Relato dE Ediane Sobre a invasão da milícia em ocupação de Piraquara/PR

Caros Companheiros do Ciencia e Revolução e do Voz Operaria aqui quem vos fala é uma dos 220 milhões de brasileiros.

Por ter conhecimento, das suas ações de combate a perseguição política entranhada nos órgãos públicos do país trago a vocês o relato de uma ação policial ocorrida no dia 9 de janeiro 2021 as 23h.

Primeiro é preciso ressaltar a legitimidade das organizações sociais em ocupar áreas que não cumprem função social garantindo o direito de morar. Ocupamos uma área em Piraquara/PR área está explorada pela extração de areia e com danos ambientais irreversíveis; o município todo é alvo desse tipo de exploração e aqui devo lembrar aos leitores que somos a capital da água, nossa capacidade aquifera abastece mais de 50% do consumo de água de Curitiba e região metropolitana. A escassez das chuvas no ano de 2020 deixou exposta uma prática criminosa no município onde leitos de rios são desviados e nascentes aterradas com entulhos de construção dos municípios vizinhos, deixo aberto o leque de discussão para os mais entendidos do assunto lembrando que somos impactados com o sistema de rodízio imposto pela exploradora da água no estado a Sanepar de 36h com água e 36h sem água o que agrava a calamidade da pandemia sem contar o alto custo nas faturas a que o consumidor é submetido.

Voltando a ocupação, em torno de 100 famílias ocuparam a área de forma ordeira e pacifica na tarde deste sábado dia 9/01, o proceder normativo seria a ação de reintegração de posse juntado com a ordem de despejo acompanhado de instituições a garantir a integridade de todos os envolvidos, o que relato a vocês é o abuso ocorrido por parte da PM/PR.

Por volta das 23h, quando um coletivo de 7 policiais entraram com ações de extrema violência, sem apresentar instrumentos legais para a ação, sem comunicar as lideranças presentes, chegaram atirando no escuro pra cima de quem estava lá. Usando spray de Pimenta em mulheres e crianças, que estavam em seus barracos sem oferecer resistência alguma a eles, bombas de efeito moral foram arremessadas em nossa direção nos deixando desorientados e sem capacidade de sair. Mais spray fora jogado nos olhos e mais bombas arremessadas na direção da multidão, que se formou por moradores que acompanhavam atônitos a violência que os ocupantes estavam sendo submetidos.

Quando já estávamos fora da área, um outro tipo de ação foi colocada em prática com disparos de armas letais e fomos encurralados nas residências próximas. Pessoas atingidas pelos projéteis e um outro tipo de gás foi jogado nos quintais das casas onde as pessoas estavam encuraladas. Era um gás que queimava e sufocava, a busca pelo ar era angustiante, policiais descaracterizados atearam fogo nos barracos com os pertences das pessoas dentro, pessoas foram espancadas e humilhadas pelos 7 policiais que atuaram nesse episódio amparado pelo “excludente de ilicitude” atirar primeiro e perguntar depois, porque nós desarmados com os filhos no colo oferecíamos grande risco aos mantenedores da lei e ordem, “contém irronia”?

Ocupar é legítimo..
Morar é um direito? Onde?
No Brasil?

No livro da constituição estas palavras soam lindamente, nas utopias da democracia todo cidadão tem direito a moradia e o Estado a obrigação de garantir este direito. Nos sonhos mais profundos deste país aspirante a ser livre das garras militares ou do uso dessa Força Armada pra garantir o privilégio dos detentores do capital adquirido de forma escusa e criminosa, mas amparados pelas leis criadas com o intuito de inibir as frentes organizadas que surgem nas massas trabalhadoras fica um recado: o Estado tem medo que o povo se organize e usa toda força para garantir que sufocados, violentados os cidadãos se calem. Por isso este instrumento de comunicação que vocês oferecem é de grande importância para as vozes que teimam em continuar.

Eu sou mulher, mãe e ativista; tenho minha casa, mas não posso ficar em paz no conforto do meu lar enquanto outros não tem o mesmo recurso. Fui atacada agredida virtualmente por pessoas que até me sugeriram fazer “sopa” para alimentar os pobres como uma ação aprovada pelas mesmas ao invés de estar com meu “boné” do “MST” e meu espirito de luta na linha de frente gritando os desmandos e violência sofrida por aqueles que as margens da sociedade estão expostos.

O que incomoda essa sociedade hipócrita é que essas pessoas pudessem cozinhar sua própria comida em seus próprios fogões em suas próprias casas e não precisassem mais da “Piedade da sopa”; uma sociedade doutrinada a fazer ações de reparação dos pecados, como se Deus fosse um negociador; uma sociedade que usa a Piedade para reparar pecados e que se treme por dentro com o medo de não ter pessoas a porta para usar a “piedade caridosa”, como um “coringa” das boas ações para apresenta-las à Deus, como passaporte pro Paraíso.

Precisamos ser piedosos e caridosos… mas o povo é mais feliz quando somos solidários e buscamos com nossos meios transformar a vida das pessoas aqui uso uma frase da Simone: “só vou estar bem quando todos estiverem bem”.

Exercer a solidariede envolve assumir riscos como este que passamos ontem, minha filha e eu queimadas no rosto com pimenta e meu filho com bala de borracha nas costas quando foi nos socorrer.

Há um tempo atrás cedi uma entrevista ao canal de vocês onde dizia que queria deixar uma trilha para os meus filhos de qual caminho deveriam seguir para continuarem lutando por um país justo e Pacífico pros meus netos e gerações seguintes, digo a vocês hoje meus filhos nasceram com a semente da luta, da solidariedade, de não estarem apenas ocupados de si mesmos e sim de todos.

Como é de minha pessoas, após receber conselhos valiosos de admiradores das minhas incursões neste meio, não quero só apontar o problema disso todos nós sabemos então me dou o direito de sugerir também. Canais como este são um gargalo que temos mas a rede social, perdera forças com os fatos e governos que temos e teremos logo à frente, então formação e consciencialização é preciso. O sistema que vivemos nos coloca como indivíduos e não como coletivos, assim se estou particularmente bem que se dane os outros, e dale textão nas redes sociais dos moralistas de sofá.

Nós que estamos nas bases sem apoio, sem respaldo jurídico, já que este está corrompido pelo esquema de propina e financiamentos milionários de campanhas políticas no município e no estado. Apanhamos até que o limite suporta, por aqueles que elegemos pra garantir que podemos agir, e se caso estivermos errados a segurança de recuar de forma justa ficamos sem ter pra onde correr ou ter suporte.

Destruir rever a cartilha de ações militares para com os civis é um dos passos necessários, os protocolos violentos são sempre a primeira opção quando vão lidar com a gente..

Fomos atingidos de forma injusta e segregacionista, eles não agem assim nos condomínios de luxo, eles não agem assim pra criminosos do colarinho branco, eles não agem assim com os bancos privados que exploram com juros abusivos os trabalhadores, com políticos corruptos e com a milícia, eles agem assim com os trabalhadores periféricos marginalizados .

Se vamos parar??
Nunca, enquanto a vida nos permitir lá estaremos..
Saudações de esquerda a todos os companheiros e companheiras

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