Esquerda delira e comemora surgimento de partido que morreu há 30 anos

Hoje, dia 25 de março, se ainda existisse, o Partido Comunista – Seção Brasileira da Internacional Comunista (PC-SBIC), completaria cem anos. Fundado em 25 de março de 1922, o PC foi uma das diversas organizações criadas após a Greve Geral de 1917. A atual sigla PCB, Cidadania (ex-PPS) e PCdoB disputam e reivindicam a herança de 100 anos, falsificando a história e criando glórias que nunca existiram.

Uma das primeiras coisas que se aprende (ou que se deveria saber) em política é: “conheça seu inimigo para saber destrui-lo.”. Então o objetivo desse texto não é contemplar a história de fracassos do PCB, mas sim, contribuir para destruir toda a mística que o rodeia a esquerda.

O objetivo de reivindicar a herança do defunto, é ter os “status de sabedoria”, de uma organização centenária e de se autodeclarar a agremiação política mais antiga do Brasil. É propaganda que serve para ludibriar idiotas. Independente da vertente política, de direita ou de esquerda, o PCB formou diversos quadros políticos e teve sua colaboração trágica para chegarmos à situação política atual. O PCB foi a escola de formação para quadros da direita neoliberal, tais Cesar Maia, Sérgio Cabral, Roberto Freire, Aloysio Nunes, entre muitos outros neoliberais que estão na política, no meio empresarial e na imprensa burguesa.

Excluída a propaganda de autoconstrução de ambas organizações, na realidade, a história do PCB está ligada à diversos erros táticos e estratégicos. Entre esses erros os principais são: a coexistência pacífica com os golpistas e o imperialismo norte-americano, a política de alianças com a burguesia, o oposicionismo ao governo de Getúlio no momento de golpe, o desarme da luta contra o golpe Militar de 1964, a politica conformista com a Ditadura Militar, o apoio ao processo de anistia, diretas e constituinte que manteve a estrutura da Ditadura até hoje. O PCB também deseducou o movimento operário para colocar o socialismo como resoluto de todos os complexos problemas nacionais.

Além disso, o PCB foi responsável por criar o Mito da Democracia Racial. Hoje, o PCB encontra na universidade oxigenação política para sua renovação, já que está fora do jogo político real. E não digo apenas do Parlamento, mas sim dos grandes sindicatos, de greves, de ocupações e do combate contra o genocídio neoliberal.

Os PCbistas esquecem qual foi o primeiro sindicato criado pelos brasileiros, o Sindicato de Estivadores, por ser um sindicato preto e esse partido ser uma agremiação ideologicamente e politicamente europeia, tanto que até hoje, nos textos oficiais de sua escola de formação não há nenhum político negro, em um país de mestiços e negros. E não falo isso por identitarismo, mas sim para ilustrar que as análises do PCB passam longe da realidade nacional.

Foi responsabilidade do PCB associar no consciente coletivo do movimento operário que o “nacionalismo é coisa de fascista”. Em contraposição, o PCB aderiu ao internacionalismo, ou seja, a nova ordem mundial emergida no término da Segunda Guerra Mundial (onde a URSS apoiou). Nesse processo, os comunistas no Brasil combateram as questões nacionais. Na sua critica aos status coloniais do Brasil, dizendo que o nosso país não é uma colônia dos EUA porque temos um capitalismo desenvolvido e uma burguesia integrada internacionalmente. Não levam em consideração para essa análise longo período de desindustrialização do Brasil. Bastou apenas 1 ano de Lava-Jato sabotando as empresas brasileiras para mostrar que o “desenvolvimento capitalista” do Brasil é algo extremamente frágil e sob constante ataque dos Estados Unidos.

O Brasil sempre tem um partido que se apresenta como “defensor dos interesses populares e do país”, mas que na pratica atua como tutor da classe operária para que ela não rompa a dominação colonial vigente. É sabido que República Velha (1889 à 1930) era uma ditadura, mesmo em plena ditadura, o PCB conseguiu sua legalidade em 1927, inclusive lançando candidatos nas eleições do referido ano e de 1930. Isso revela que o PCB foi permitido pelo regime como um projeto internacionalista de poder, para se contrapor ao nacionalismo impulsionado nos anos de 1920 e a Revolução de 1930.

Combater golpe de Estado dos EUA contra o Brasil nunca foi algo importante para o PCB. Após se silenciar durante os golpes de Estado contra os trabalhistas em 1945, em 1954 e em 1964 o PCB entrou em um processo de desmoralização completa diante da classe trabalhadora nacional. O processo de dissolução do PCB se inicia ainda em 1956, quando no Congresso do PC da União Soviética, Nikita Kruschev culpava Stalin por crimes de Estado e reafirmava a política de coexistência pacífica com o Imperialismo norte-americano.

A crise do PCB foi se acumulando, o que gerou um racha em 1961, onde saíram do partido Apolônio de Carvalho, Mário Alves, Carlos Mariguella e muitos outros dirigentes. Depois, em 18 de fevereiro de 1962, um novo racha, agora embarcando cerca de 20% do PCB, rompe e gera o PCdoB. Apesar do Comitê Central do PCB ter alegado que o racha era motivado por questões ideológicas, a razão principal era que, quando o golpe militar já era notório, o Comitê Central do PCB se recusava a organizar a resistência aos militares. Essa política negacionista é resumida na frase de Luiz Carlos Prestes, que dizia: “Se os golpistas levantarem a cabeça, nós a cortaremos de imediato“. Se passaram 21 anos de Ditadura e não se viu o machado do PCB descer para cortar cabeça alguma, a não ser as suas próprias.

A filosofia PCBista de: “vamos deixar o pior acontecer para ai sim lutar contra” permaneceu e está presente nos dias atuais. Vimos ela sendo aplicada no farsa do Mensalão, na Lava-Jato, no golpe de 2016, na prisão do Lula, na fraude eleitoral de 2018, na pandemia e agora na fraude eleitoral de 2022 para eleger Bolsonaro outra vez. Seja na nossa vida privada ou na política, deixar as coisas para cima da hora só agravam os problemas.

Após o golpe de 1964, quando toda teoria sobre o “Brasil ser uma Democracia consolidada” e “desenvolvimento capitalista do Brasil” se desmancha, o PCB passa por um decomposição fatal. O PCB provando sua completa inutilidade na luta de classes, se recusava a enfrenta a Ditadura e combatia o armamento da população contra o governo tirano. Novos rachas foram se aprofundando em 1967, em 1968 e até 1972, fizeram o partido perder mais de 40% da sua militância, influencia e capilaridade no movimento operário, camponês, popular e estudantil, que nunca mais recuperaram. Como em política não existe espaço vazio, foi preenchido pela presença pelos jesuítas da Igreja Católica e organizações de cunho socialdemocrata.

Com a crise da Ditadura Militar, toda a esquerda, inclusive o PCB, fez um acordo com os militares. Nisso, a reabertura do Regime garantiu, sob a locuplencia da esquerda, anistia aos crimes de Estado, a manutenção da estrutura militar e policial da Ditadura, a tutela militar da República de 1988 e as bases macroeconômicas para o neoliberalismo. Essa política gerou novas contradições, que criaram a crise terminal do PCB na década de 1980, levando a saída do seu Secretário Geral, Prestes, que foi o último comunista a jogar a última pá de terra na cova daquele partido insepulto.

Em 1992, com aqueda da União Soviética, o então presidente do PCB, Roberto Freire, que nada mais tinha a ver com os comunistas, durante o Congresso do Partido, declara a extinção do PCB e decide lançar o estatuto de fundação de um novo partido, o Partido Popular Socialista – PPS. Antigos membros do PCB acusaram a Direção Nacional do partido de manobrar um golpe. A disputa foi para um ponto tão baixo que acabou indo se resolver justiça burguesa, onde o TSE – Tribunal Superior Eleitoral, decidiu dar causa ganha para o PPS, que manteve o registro eleitoral e o patrimônio do falecido partido. Nisso, os dissidentes do PPS decidem fazer uma disputa na justiça pelo antigo nome, Partido Comunista Brasileiro, que se arrasta por toda década de 1990, mas que de fato é a criação de um novo partido.

Não há problema de nenhum organização da classe trabalhadora reivindicar o legado histórico do PCB ou do Movimento Comunista. A história do Movimento Comunista está ai, aberta e livre para o debate para qualquer um avaliar os seus erros e acertos, e tirar suas sínteses políticas. O que deve se combater é o resgate dos frutos, que não são bons, da política do velho PCB, tal como o resgate da crença à democracia, a política de frente ampla e as ilusões institucionalistas que toda esquerda segue. Além disso, falsificar a história e cometer revisionismo histórico deseduca a luta política.

Hoje, PCB, PCdoB e PPS são partidos inúteis, legendas eleitorais onde políticos profissionais ganham a vida, usam a política para não trabalhar no mercado privado neoliberal, que eles apoiam. Não tem nada de igual ao velho PCB, que pelo menos mantinha uma postura contrária as guerras dos Estados Unidos no mundo, um jornal operário e defendia a educação e o debate político. Hoje, são partidos que restringem sua ação política à atuação de ONGs, como por exemplo a criação de programas assistencialistas paliativos e a ações política inócuas.

Já passaram anos e eles continuam agitando a luta em torno da criação de um “Bloco anti-hegeminico”, porém, quando se tem a oportunidade de fazer unidade, o PCB racha a Frente Brasil Popular, mostrando seu ultra-sectarismo em momento de golpe. Assim como racharam a CUT e a qualquer lugar onde a luta de classes é real e existe. Em 2010, fazendo coro com Heloísa Helena, o PCB fez uma campanha pelo Mensalão e contra a corrupção. Em 2014, em momento de crise eleitoral contra Aécio Neves, o PCB defendem o voto nulo e defende a Lava-Jato.

O PPS apoiou o golpe de Estado de 2016 e votou em 90% da pauta do Governo Bolsonaro no Congresso Nacional. Por sua vez, o PCdoB, foi uma das principais agremiações políticas para referendar a política da “página virada do golpe”, defenderam Diretas Já e a Frente Ampla com os neoliberais. Já o PCB, uma correia de transmissão do PSOL, apoiou as jornadas de junho de 2013 e disse que não iria haver o golpe de Estado de 2016. Portanto, hoje a falsificação histórica desses partidos para ganhar prestigio político recai sobre o próprio peso da sua cumplicidade, apatia e conivência ao golpe de Estado de 2016. Negar o golpe levaram esses partidos a morte política e desse caminho eles não podem mais sair.

Sabia que a partir de 16 centavos ao dia você ajuda a imprensa popular e investiga a se manter? Acesse www.apoia.se/vozoperariarj para saber mais.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s