Cyberativismo: ilusão da militância do Século XXI

Uma ferramenta que reduz distâncias e conecta o mundo inteiro, de caráter plural e democrático, a internet é uma promessa que resultou em uma empolgação por parte daquela geração que a viu dar seus primeiros passos. Vimos, a partir da expansão do seu uso, surgir teses pós-modernas, como a “Sociedade da Informação”, que colocam a informação no centro da sociabilidade contemporânea. Não pretendemos aqui debater as fragilidades desse tipo de caracterização que secundariza o mundo do trabalho, mas discutir os limites dessa tese e suas implicações políticas.

Vendida ao terceiro-mundo como subproduto da globalização, a internet e suas vantagens são tratadas como a causa e a solução para os grandes problemas políticos do século XXI. Um deputado da extrema-direita chegou à presidência? Um partido não consegue dinamizar sua comunicação para com seus filiados e a sociedade? A resposta é sempre uma: a internet. Nada que um canal no YouTube, grupos inchados no facebook, listas de transmissão no WhatsApp, robôs no twitter e patrocínio no instagram não resolvam. A receita para o sucesso (e para o fracasso) passa pela internet. Mas o quão verdadeiro é isso? Para começar a compreender seus limites e implicações, precisamos verificar as premissas:

i. A Internet conecta o mundo inteiro:

O primeiro grande problema de se apoiar em teses europeias e estadunidenses para compreender o mundo é que, como indica o enunciado, essas teses são europeias e estadunidenses. Ou seja, insuficientes para a grandeza e complexidade do mundo. O segundo grande problema é deixar de lado a escala de desenvolvimento imposto pela ordem imperialista, até então inacessível ao terceiro mundo. Para verificar esses limites, podemos fazer uma consulta ao IBGE: segundo a PNAD Contínua 2018, 79,1% dos domicílios brasileiros tinham acesso à internet de qualquer tipo. Nas regiões urbanas, esse número é de 83,8% e, nas áreas rurais, 49,2%. O celular representa o dispositivo mais utilizado nos domicílios brasileiros para se acessar a internet em 2018 (99,2%). O uso de microcomputadores registrou queda de cerca de 22% entre 2016 e 2018 (2016 – 63,7%, 2017 – 43,4% e 2018 – 41,7%). O número de domicílios onde havia tablet também reduziu entre 2016 e 2018 (2016 – 15,5%, 2017 – 13,8% e 2018 – 12,5%). O número dos domicílios que tem acesso à internet e só a acessam pelo celular era de 38,6% em 2016, subiu para 43,3% em 2017 e fechou 2018 com 45,5%. O número dos domicílios que tem acesso à internet e o microcomputador era utilizado para esse fim caiu de 57,8% em 2016 para 52,4% em 2017, e fechou 2018 com 48,1%. O rendimento médio, em 2018, daqueles domicílios em que havia uso de internet foi de R$1.769, contra R$940 daqueles onde não havia acesso à internet. Daqueles que declararam não fazer uso da internet em função do alto custo do serviço (25,4%), o rendimento médio foi de R$591.

O cenário é mais desolador quando analisado o acesso à banda larga: de 2016 para 2017, nos domicílios nos quais havia utilização da Internet, o percentual dos que usavam banda larga móvel (3G ou 4G) passou de 77,3% para 78,5%, fechando 2018 com 80,2%. Aqueles que utilizavam a banda larga fixa, de 71,4% (2016) para 73,5% (2017) e então 75,9% (2018, onde 77,2% nas regiões urbanas e 61,2% rurais). O rendimento médio daqueles que dispunham somente de conexão banda larga móvel era de R$982, enquanto aqueles que dispunham somente banda larga fixa foi de R$1321. Os domicílios com os dois tipos de banda larga (móvel e fixa) tinham rendimento de R$2261. O número de pessoas com mais de 10 anos de idade que utilizaram a internet nos últimos três meses (4º trimestre de 2018) foi de 74,7%, sendo que em áreas urbanas o número sobe para 79,4% e, em áreas rurais, cai para 46,5%. Quanto o vínculo empregatício, somente 77,6% dos trabalhadores do setor privado sem carteira assinada acessaram alguma vez a internet no período de referência (4º trimestre de 2018).

Verificamos que 25,3% dos domicílios permanentes brasileiros não têm acesso à internet de nenhuma forma. Isso significa que um a cada quatro domicílios estão completamente fora da “sociedade da informação”. A PNAD contínua, no entanto, não define critérios para determinar a qualidade do acesso, como velocidade de conexão, velocidade de processamento, tamanho de tela e tamanho de armazenamento de dados. Pela PNAD Contínua podemos verificar também que há uma relação óbvia entre o rendimento médio e o uso da internet, visto que pessoas com rendimento próximo a um salário mínimo tinham acesso somente à internet móvel.

Não foram encontrados dados conclusivos que relacionem o número de celulares vendidos no Brasil por rendimento médio. Mas, apesar das maravilhosas condições de crédito, é inconcebível que uma massa de brasileiros que recebeu até um salário mínimo tenham condições de arcar com celular que superem sua renda mensal. Segundo uma professora de um curso semipresencial do Instituto Nacional de Educação de Surdos – INES, o acesso à plataforma indicada pela instituição não é possível para ela, uma vez que o equipamento, um LG simples, é insuficiente. Alunos do INES estão com atividades adaptadas para material impresso uma vez que o único acesso era no prédio da instituição, nos computadores da faculdade. O que a instituição faz é uma espécie de “EaD praticamente presencial”, já que os mais pobres vão à faculdade para utilizar os computadores. Somente quem consegue fazer as atividades à distância são os alunos de classe média.

Seria ingenuidade crer que um peão, após uma jornada de trabalho, vá assistir a alguma live desinteressante a partir de seu galaxy pocket. Com isso, passamos à segunda premissa:

ii. A certeza de que seu conteúdo chegará a todos:

Como demonstrado acima, há um limite de ordem material quanto o acesso à internet. Um limite que impede que pessoas busquem seu conteúdo. Mas, e quanto àqueles que a acessam? Para isso, precisamos considerar os algoritmos em redes sociais e mecanismos de busca.

Como funciona um algoritmo? Em geral, o algoritmo pode ser explicado como uma espécie de robô que tem por função ranquear o conteúdo por ordem de relevância, a fim de melhorar a experiência do usuário. É assim em mecanismos de busca, como Google. Em redes sociais, os algoritmos trabalham de forma parecida, mas o critério não é a relevância para o usuário, mas o grau de engajamento de uma página ou publicação. Ou seja, as postagens as quais o usuário terá acesso prioritário são as daquelas páginas ou pessoas que ele (ou seus contatos associados) mais interagem. Portanto, as redes sociais são projetadas para que se formem as chamadas “bolhas”.

Com toda certeza o leitor já ouviu, em algum momento, alguma figura influente falando que devemos “furar a bolha”. De fato, há uma apatia geral da esquerda, que não consegue sair dos seus guetos políticos e participar do processo cultural junto ao povo. Mas isso não se traduz por uma campanha melhor coordenada no ciberespaço, muito pelo contrário. A ideia de ampliar sua atuação não deve jamais estar limitada a um espaço virtual — projetado para te isolar. Chega a ser ridículo pensar que “furaremos a bolha” se “todos compartilharem e curtirem” a publicação do fulano x ou y. Esse tipo de ação consegue, no máximo, chamar a atenção dos algoritmos para que essa bolha fique ainda mais intransponível, mais sectária.

Os algoritmos de redes sociais estão cada vez mais aprimorados. Avaliam comportamento, a correspondência do usuários com seus contatos associados, grupos, fanpages, tendências, idade e, o principal, afinidade. Jovens usuários do Twitter, universitários brancos de classe média na faixa dos 20 e poucos anos, ficavam embasbacados e incrédulos quando, em 2018, Ciro Gomes mostrava um péssimo desempenho nas pesquisas eleitorais. Eram surpreendidos por olharem em volta e verem todos “ciristas”, como se não houvesse uma ampla maioria outra no universo. Esse ciberespaço sectário, exclusivo, estranho e alheio ao resto do mundo, é a tal da bolha intransponível, criada não pela vontade dos jovens antipetistas — mas pelo algoritmo daquela plataforma.

Outro elemento a ser considerado é que, para tentar expandir, há a possibilidade de propaganda paga. Com ela é possível selecionar o público que você deseja vincular sua marca. O problema da propaganda paga é que, bem, ela é paga. Não é de estranhar que, na internet, quem sempre vence são os grandes conglomerados e seus influenciadores municiados por think tanks sustentados pelo grande capital (Revealed…, 2014). As “Revoluções Coloridas” não acontecem pela organização e projeto da esquerda, mas por estudos de público feitos pelas maiores agências de inteligência ao redor do planeta. Mas trataremos desse assunto mais tarde.

Voltando aos algoritmos, sem mencionar o grande volume de informações recebidas ininterruptamente por todos os usuários em todos os dias (onde se incluem as notícias falsas, mas também pura propaganda liberal), é ingenuidade crer que compartilhando as melhores postagens em seu perfil, todos seus amigos a verão. Essa reprodução mecânica não existe. O que vemos é que o conteúdo criado pelo usuário x só vai chegar naqueles outros usuários cujo perfil encontra alguma afinidade. E quem determina essa afinidade não é o usuário x, mas os “robôs” que analisam o comportamento do usuário x.

A melhor forma de intervenção, do patriota comunista nas redes sociais, se dá ao compreendê-la como uma extensão do mundo real, e não uma mera reprodução ou, pior ainda, um universo à parte. A prioridade não deve jamais ser com grandes números, com um público virtual, gelatinoso, amorfo e desorganizado. Com a internet, podemos nos fazer presentes nessa base ao longo do dia, garantindo assim a continuidade do trabalho político com a mesma disciplina e compromisso que exige o trabalho nas ruas, locais de trabalho e moradia. Dessa maneira, se reduz as posições vacilantes, catalisadas pelo bombardeio constante de conteúdo liberal, esquerdista, mentiroso e irrealista presente nas redes sociais.

Esse bombardeio, associado à falta de dados públicos claros – disponibilizados apenas por empresas privadas que cobram milhões pelas informações corretas (e por vezes envolvidas em escândalos, como foi a Cambridge Analytica), nos faz avançar para o próximo eixo:

A mudança na presidência do IBGE e a sabotagem à pesquisa nacional 

Curiosamente, o cenário de crescentes problemas na transparência de dados da realidade brasileira coincidem com a mudança da presidência do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, maior responsável pela produção de dados estatísticos sobre o país. A cadeira, ocupada anteriormente por Roberto Olinto, foi ocupada por Susana Cordeiro Guerra, como uma das primeiras medidas do então recente governo Bolsonaro. Nascida na cidade de São Francisco, nos EUA, mudou-se para o Rio de Janeiro e estudou na Escola Americana. Entre apenas 18 e 19 anos de idade, voltou à sua terra natal para fazer Graduação em Ciências Sociais e Mestrado em Administração Pública e Desenvolvimento Internacional, também pesquisadora bolsista da Fundação Lemann e da Fundação Estudar no David Rockefeller Center for Latin American Studies, na Universidade de Harvard, e, posteriormente, obteve título de PhD em Ciência Política pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). Após isso, trabalhou em instituições estrangeiras, notadamente no Banco Mundial, entre 2003 a 2005 e 2016 a 2019.

Após todos esses anos, veio ao Brasil diretamente para trabalhar no IBGE, com “apadrinhamento” do ministro da economia Paulo Guedes. Não restam dúvidas que, apesar do nome aportuguesado, trata-se, em todos os termos, de uma americana no comando da maior instituição de produção e análise de dados sobre o Brasil, com o aval do governo golpista. Desde que assumiu a presidência do IBGE, com a promessa de priorizar o Censo Demográfico 2020 com “agilidade” e “eficiência”, na contramão da instituição durante o governo Dilma, que priorizou as pesquisas amostrais como manutenção atualizada dos dados sobre a realidade brasileira e prioridade à PNAD Contínua, a metodologia de planejamento do Censo tem sido cada vez mais “enxugada” para se adequar a política de retenção de gastos do governo federal, além do atraso cada vez maior na publicação dos dados já coletados nas pesquisas contínuas.

Vale ressaltar que o IBGE é o órgão oficial de produção de dados estatísticos sobre a realidade brasileira. O que isso significa, dentro da nossa discussão? Pois bem, a própria PNAD Contínua é a pesquisa utilizada para acompanhar a progressão do acesso à internet no Brasil. Sem noção disso, não podemos sequer afirmar se a internet atinge, e atingirá, cada vez mais pessoas nos próximos anos, ao contrário do que pregam alguns grupos que dedicam os seus “esforços” à militância virtual. De fato, como os dados evidenciados pelo próprio instituto nos últimos anos demonstram, temos cada vez menos brasileiros com internet de acesso fixo em casa. Com o agravamento da crise econômica e social do nosso país, a tendência é que menos pessoas tenham acesso regular, com aperto das contas em casa, e a internet brasileira vai se tornar cada vez mais móvel, sustentada pelo sistema pré-pago das operadoras de telefonia celular.

A transformação da Internet Brasileira

Primeiramente, para se entender o que queremos dizer com o termo “internet brasileira”, devemos pensar no que significa a Internet como um todo. Existe uma concepção, muito presente no senso comum, de que a Internet é um sistema global de comunicação. Esta ideia faz sentido retoricamente, pois a Internet é um sistema de capacidade global de comunicação Em termos práticos, não é assim que ela funciona por questões geopolíticas, de autonomia (e a falta dela) nacionais e associações internacionais, bem como o fato de que todo e qualquer site tem, necessariamente, que estar hospedado em um (ou mais de um) servidor que estará, também necessariamente, baseado em uma instalação física dentro de um território nacional, visto que no mundo não existem territórios “neutros” ou “internacionais”. Todo e qualquer território no mundo está associado politicamente a algum poder, local ou extratropical (imperialista), e sendo portanto a internet uma extensão cibernética desse território real, as lógicas do segundo se reproduzem no primeiro, assim como o primeiro é instrumento de manutenção e regulamentação do segundo. Ou seja, os endereços cibernéticos, por estarem baseados em servidores físicos em localizações reais, obedecem às leis nacionais do território que pertencem, bem como são também instrumentos de manutenção dessa lei nacional.

Portanto, poderíamos concluir que, hipoteticamente, a tendência esperada da Internet fosse que ela funcionasse dentro de “sistemas nacionais”, por assim dizer, que implicariam em endereços cibernéticos nacionais, hospedados dentro de seus respectivos países, e mesmo assim, de livre acesso entre si pois cada quais estariam assegurados única e exclusivamente por suas próprias leis nacionais. Porém, como não vivemos neste mundo ideal, já que há uma força política que interfere na soberania e autonomia das nações da Terra — que chamamos de Imperialismo, no caso da Internet não poderia ser diferente. Sendo ela não apenas um instrumento de comunicação, mas uma própria extensão cibernética da vida e sociabilidade desses povos e nações, é importante para que o poder do Imperialismo possa manutenir sua existência, ter o controle e hegemonia desses territórios cibernéticos.

No caso do Brasil, não poderia ser diferente. A forma como isso aconteceu conosco pode ser observada de uma forma simples: Em torno de dez a quinze anos atrás, tivemos o advento das redes sociais no Brasil, que substituíram os fóruns e chats, sites de “bate-papo”, como forma mais comum de interação. Àquela época, as maiores redes sociais do Brasil eram brasileiras, sendo essas o Orkut (cuja maioria dos usuários eram brasileiros e, em menor parte, indianos), administrado pela Google Brasil (a partir de agosto de 2008) em território nacional e com autonomia de decisões em relação à Google americana, e o Flogão, versão brasileira do Fotolog, site para upload de fotos. Em três anos, 95,6% dos usuários do Orkut migraram para o Facebook, que no ano de 2012, ultrapassou o Orkut. Hoje, uma década depois, nossas maiores redes sociais são o Facebook, o Twitter, o Instagram, todas baseadas em território estrangeiro, ou seja, com seus bancos de dados de todos os usuários sob posse de empresas que respondem à lei e interesses nacionais de outro país, nesse caso, os Estados Unidos da América. Ainda que no caso do Orkut se saiba que a Google é uma empresa americana, a perda desse controle dentro de nosso próprio território demonstra uma progressiva perda da autonomia da internet brasileira.

Autonomia cibernética e defesa da Autonomia Brasileira

Esse movimento não é um movimento isolado. Da mesma forma como aconteceu no Brasil, aconteceu em vários outros alvos da influência do Imperialismo. Em termos simples, podemos entender o Imperialismo como a força política de manutenção da existência do mundo Ocidental, da “Ocidentalidade”, dos ideários da civilização defendida pela potência Imperialista, os EUA, e de seus aliados na Europa Ocidental, associados pela aliança militar OTAN. A propaganda pró-imperialista, logicamente, tem que ser uma propaganda a favor do estilo de vida ocidental, politicamente e moralmente, em um movimento no qual os dois se confundem. Peguemos, por exemplo, o Oriente Médio. O que foi a Primavera Árabe senão uma articulação do Imperialismo que defendeu, dentro desses países que estão inseridos em um contexto global diferente, as ideias de “democracia ocidental” como o caminho político moralmente mais correto, tratando os governos autônomos da região como “atrasados” e até mesmo como “criminosos” diante do mundo “moderno”? Conforme o tempo passa e aumenta o espólio de países como a Líbia, vemos as verdadeiras intenções desse movimento na região. E como ele foi possível? Graças às intervenções planejadas nas redes sociais (americanas) que estavam em alta na região, em especial o twitter e o facebook. Da mesma forma, vimos isso acontecer nos protestos de Junho de 2013 quando, na coordenação de mídia do Fórum de Lutas Contra o Aumento da Passagem, relatamos um crescimento anormal do engajamento na campanha online que culminou nas “jornadas de junho”. 

Anos depois surgiram estudos apontando que esse tipo de crescimento anormal estava inserido no contexto do que Lind (1989) chamou de Guerras de Quarta Geração, cuja preparação se dava através de densos estudos de público para a fabricação de consensos (BERNAYS, 1947) não-lineares (difusos e “imaginativos”), que possibilitem a identificação dos “cinco centros de gravidade principais que mantêm uma força adversária unida” (WARDEN, 1995), impulsionando massivamente ideias de forma a internalizá-las, fazendo com que “ideias contra o governo” pareçam “espontâneas e não forçadas” (KORYBKO, 2018). 

O uso do facebook para uma organizações de protestos manipuláveis é recorrente e testada em todo o mundo (NIEKERK et al., 2012). Sua divulgação através das redes sociais, praticamente da mesma forma como aconteceu no Oriente Médio (BEAUMONT, 2011), se repetiu no Brasil de junho de 2013. Durante o governo Dilma, meses após os protestos de 2013, o Brasil aprovou o Marco Civil da Internet, que tinha como objetivo regulamentar diretrizes sobre o ciberespaço nacional, incluindo direitos, deveres, respaldos e restrições legais, a fim de aumentar e garantir a soberania cibernética brasileira. Apesar de amplamente criticado por alguns setores interessados na “autonomia” da internet (comprovadamente imaginária, através da explanação colocada aqui acima), o projeto foi aprovado, em grande parte graças à preocupação do Governo Federal em defender a soberania de nosso país, após a comprovada espionagem norte-americana, escândalo diminuído e abafado pela grande mídia na época. Ainda sim, o projeto só foi aprovado através de muita insistência do Governo Dilma, que já era sabotado pela articulação golpista que atuava no país. Mesmo tendo-o colocado em caráter de urgência para ser apreciado na Câmara dos Deputados em até 45 dias, em Setembro de 2013, isso nunca aconteceu, e a pauta foi colocada em suspensão e só aprovada no ano seguinte. Diante disso, podemos concluir que os golpistas brasileiros nunca tiveram intenção patriótica alguma, já que, em mais uma situação, não foram capazes de defender a soberania Brasileira por uma discordância política. 

Esse movimento não é um ato isolado do último Governo Brasileiro legítimo. Todos os países preocupados com a sua autonomia e a integridade de seus cidadãos no mundo virtual preocupam-se e agem contra a ingerência imperialista nesse meio. Em maior ou menor medida, qualquer país que preocupe-se com a segurança nacional e a ameaça estrangeira toma medidas para proteger sua internet e seu povo. O movimento limitado a uma forma humilde pela ação dos seus inimigos internos, no Brasil, pode ser observado em maior medida em países que repeliram totalmente a ameaça imperialista na internet, como a China, por exemplo. Por muitas vezes, isso é vulgarmente chamado de “censura da internet”, apoiado nesse argumento falacioso de que a internet é um sistema universal e de que a agressão parte justamente desses países que se protegem. À época, a Presidenta Dilma também foi acusada de “censurar a internet” com o Marco Civil. 

Iludidos e avalistas da perseguição golpista

As tentativas de violação do ciberespaço chinês são facilmente observáveis. Por volta das 4 da madrugada (UTC -3) no último dia 28 de maio, quando o Comitê Político Nacional da China autorizava a proposta de uma lei de segurança nacional para Hong Kong (que proíbe ato de secessão, subversão, terrorismo ou conspirar com influências estrangeiras), o twitter começou a receber um bombardeio de mensagens clonadas, publicadas por perfis diferentes e com o mesmo conteúdo. Bombardeio que fez subir o assunto para os assuntos mais comentados do site e a China ser rechaçada. Uma tática absolutamente parecida com os “robôs bolsonaristas” tão comentados pela imprensa golpista e esquerda brasileira. O mais curioso desse tipo de operação é que, quando se aborda esse assunto, é mais comum encontrar material falando sobre a “guerra informacional” da “China contra Hong Kong” (como se a Região Administrativa Especial de Hong Kong fosse um país outro que a China), e não da atuação estrangeira contra soberania do ciberespaço chinês. 

Voltando para o Brasil, vemos então que mesmo um país que está em processo rigoroso de consolidação da soberania nacional também no ciberespaço — grandes gastos orçamentários dedicados à construção do Projeto Escudo Dourado, as violações do ciberespaço são recorrentes e as tentativas de resposta sempre são recebidas com detrações. Então, como pode um campo golpeado crer que, com militância virtual e combate às fake news, reconquistaremos o povo?

Evidente que se trata de mais ilusões da esquerda. Há uma anedota contada no PT que diz que duas importantes dirigentes foram à Rússia (outro país que trabalha para garantir a soberania sobre seu ciberespaço) perguntar como resolver o problema das Fake News. A resposta dos estadistas russos não poderia ter sido mais irrealizável: “é só lançar um satélite”. Logo, medidas para inviabilizar as marchas golpistas em 2013 teriam que ter sido tomadas antes, enquanto estávamos no governo. Se a história é real ou não, se o tempo desse combate está atrasado ou adiantado, pouca importa. O fato é que é um combate fora do seu tempo. Como já demonstramos, a comunicação na internet brasileira é infrutífera, tresloucada e, portanto, ardilosa. Tentam a todo momento nos tirar das ruas e nos limitar à internet, uma vez que se trata de um ambiente fértil para o controle. A alcunha de “militância virtual” para se referir aos cyberativistas não poderia ser mais precisa. Na língua portuguesa, virtual é sinônimo de possibilidade, algo sem consequência real. É o vir-a-ser de uma militância que tem vontade, mas que não é nada.

A resolução desse impasse, de forma a garantir a segurança dos dados brasileiros, passa inevitavelmente pela conquista do Estado. Quer dizer, só é solucionável a longo prazo. É de uma irresponsabilidade esquerdista imperdoável acreditar que investir em formas punitivistas (como combate à fake news e polícia de pensamento) propiciará um ciberespaço mais “seguro” e menos “tóxico”. Muito pelo contrário, com esse tipo de prática, o que a militância virtual consegue é atuar como avalista da Ditadura, normalizando práticas de censura e perseguição, tendo as posições da extrema-direita que extrapolam os “limites democráticos” como um grande boi de piranha. É uma prática que, em nome da defesa abstrata de uma democracia que não existe, reforça uma das estruturas racistas da sociedade brasileira.

Não existem atalhos na luta de classes. No ciberespaço, o foco na forma de comunicação deve ser (1) individualizada, (2) intensiva – feita ao longo do dia em horários diferentes e (3) direcionada à base social real com quem lida aquele militante. Redirecionar esforços para esse espaço controlado e diminuto é cair em uma armadilha liberal absolutamente evitável. A curto e médio prazo, a solução é a mesma do século passado. Diferentes pesquisas apontam que, em vários lugares do mundo, o jornal impresso ainda é o veículo de informação com o maior grau de confiabilidade. Não é atoa que os profissionais da Universal mantenham seu órgão oficial de imprensa (Folha Universal) com publicação massiva semanal, desde 1992, ocupando um espaço importante gradualmente deixado de lado pelo conjunto das organizações patrióticas. A internet, então, pode ser uma aliada da mesma forma que foi a criação da imprensa, da rádio e da TV. Isto é, novas formas de comunicação complementares às anteriores, mas nunca sem que isso signifique uma sobreposição à conversa olho-no-olho, às ações de rua.

Referências
BERNAYS, E. The Engineering of Consent. 1947. Acesso: 15 de junho de 2020. Disponível em: <http://www.fraw.org.uk/data/politics/bernays_1947.pdf>
BEAUMONT, P. The truth about Twitter, Facebook and the uprisings in the Arab World. The Guardian, 2011. Acesso: 15 de junho de 2020. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2011/feb/25/twitter-facebook-uprisings-arab-libya&gt;
IBGE: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2018. Acesso: 15 de junho de 2020. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>.
____: Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2017. Acesso: 15 de junho de 2020. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>.
KORYBKO, A. Guerras Híbridas: das revoluções coloridas aos golpes. São Paulo: Expressão Popular, 2018.
LIND, W. et al. The Changing Face of War: Into The Fourth Generation. Marine Corps Gazette, outubro de 1989. Acesso: 15 de junho de 2020. Disponível em: <https://globalguerrillas.typepad.com/lind/the-changing-face-of-war-into-the-fourth-generation.html&gt;
NIEKERK, B. V. et al. Social Media and Information Conflict. International Journal of Communication, 2012. Acesso: 15 de junho de 2020. Disponível em: <https://ijoc.org/index.php/ijoc/article/viewFile/1658/919>
Revealed: Pentagon spent millions sutyding how to influence social media. RT News, 2014. Acesso: 15 de junho de 2020. Disponível em: <https://www.rt.com/usa/171356-darpa-social-media-study/&gt;
WARDEN, Colonel John. The Enemy as System. Airpower Journal, 1995. Acesso: 15 de junho de 2020. Disponível em: <https://www.airuniversity.af.edu/Portals/10/ASPJ/journals/Volume-09_Issue-1-Se/1995_Vol9_No1.pdf>

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