A “Milícia” não é um único grupo sob o mesmo comando

O presente artigo é o segundo de uma série chamada “Sobre a guerra urbana no Brasil”, composta por quatro textos interligados que serão publicados pelo Voz Operária ao longo de quatro semanas. Traremos elementos para municiar o debate sobre o terreno lamacento da guerra urbana no Brasil, sobretudo no Estado do Rio de Janeiro, onde a guerra deixou de ser apenas “a continuidade da política por outros meios” para ser tornar condição de existência da disputa política.

Sobre a guerra urbana no Brasil

PARTE 1: Monopolização do narcotráfico e suas consequências políticas
PARTE 2: A “Milícia” não é um único grupo sob o mesmo comando
PARTE 3: Contradições na prática das forças de segurança?
PARTE 4: Reintegração das oligarquias ao Novo Regime e os grupos de extermínio

A “Milícia” não é um único grupo sob o mesmo comando

É comum vermos figuras midiáticas recorrerem à esquemas pré-existentes para enquadrar a realidade, como no caso da chacina no Jacarezinho. Evidências mostram que aquela operação não teria sido um simples abre-alas macabro da “milícia”. Por Lucas Fionda | Voz Operária

No texto publicado na semana passada, resumimos o longo processo de monopolização do crime orientado pelo novo Regime, processo esse que acompanhamos desde a antessala da intervenção militar via decreto do presidente golpista, Michel Temer.

Retomando a linha de raciocínio desenvolvida anteriormente, a explicação lá vista (a respeito do uso das forças de segurança do Estado para alocação da aliança 5.3 em regiões do RJ) daria a entender que teríamos matado a charada: A operação que chacinou 29 pessoas no início de maio foi para abrir caminho para a “milícia” entrar, certo? Bom, algumas evidências apontam para outros caminhos.

No processo analítico orientado pelo materialismo histórico e dialético, quando surge um fenômeno contraditório, não devemos ignorá-lo para que nossa ideia continue a fazer sentido. É importante que observemos justamente as contradições, que nos trarão novas questões, e nos darão a capacidade de construir uma análise adequada e atualizada. Vamos a alguns pontos:

1. Geograficamente, o Jacarezinho não é nem um pouco vantajoso para a expansão do 5.3. É uma área cercada por outros territórios do Comando Vermelho, sendo talvez uma das áreas de CV mais consolidadas da cidade.

2. “A milícia” não tem um histórico de tentativas de tomadas do Jacarezinho. Na realidade, todas as disputas armadas locais são desdobramentos do rearranjo espacial interno da favela, causado pela instalação da UPP na parte alta do Jacarezinho e da Cidade da Polícia em Maria da Graça, bairro ao lado, aumentando os tensionamentos entre agentes do estado e grupos armados locais.

3. O tráfico no Jacarezinho é tão lucrativo e, consequentemente, explorado no sistema que chamamos vulgarmente de “arrego”, isto é, um sistema de propinas regulares para agentes de segurança em troca do funcionamento do comércio. Comércio esse, aliás, que no dia seguinte à chacina, já estava com todas as bocas do Jacarezinho em funcionamento normal. Sua localização “privilegiada”, cercada por rodovias, sistemas de trem e metrô, torna seu varejo lucrativo, e, é claro, seus “arregos” mais valiosos.

Fato é que não seria do interesse mais direto da PMERJ em baquear o tráfico do Jacarezinho, até por conta do próprio sistema de propina, o “arrego”. Não estamos insinuando, é claro, que a instituição PMERJ extorque o tráfico do Jacarezinho, mas sim, que os únicos beneficiários dessa extorsão só podem ser agentes da PMERJ, já que é deles a responsabilidade por realizar uma ronda ostensiva regular.

Esses elementos retomam ao ponto de que, no caso dessa mesma operação que resultou no massacre, a força policial que conduziu o processo foi a CORE, da Polícia Civil, e não a PMERJ. O problema com fórmulas prontas que caem ao gosto de figuras midiáticas é que elas normalmente escondem (ou ignoram) fenômenos mais sutis: A reorganização do crime não é um processo dado, mas em constante transformação.

Pensar na “A Milícia” como uma representação cristalizada do policial corrupto é ignorar a simples realidade de que o tráfico pode ser mais lucrativo, como é o caso do Jacarezinho. Há casos, principalmente quando se pensa na forma em que o varejo de drogas no município do Rio funciona, com bancas fixas em territórios controlados, em que manter o que já está no lugar para poder extorquir, facilita o processo. Ou seja, não existem fórmulas gerais, mas análises gerais, que devem levar em considerações as condições de cada localidade, que geram suas fórmulas locais. Ao pensar dessa forma, fica cada vez mais evidente de como estamos falando de desdobramentos da disputa política quando falamos da disputa de grupos armados.

A própria generalização do termo “milícia” e o uso de adjetivos como “milícia bolsonarista”, “milícia virtual” etc, dá a entender que se trata de um todo hegemônico, o que está bem longe da realidade. Há sim milícias de diferentes regiões, com diferentes aliados. Algumas “antigas”, ligadas às oligarquias locais, e as “novas”, surgidas principalmente do vácuo deixado pelo desmantelamento e enfraquecimento de algumas das “antigas”, por ocasião da realização da CPI das milícias, presidida pelo sr. Marcelo Freixo em 2008.

Tomemos como exemplo o caso de Jorge Babu, de Santa Cruz. Ex-deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores, Babu foi mencionado no relatório da CPI das milícias envolvido em clonagem de placas de carros e organização de rinha de galo. Depois de suas atividades terem sido encerradas e sua prisão conflagrada, surge a oportunidade para que o “Bonde do Ecko”, tido como herdeiro da “Liga da Justiça” de Natalino e Jerominho, assumisse o controle da região. Ecko foi pioneiro na incorporação do tráfico de drogas nas atividades milicianas.

Sem nenhum prejuízo, é possível afirmar com tranquilidade que as acusações contra Jorge Babu deixam de ser absurdas ante às quais Ecko já enfrenta hoje e, principalmente, daquilo que o Bonde do Ecko está ligado, direta ou indiretamente. Tráfico de drogas, tráfico de armas, e uma série de casos anormais ligados aos seus territórios e membros do grupo paramilitar. Traremos aqui algumas delas:

No ano passado, foi preso pela Polícia Civil um cidadão alemão de 75 anos, Klaus Berno Fischer, que alugava um galpão em Santíssimo, bairro da Zona Oeste do Rio e território do Bonde do Ecko. Klaus produzia pornografia infantil no local, e de acordo com a Polícia Civil, em uma parede falsa foram encontrados mais de 30.000 arquivos com o material.

Apesar de ser proprietário de uma agência de turismo em Copacabana, Klaus foi encontrado em um sítio em Seropédica, na Baixada Fluminense. área também de influência do Bonde do Ecko, onde usualmente a Polícia Civil realiza operações e encontra milicianos da Zona Oeste escondidos em propriedades da região. Há indícios de que o pedófilo fazia parte de uma rede de tráfico internacional de crianças e o caso hoje segue na Polícia Federal.

É no mínimo curioso imaginar como seria possível que uma operação de tamanha magnitude, envolvendo uma propriedade com um estúdio para a produção de pornografia infantil e aliciamento de menores da própria região, poderia ocorrer debaixo do nariz de um grupo paramilitar que controla todos os serviços essenciais e tem ciência de toda a vida cotidiana nesse mesmo lugar.

Além do pedófilo preso em área de controle do Ecko, em uma outra ação da Polícia Civil, no ano de 2018, foi preso Diego Caldeira de Andrada Chaar, deportado dos Estados Unidos em 2015, em função de suas atividades como membro filiado do grupo terrorista Estado Islâmico. Sua deportação dos EUA envolve um caso de prisão após ameaças a judeus em uma sinagoga de Miami. Conforme indicam as investigações estrangeiras, o miliciano teria dito aos religiosos que “cabeças seriam cortadas”. Já aqui, de acordo com a própria Polícia Civil, Diego era responsável pela cobrança em diversos territórios no município de Itaguaí, vizinho do município de Seropédica e do bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste.

Participações internacionais não são exclusividades de um ou dois casos. No início do mês de maio desse ano, foi preso no bairro de Jardim Primavera, bairro do município de Duque de Caxias controlado pela milícia, Efe Sullivan Loaiza Durango, 36 anos, de naturalidade Colombiana e procurado pela Interpol por associação ao Cartel de Medellín. Efe não apenas se escondia ali, como era residente fixo do bairro e buscava se regularizar no Brasil, mesmo sendo procurado pela Interpol e intimado pela justiça dos EUA.

Também Colombiano, Luis Edwin Dávida Lis, de 22 anos, foi preso menos de um mês antes na comunidade da Chacrinha, na Praça Seca, controlada pela milícia. Foram encontrados com Luis um maço de R$1.710,00 e um caderno com as indicações dos locais onde deveriam ser feitas as cobranças. Ele estava a menos de 20 dias no Brasil, mas, mesmo após interrogatório, não soube explicar aos investigadores o porquê de sua presença no país, e muito menos seu envolvimento com milicianos locais.

Conforme todos esses apontamentos deixam evidente, não existem pontos sem nó nas articulações entre os mais diferentes poderes. Anteriormente, percebemos a importância de, além de olhar o quadro geral, olhar o quadro local. Agora, percebemos a importância de, para além da realidade local e geral, que limitamos à nacional, olharmos para o quadro internacional da articulação desses poderes.


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