O “IMPERIALISMO RUSSO” QUE NUNCA EXISTIU – PARTE 2

Retomamos aqui o trabalho de fazer um resgaste do histórico da Rússia e denunciar o papel revisionista exercido pelos esquerdistas e pela imprensa imperialista, que tentam pintar a Rússia atual como uma potência Imperialista. Sabemos que na história é perfeitamente possível haver países de status coloniais ou semicoloniais que tem influencia sobre seus vizinhos, como é o caso do Império do Brasil e da China Imperial por exemplo, ou até mesmo ter colônias, tais como é Marrocos e da Turquia, países que ninguém no seu sã juízo chamaria de imperialistas.

Vimos no primeiro texto os primeiros séculos da história da Rússia influenciados pela herança do Império Bizantino e pelo Império Mongol, que criaram as cinco fontes constitutivas do nacionalismo russo: que são a língua russa, religião ortodoxa, a integridade territorial, a autocracia centralizadora e suas Forças Armadas. Ao contrário dos demais Estados Feudais, os Principados de Moscou tinham uma centralização de poder, apesar de manter uma certa autonomia dos senhores feudais. Da mesma forma, como as constantes cruzadas de Roma, na sua obsessão de criar um governo global, tentam desde de o século X exterminar o povo russo e chegar ao fim do país.

Após a morte do último herdeiro da família Rúrikovich, que havia governado a Rússia por 700 anos, o país entrou em um período de desestabilização e guerra civil. Aproveitando-se da situação, a Suécia, (em 1521, o país havia rompido com o Papa e o seu rei, Gustavo I, aderiu à reforma protestante levando o luteranismo abranger 80% da população sueca), intervém no conflito interno da russo. Ao mesmo tempo que, o Reino da Polônia e Lituânia, controlada pelo Vaticano e de maioria católica, para não ficar para trás na disputa com os luteranos, declarou guerra a Rússia e invadiu Moscou, convertendo o Príncipe Polonês em novo Czar da Rússia.

Entretanto, a nova invasão estrangeira gerou rebeliões em todo a Rússia, resultando na unificação de todas as facções em disputa pelo poder na Rússia e expulsando os poloneses e suecos. Na sua fuga, os poloneses colocaram um governo fantoche, cujo rei foi capturado pelos russos, executado e suas cinzas colocadas dentro de uma bala de canhão e disparada em direção a Varsóvia. Dando o recado que nunca mais o Vaticano deveria tentar pôr um governante fantoche no trono da Rússia.

Em 1613, após a rebelião contra os poloneses, representantes de todas as famílias oligárquicas russas, se reúnem em Moscou e elegem para o trono Miguel I da família Romanov, uma das principais famílias aristocratas, o primeiro de uma longa dinastia que iria consolidar a Rússia como nação.

O primeiro dos Romanov, Miguel I, herda um país arruinado pelas décadas de guerra civil e com grandes partes do território russo ocupados pelos poloneses e suecos. Grupos de saqueadores, muito influenciados pela cultura nômade das estepes, pilhavam varias cidades, ao mesmo tempo que rebeliões de servos continuavam a desestabilizar o Império. Nessa situação difícil, o novo Czar estabelece dois objetivos: restaurar a paz e estabilizar as finanças do país.

A princípio, o Czar, sem um exército capaz de lutar, negocia e obtém uma trégua com Suécia e Polônia, porém se vê obrigado a ceder muitos territórios, levando à Rússia a perder o acesso ao Mar Báltico e territórios da Antiga Rússia de Kiev, por outro lado, a expansão de cossacos pelas estepes da Sibéria levam a Rússia a chegar as costas do Oceano Pacífico, constituindo a identidade territorial da nação. Nessa expansão, os russos cruzam o estreito de Bering e estabelecem as primeiras rotas comerciais com a China, governada na época pela Dinastia Ming, a primeira a governar o país depois da queda do Império Mongol.

A expansão do Império Russo para o leste, exacerbam as contradições internas entre a aristocracia e os servos e faz com que eclodissem revoltas por todo o país, o que leva o Czar a reformar o Estado e reforçar a servidão, agora pelas novas leis, os camponeses não podem abandonar seus territórios e devem pagar diretamente aos oligarcas locais os impostos do Estado. Desde então, as oligarquias se constituem como peça fundamental na administração do Regime político aristocrático.

No oeste do país, nos territórios da antiga Rússia de Kiev, conquistados pela Polônia durante a ocupação mongol, o Estado Polonês, induzido pelo Vaticano, inicia um processo de conversão forçada dos russos ao catolicismo e tenta escraviza-los. Nessa época, para justificar a escravidão, o Vaticano na Polônia cria uma teoria que caracterizam os russos como “sub-humanos”, uma espécie entre os animais e os homens, e que logo poderiam ser escravizados ou exterminados caso se opusessem ao catolicismo, isso foi um dos germes que influenciaram séculos mais tarde a teoria nazista.

Em 1648, dada toda essa situação, se inicia uma rebelião armada da população russa e dos cossacos, que resulta na expulsão dos poloneses das principais região da antiga Rússia de Kiev, em resposta o Império da Rússia oferece ajuda a guerra dos cossacos e aos rebeldes russos, o que gera uma guerra contra a Polônia. Nesse processo, Moscou consegue recuperar grande parte dos territórios ocupados pelos poloneses.

Nessa mesma época, influenciados pelas ideias do movimento protestante, que começa a chegar na Rússia, se inicia uma reforma da Igreja Ortodoxa onde busca resgatar os textos originais e herança da estrutura da Igreja Bizantina. Esse movimento gera um cisma entre moscou e os novos crentes, que provoca conflitos armados dentro da Rússia.

O Czar Pedro I, que assumiu o trono em 1682, inicia uma exploração diplomática, cultural e comercial russa para a Europa. Cria uma delegação diplomática para conhecer as potencias europeias, então se estabelece na Holanda, ali toma conhecimento do importante comércio triangular. Uma rota comercial onde os traficantes europeus de escravos, chamados negreiros, partem carregados de objetos domésticos, armas e ferramentas para África, onde trocam esses produtos no golfo da Guiné por escravos, que por sua vez são levados para o Brasil e restante da América hispânica para trabalhar nas plantações e nas minas de metais, assim os barcos voltavam à Europa carregados de açúcar, tabaco, rum, pedras e minérios preciosos. Esse comercio se volta muito rentável, o que atraiu os interesses do Czar russo.

Ao regressar, o novo Czar vê a necessidade de modernizar a frota naval da Rússia para explorar as novas rotas comerciais, mas para isso é necessário reconquistar os territórios russos no mar bálticos cedidos à Suécia durante o governo de Miguel Romanov. Dando inicio à Grande Guerra do Norte, uma guerra travada da aliança entre Dinamarca-Noruega, Saxônia (estado alemão), Polônia-Lituânia e Rússia contra os Suecos que monopolizavam o comércio no Mar Báltico.

Europa em 1700

Lembrando que desde o fim da Idade Média, Roma sofria uma profunda crise de credibilidade e a emergência do Estado Sueco se tornava uma ameaça para os interesses católicos na Região e a existência do Sacro Império Germânico, tutelado pelos Austríacos aliados de Roma. A partir desse momento, se estabelece uma tolerância à presença do poder russo, dada impossibilidade de elimina-los. Dessa forma, pela primeira vez, a Rússia é integrada para estabilizar a Ordem Mundial da época, em troca se reconhecia seus interesses nacionais. Esse acordo faz a Polônia-Lituania a perder cada vez mais influencia política no Leste Europeu.

A superioridade militar sueca fica evidente no campo de batalha com os Carolinos, soldados profissionais e extremamente bem treinados, assim como o desenvolvimento tecnológico da balística sueca, com os famosos canhões de couro (peças de artilharia leve feitas de couro que arrasavam as fileiras de infantaria russa). As experiências em campo de batalha mostram ao Czar que era necessário reformar o Exército Russo. Cabe lembrar, que antes da Reforma, o Exército russo era composto basicamente por legiões de camponeses recrutados nas províncias controladas pela aristocracia. Com a Reforma, o Czar Pedro I contrata generais prussianos, moderniza o Exército Russo a Marinha russa, reestrutura a hierarquia militar e lança as bases fundadoras da teoria militar russa, fundando uma doutrina de segurança voltada para defesa da soberania territorial do Império Russo.

Após duras derrotas, o Exército russo estacionou na fronteira dos estados bálticos e ficou na defensiva, entretanto, a escalada do conflito entre Suécia e Polônia, dividiu o exército Sueco, que marchou para Varsóvia e Saxônia, o que deu alivio da pressão na frente russa, possibilitando uma ofensiva e a ocupação da desembocadura do Rio Neva, fundando a cidade de São Petersburgo, em 1703.

Após os suecos esmagarem os poloneses, dinamarqueses e saxões, o Rei da Suécia, Carlos XII, dirige seu exército para a Rússia. Os suecos fazem uma aliança com os cassacos e com os novos crentes, dissidentes da Igreja Ortodoxa, aproveitando seus descontentamentos e contradições com a autocracia russa. Os suecos também conseguem uma aliança com o Império Otomano, entretanto, os russos consegue derrotar o Exército sueco no seu território o que faz o rei fugir para o território otomano, que por sua vez declara guerra a Rússia.

O Exército Otomano era muito superior ao Exército Russo, pois meio século antes os Otomanos já haviam modernizado seu Exército, incorporando os Nizam, soldados treinados em táticas ocidentais, além de equipar os Jenízaros com armamentos modernos, a engenharia militar e os canhões otomanos também eram os melhores do mundo, incluindo a utilização de armas inovadoras para época, como os morteiros, que eram capazes de atingir os soldados russos abrigados em suas trincheiras.

Esse revés na guerra fez com que os russos estabelecessem a paz com a Suécia e Otomanos. Entretanto, Pedro I conseguiu estabelecer a Rússia no Mar Báltico, conquistando os estados ocupados pela Suécia e recuperando territórios historicamente russos.

Pedro I além de reformar o Exército, garantir a rota comercial da Rússia pelo Mar Báltico, esmagar a dissidência cossaca no sul e expulsar os suecos do território russo, ele também foi responsável por lançar as bases do iluminismo russo. Ao contrário do Iluminismo nos EUA e na Europa, na Rússia, o processo foi conduzido pelo próprio Estado para eliminar os elementos medievais que mantinham a Rússia no atraso. Porém, o Estado Russo eliminou vários avanços civilizacionais desse processo, como por exemplo, o direito do povo de se revoltar contra um governo tirano. Entretanto, deve se entender que a autocracia russa tem um motivo de existir, dado o constante assedio de potências para o fim da Rússia.

No seu período de governo, a influencia da renascença chegou com força, tendo avanços significativos na agricultura, arquitetura, medicina, artes e fortalecendo a cultura nacional russa. Por exemplo, a reforma eclesiástica, conduzida Feofan Prokopovich, arcebispo ortodoxo, rompeu as tradições medievais da igreja, reformou o ensino ortodoxo, criou a Academia Rússia de Ciências, Unificou a Igreja como Base de sustentação do Regime Czarista e impulsionou as reformas do Czar na Igreja em toda sua amplitude. Nessa época também surgiram grandes nomes da literatura russa, como as sátiras de Antiokh Kantemir e os trabalhos histórico de Vasily Tatishchev. As reformas iluministas seguiram pelo governo de Catarina, que era elogiada por Voltaire.

A sobrinha de Pedro, a czarina Ana, aspirou a conquista da Crimeia, uma reinvindicação territorial antiga da Rússia. No seu governo, a Rússia iniciou sua expansão para o Sul, conquistou a Moldávia e Crimeia, regiões ocupado pelos Otomanos e seus aliados. Uma aliança militar entre Rússia com o Império Austríaco, já que muitos altos funcionários do governo da Czarina Ana eram prussianos ou austríacos, pois por disputas internas pelo poder fazia Ana desconfiar da nobreza russa, levou a Áustria a declarar guerra aos Otomanos, entretanto, pesadas derrotas dos austríacos e russos frente o poderio bélico otomano fez com que os russos acabassem devolvendo os territórios conquistados, com exceção da cidade de Azov (uma saída para o Mar de Azov).

Na segunda metade do século XVIII, mais exatamente em 1756, inicia a Guerra dos Sete Anos, uma série de conflitos em todo o mundo, que reconfiguraram a ordem de poder mundial e tiveram grande repercussão na desestabilização dos impérios coloniais, inclusive influenciando na Revolução Norte-Americana de 1775. Nessa guerra, a Rússia combateu ao lado dos austríacos e franceses, contra os prussianos em especial.

Em 1762, um ano antes do término da Guerra, Catarina – A Grande, deu golpe de Estado no próprio marido, após uma conspiração envolvendo a oligarquia russa que acusava o Czar de “ser submisso aos interesses da Prússia” e “ser incapaz de governar”. Nessa época, a Rússia reivindicava à mais de 100 anos o controle sobre a Criméia aos Otomanos, após uma série de incidentes na fronteira entre Polônia e Império Otomano a czarina Catarina viu a oportunidade de recuperar as zonas de segurança da Rússia e declarou guerra ao Sultão Otomano.

No avanço, o Exercito russo ocupou a Crimeia, onde fundou a Cidade de Sevastopol e Odessa, construindo o território da chamada Nova Rússia. Porém, os planos dos russos também eram avançar para o sul, criando um Estado Ortodoxo, onde hoje é a Grécia e a Servia, Assim obtendo o controle dos estreitos dos Dardanelos, garantindo a supremacia naval da Rússia no Mar Negro, que é considerado como zona de segurança do país até hoje.

Porém, para conter o crescimento da influência da Rússia nos Balcãs, França e Inglaterra pressionam a Prússia e Áustria para conter as pretensões russas. Assim, os dois países dão apoio aos Otomanos na guerra, o que resulta no fim das hostilidades russas e otomanas. Dessa forma, Rússia, Prússia, Áustria, Reino Unidos e França (os franceses cada vez, menos, porque a o país havia perdido muito poder e territórios durante a guerra dos 7 anos) estabelecem os status quórum europeu que iria dominar a ordem de poder na Europa até as Guerras Napoleônicas.

Mapa mostra a anexação dos territórios da Polônia Lituânia pela Áustria e Prússia

Dentro desse acordo, se forma uma aliança entre Prússia, Áustria e Rússia, onde as três potências combinaram em dividir em um terço para cada os territórios do Reino da Polônia e Lituânia, assim, Rússia e Polônia entram em guerra, onde o Exército russo recupera todos os territórios da antiga Rússia de Kiev. Enquanto Prússia e Áustria dividem o território da Polônia, o que levou o fim do Reino da Polônia e Lituânia em 1795.

A influência crescente da Rússia na ordem de segurança europeu era algo constante, não só pelo poderio militar russo, mas também pela sua influência econômica, nessa época, a Rússia já tinha importantes rotas comerciais com a Europa, sobretudo no abastecimento de peles, trigo, alimentos e minérios.

Dado o potencial econômico e militar da Rússia, não era mais possível as potências ocidentais ignorarem a influência Rússia na configuração da ordem de segurança europeia. No próximo texto, abordarei a questão da Influencia da Rússia no período de 1800 até 1917, que incluem a influência da Revolução Francesa na Rússia, o período Napoleônico, a nova Ordem Mundial estabelecia no Acordo da Santa Aliança de 1815, a fase imperialista do colonialismo europeu e até a Primeira Guerra Mundial.

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