia entre os poderes e poderá ter consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional.”

Logo, o que se percebe é que os militares tutelam as demais instituições do Estado, bem diferente do que é propagado referente à existência de uma ala moderada e democrata dos militares. 

Enquanto os de cima ficam tendo suas rusguinhas de compadres e entretendo a esquerda com as mesmas, as pautas fundamentais, que são as pautas de destruição das condições materiais de vida da população, de retirada de direitos trabalhistas e de direitos democráticos, continuam sendo tramitadas em todas as instâncias do Estado burguês, seja no legislativo, executivo ou no judiciário. 

Há um consenso e um contrato firmado pelos golpistas, que apenas pode ser colocado abaixo, se os trabalhadores direcionarem suas forças e de suas organizações centrais, para a raiz do problema. Raiz esta que é todo o golpe militar em seu conjunto. Pois será apenas através da rebeldia popular, com os trabalhadores organizados e mobilizados contra o golpe em seu conjunto, em uma ampla luta contra a intervenção imperialista e seus lacaios locais, que poderemos ser vitoriosos nessa campanha pelo restabelecimento da legalidade democrática e a retomada de nossa soberania nacional!

Tenhamos coragem e firmeza companheiros! Não sejamos iludidos com falsos atalhos e alianças fraudes, com quem foi diretamente responsável pelo estabelecimento do que está ai e agora querem se desvencilhar da imagem desgastada/impopular dos ditadores que chefiam o Poder Executivo Federal. 

Os trabalhadores brasileiros que já provaram seu valor e sua abnegação incontáveis vezes, principalmente quando derrubaram a ditadura militar e a ditadura neoliberal do PSDB, colocando posteriormente o primeiro operário e a primeira mulher na história à frente do comando do país. Os trabalhadores já compreenderam a situação e não sucumbirão diante das manobras da burguesia, eles apenas aguardam que sua vanguarda tome uma postura digna de ser chamada como tal e os direcionem para uma vitória definitiva sobre aqueles que nunca deveriam ter saído jamais, do esgoto da história.   

Obs.: As colunas não representam necessariamente os posicionamentos políticos do Editorial do Jornal Voz Operária. O Jornal está aberto as manifestações sinceras dos revolucionários no Brasil. Entre em contato para abrir uma coluna.

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