O que tem a ver a Reforma da Espanha com Brasil? Nada! Mas prevalece na esquerda à alucinação.

A confusão histérica, mais uma vez, tomou conta do debate na Esquerda. Dessa vez, o centro da discussão foi a “comemoração” da revogação da Reforma Trabalhista na Espanha. Para os trabalhadores da Espanha a medida é tardia e à quem, pois os melhores remunerações por postos de trabalho estão na Irlanda, Reino Unido, Alemanha, Suíça, Luxemburgo, Holanda, Bélgica, e França. Na Espanha, dentre eles, ocupa a 3ª menor remuneração na zona do Euro, excetuando os países do Leste europeu.

Lista de salário mínimo na Europa por país

o salário mínimo está instituído em apenas 21 dos 27 países da União Europeia, sendo que os valores praticados são bem diferentes e podem variar muito. Segundo, o conselho da União Européia, os salários mínimos em 2021 de cada país são:

  • Irlanda: 10,20 €/hora;
  • Reino Unido: 9,87€/hora;
  • Alemanha: 9,50€/hora;
  • Suíça CHF 4.086/mês (cerca de 3.922€/mês)
  • Luxemburgo: 2.201,00€/mês;
  • Holanda: 1.684,80€/mês;
  • Bélgica: 1,594€/mês (varia de acordo com as regiões e nível de especialidade);
  • França: 1.554,58€/mês;
  • Espanha: 950€/mês;
  • Malta: 784,08€/mês;
  • Portugal: 665€/mês;

LESTE EUROPEU

  • Eslovênia: 1.024€/mês;
  • República Tcheca: de 586,96€ a 1.173,90€/mês (varia de acordo com o tipo de trabalho);
  • Bulgária: BGN 650/mês (cerca de 332€);
  • Grécia: 650*€/mês;
  • Lituânia: 642€/mês;
  • Polônia: 625€/mês;
  • Eslováquia: 623€/mês;
  • Croácia: 560€/mês;
  • Estônia: 584€/mês;
  • Letônia: 500€/mês;
  • Hungria: 487,1 €/mês;
  • Romênia: RON 2.300,00 (cerca de 472,40€/mês).

*O salário mínimo na Grécia continua o mesmo de 2020. No entanto, em março o governo anunciará um possível aumento.

A situação ainda é mais grave quando tratasse dos imigrantes, correspondem a cerca de 15% da população do país (47 milhões), por isso, o país se tornou a “porta de entrada” em toda Europa. Os imigrantes se refugiam de áreas de conflitos e guerras, da fome e desemprego, e buscam na zona do euro, uma vida digna, emprego, e moradia que não encontram no velho continente. Passam a serem vítimas de xenofobia, racismo e intolerância religiosa.

Sem considerar esses aspectos sequer é possível estabelecer uma comparação, e pasmem, para a esquerda, a medida do governo espanhol tem implicação no Brasil! Para ela, “abre o debate para anulação da Reforma Trabalhista” aprovada no golpe de 2016. Todo o alvoroço foi a partir de “um twitter do Presidente Lula”, na qual saúda a anulação da Reforma pelo executivo espanhol, porém não faz nenhuma menção a reforma trabalhista brasileira. Abrindo ai uma avalanche de opiniões, que não encontram amparo na realidade, porque até agora Lula não apresentou projeto com a pauta da anulação da reforma.

Uma breve comparação entre o salário mínimo do Brasil

No Brasil, o salário mínimo em 2021 é de R$1.102 mensais (cerca de 170€ mensais). Convertido em euros para permitir análise, o país entraria em último lugar na tabela de salários europeus. Comparado com o salário mínimo da Espanha é aproximadamente 600% menor! É importante lembrar, no entanto, que o custo de vida no Brasil é mais baixo que na Europa.
Entretanto, no Brasil o histórico de crescimento do salário mínimo costuma ser menor do que na Europa. Entre 2010 e 2019, por exemplo, a taxa de expansão anual na década foi de 3,5% na Europa. Já no Brasil esse aumento foi de apenas 1,9%. Ou seja, ainda que o custo de vida seja menor, o crescimento do salário mínimo brasileiro continua sendo menor que o europeu.

Portanto, não se sabe de onde a esquerda traça um paralelo entre a situação política/econômica na Espanha com o Brasil, porque não tem nada a ver uma coisa com a outra. Desconsidera as diferenças entre as realidades nacionais e o posicionamento geopolítico de cada país.

Além do mais, nem é uma medida tão progressista assim, primeiro porque o governo de Pedro Sánchez não travou a política de revogação das privatizações adotadas pelos sucessivos governos neoliberais anteriores, inclusive pelo PSOE. E também, é um comum o PSOE votar com o Vox e outros partidos neoliberais contra medidas de corte mais progressistas. Por exemplo, o PSOE barrou com o Vox a investigação contra o Rei Juan Carlos I, votou contra a Reforma Constitucional que garantia direitos para população e impediu a Lei de Moradia, que era uma pauta dos movimentos de inquilinos da Espanha. O sindicato dos inquilinos chegou a declarar que o voto contra do governo Sánchez à lei era um desprezo a sociedade civil organizada, como também ignorava o problema das moradias e dos alugueis que vem se agravando na Espanha na ultima década. Então, na verdade, não existe enfrentamento ao neoliberalismo e é bem contestável o “esquerdismo” do governo do PSOE.

Então, voltando para a realidade brasileira. A anulação da Reforma Trabalhista é uma daquelas medidas que todos vão considerar positiva. Porém, é muito questionável a efetividade de anular medidas parciais do golpe, diante da avassaladora agenda neoliberal de destruição da soberania nacional. Com a inflação, a desindustrialização, desemprego, empregos precários, informalidade e a anarquia dos aplicativos estrangeiros, o impacto de tal medida será praticamente nulo.

Anular medidas pontuais do golpe, como é a Reforma Trabalhista não garante emprego, salário e muito menos desenvolvimento industrial. Para gerar emprego é necessário traçar uma política de Estado para dar continuidade ao processo de industrialização do Brasil, que independe da mudança de governos. Revogar a reforma é uma medida paliativa, que não trará garantias duradouras, porque de uma hora para outra pode ser invalidada com uma “canetada” de algum ministro ou governo golpista. Por isso, não adianta debater mudanças se não for dentro da perspectiva de poder. E até agora, a candidatura Lula não se coloca no enfrentamento ao poder militar.

Pautar anulação da reforma trabalhista com 6 anos de atraso é mais um jogo de propaganda. Hoje a realidade do mundo do trabalho se precarizou tanto que será uma medida inócua. Tratasse na verdade de um jogo político. Primeiro porque é uma daquelas medidas que ninguém vai condenar. A burocracia petista tenta dar um verniz de progressismo a sua política de conciliar com o golpe anulando uma medida impopular, visto que nas últimas semanas tem recebido muitas críticas por causa da aliança com os neoliberais do PSDB.

Ao mesmo tempo, que os “geniais” estrategistas políticos do PT dá legitimidade para o golpe de estado de 2016, retirando da “sala o bode” que foi a reforma que gerou desgaste e impopularidade nos governos golpistas de Temer e Bolsonaro.

Além disso cria um impacto negativo na população, porque nutre a esperança em vão, que será pela via institucional que vamos garantir mudanças. No matadouro do caminho institucional que não existe saída. A anulação de uma reforma que não tem mais impacto na realidade econômica nacional.

O que é mais importante, pautar a anulação de medidas pontuais do golpe ou reformas estruturais que garantam a transformação do país? E quem falar que uma coisa não excluí a outra é mentiroso ou confuso.

Se você gostou da matéria, contribua com a campanha do Apoia-se. Qualquer quantia e bem vinda para continuarmos nosso trabalho e combater as alucinações da esquerda e da direita. A eleição vem ai e será uma avalanche de ataques. Contribua!

Sabia que a partir de 16 centavos ao dia você ajuda a imprensa popular e investiga a se manter? Acesse www.apoia.se/vozoperariarj para saber mais.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s