DITADURA MILITAR ARTICULA LIQUIDACIONISMO NO COMANDO VERMELHO PARA FAVORECER O CARTEL DAS NARCOMILÍCIAS

Morte de Elias Maluco é a terceira seguida de lideranças do Comando Vermelho e expõe predileção do Estado pela “aliança 5.3“.

Na última terça (22), Elias Pereira da Silva foi encontrado morto em sua cela prisional na Penitenciária Federal de Catanduvas, estado do Paraná. Conforme o laudo técnico apresentado no dia seguinte (24), sua morte foi causada por enforcamento. Até o presente momento, a Polícia Federal defende a hipótese de suicídio, concluindo uma suposta carta de despedida. Como sabe-se, o caso aconteceu dentro de uma penitenciária federal de segurança máxima, que atende rigorosos protocolos de prevenção ao suicídio. A investigação é de responsabilidade da autarquia federal.

No entanto, há jurisprudência para responsabilizar a morte de Elias na prisão. Pois o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu por unanimidade que o homicídio e suicídio do preso não exclui a responsabilidade civil do Estado, devendo este indenizar se ficar comprovado que houve omissão quanto ao dever de custódia.

Há época, o ministro Luiz Fux proferiu voto que reconheceu  a responsabilidade civil do Estado mesmo em casos de suicídio. “Se o Estado tem o dever de custódia, tem também o dever de zelar pela integridade física do preso. Tanto no homicídio quanto no suicídio há responsabilidade Civil do Estado”.

Morte de Elias Maluco é a terceira seguida de “roncas” do Comando Vermelho 

“Elias Maluco” era um notório membro do grupo Comando Vermelho Rogério Lemgruber (CV-RL) do Rio de Janeiro. Apesar de ter acumulado condenações, ganhou as páginas policiais  pelo assassinato do jornalista Tim Lopes, caso esse que levou a sua “caçada” por parte das autoridades. Elias, antes disso, já era peça importante na hierarquia do CV, em especial pela sua participação na administração de territórios do Complexo do Alemão e do Complexo da Penha, uma das áreas mais importantes para o varejo de narcóticos do CV no Rio.

O Voz Operária acompanha desde os prelúdios da Intervenção Federal no Rio de Janeiro um cenário, promovido pelo Estado de Exceção surgido em 2016, no qual se desenha um rearranjo na área da segurança pública da cidade e do estado. Para realizar a tarefa de destruição total da soberania brasileira, conforme já exposto anteriormente, o golpismo no Brasil, sócio dos interesses estadunidenses, cumpre e articula um grande projeto de cartelização do crime organizado no país. Ao integrar o Primeiro Comando da Capital (PCC)  ao Narcosul e fazer dessa organização narcotraficante responsável pelas principais rotas  de drogas vindas do exterior e países vizinhos. Este processo é semelhante a experiência feita na parte norte da América Latina há mais de uma década, tomando como maior e mais claro o exemplo, o caso do México, que explodiu em novas organizações envolvidas no tráfico de drogas (doméstico e internacional) justamente após a intervenção militar na segurança pública do país. 

Há pontos em comum nas histórias do México e do Brasil. Como sabemos, a América Latina vivia uma situação totalmente diferente à pouco mais de dez anos, mas tomemos o caso mexicano para pensar um pouco: Um governo de direita, pró-americano, diretamente associado ao poder do imperialismo, assume e clama pela necessidade de uma intervenção militar em um território específico do país, afim de controlar a crescente violência — que na realidade não estava muito diferente dos anos anteriores, dentro da variabilidade imaginável, assunto discutido em publicações anteriores de nosso editorial. Essa intervenção promove a ascensão de novos grupos dentro dessa nova dinâmica de poder, uma estremecida nas peças do xadrez dos grupos armados que apenas as Forças Armadas de um país, por sua dimensão e estrutura nacional, podem ser instrumentalizadas a fazer.

Qual é o ponto de convergência entre os grupos milicianos do Rio que promovem – com a facção Terceiro Comando Puro (TCP) – a aliança 5.3, e um grupo paramilitar mexicano – surgido de membros de forças de elite dos próprios órgãos de segurança pública e se aliam a cartéis para participar do lucrativo negócio do tráfico de drogas – como Los Zetas? Aliás, qual é força “mística e invisível” que paira sobre a América Latina e promove, em países de condições materiais tão diferentes, resultados tão estranhamente parecidos? 

Voltemos ao caso brasileiro. A perda de Elias Maluco para o CV, dentro do quadro geral do ano em curso, não é isolada. Em maio, o traficante Leandro Simões Nascimento Furtado, “Diminho”, foi morto em operação policial no Complexo do Alemão. Diminho era o mais importante armeiro da facção, articulando compras de armas e “aluguéis” para a administração local de outros territórios do grupo CV-RL. Em abril, Paulo Rogério de Souza Paz, o “Mika”, também um importante membro da administração do Complexo da Penha, foi encontrado morto. Nesse mar de coincidências, também em sua cela, dentro de uma Penintenciária Federal (nesse caso, a de Mossoró, no Rio Grande do Norte) “suicidado” com um lençol, nessa epidemia que só atinge os membros de um grupo específico, e nunca seus semelhantes de outras facções. 

Essa febre, que dá de tempos em tempos no nosso clima, também já vitimou jornalistas, metalúrgicos, estudantes, desempregados, pessoas de todos os tipos; mas é difícil admitir isso em um país onde às vezes as pessoas querem decidir quem pode ou não morrer. O grupo de risco é mutável, mas a doença é a mesma.

Rapidamente, nas redes sociais (em especial, o twitter), uma clara campanha de notícias falsas, arquitetada pelos donos do golpe de Estado, e seus interesses em promover a cartelização no Brasil a ponto de adotar táticas liquidacionistas e desviacionistas. Perfis no twitter começaram a disparar prints afirmando que a morte de Elias Maluco “seria fruto de um desafeto com outro grande membro da hierarquia do CV”, o Márcio dos Santos Nepomuceno, “Marcinho VP”. Outros, mais exaltados ainda, “indicavam que VP teria “pulado” para o TCP, e que as áreas de sua influência como membro da facção teriam, também, mudado sua bandeira”. 

Tais afirmativas só fazem sentido se considerarmos o caso isolado de Elias, ignorando que ele sequer foi o primeiro membro do CV a morrer sob as mesmas condições, ainda esse ano. Coincidência ou não, algumas dessas informações têm sido propagandeadas por perfis que fazem apologia à facção TCP.

Os golpistas adotaram tática semelhante, e assim, os ataques ao Partido dos Trabalhadores empreendidos desde 2005, ao contrário do que se planejava, deixaram o PT mais fortalecido.  Essa nova fase da Ditadura Militar que, planejando o extermínio do Comando Vermelho e a concretização de seu plano de cartelização do Brasil, trabalhou favorecendo ao grupo adversário — questão essa exposta em reportagens anteriores do Voz Operária — se revelou igualmente insuficiente. O efeito reverso culminou com a perda contínua de confrontos e controle de territórios, e levou o CV-RL a um enrijecimento interno, que não só engrossou suas fileiras com a adesão de soldados e outros membros de áreas anteriormente controladas pela facção Amigo dos Amigos (ADA), como também permitiu a formação da “Tropa do Urso”, destacamento armado controlado pelo Pedro Bala, do Complexo da Penha. Esse último grupo não é formado unicamente por membros da região, mas também de várias áreas que têm passado ao controle do Comando, algumas inéditas e outras recuperadas das invasões das narcomilícias da aliança 5.3 (milícia e TCP). A Tropa do Urso tem empreendido uma campanha de recuperação de territórios e avançado a outros que representaram ameaças ao CV nos últimos dois anos.

Para conter essa reviravolta, duas táticas amplamente utilizada pelo imperialismo mostram-se mais econômicas. A primeira se trata de uma tática clássica de liquidacionismo, regida pela fórmula “destrua os quadros de uma organização para desestabilizar sua base”. Nesse sentido, o Estado de Exceção precisaria então cooptar figuras de influência do grupo, os “roncas” do CV, para desestabilizar sua base sólida de soldados e outros tipos de apoiadores. A segunda possibilidade é uma ação desviacionista, que até o momento não logrou êxito. Remonta o golpe de 2002, na Venezuela, contra o Comandante Chávez. Na ocasião, Chavéz foi sequestrado e mantido incomunicável, criando uma narrativa de ruptura, quebrando assim a cadeia de controle e comando. Junto ao movimento popular, essa ação também foi derrotada.

Aos nossos detratores, é importante elucidar que consideramos aqui o CV-RL um grupo guerrilheiro, e não algum tipo de organização revolucionária. Esses detratores tratam a questão dos varejistas não pela concepção da precarização do trabalho — tese referendada pela Organização Internacional do Trabalho—, e sim, como um “lumpensinato” suscetível “aos interesses das elites”. Uma guerrilha é, por definição, um grupo que empreende através de táticas de guerra de guerrilha, uma guerra não-convencional baseada em ataques e movimentações rápidas, através de atos violentos de surpresa e rápida dispersão; e em dicionários também encontra-se: “Tropa ou bando autônomo que combate sem obediência à disciplina e às regras militares”. Todo e qualquer grupo armado, mas em especial os que combatem na guerra urbana prolongada que acontece sem decreto oficial no Rio de Janeiro, podem ser considerados grupos guerrilheiros. E, independente de quaisquer questões, é fato que o Comando Vermelho se tornou um obstáculo para o paramilitarismo narcotraficante continental promovido pelo imperialismo na América Latina que persegue todo e qualquer tipo de movimento organizado por outro viés que não aquele da metrópole colonial. Em termos práticos, o que queremos dizer é que uma guerrilha é uma organização, e como é do interesse da Ditadura Militar aniquilar esse grupo, ela vai utilizar de táticas para exterminar organizações desse tipo.

O Alto Comando das Forças Armadas já interveio com a nomeação do golpista Braga Netto para a casa civil e garantiu a impunidade dos crimes militares durante a intervenção militar no Rio de Janeiro, em uma demonstração do terrorismo de Estado.

É preciso maturidade para trabalhar com esse tipo de caso, sem aceitar um desinteresse moralista. No bojo da perseguição política estão o assassinato da vereadora Marielle Franco, a morte da companheira Marisa Letícia, o suicídio do reitor Luiz Carlos Cancelier, além de todos os presos, mortos e perseguidos pelos operadores do golpe de 2016. Todos os crimes da ditadura do GSI devem ser apurados e respondidos pelo conjunto das organizações patrióticas.

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