Rússia mostra que precisamos nos livrar da escravização do dólar

Nos Estados Unidos, muitos analisas econômicos tem debatido sobre a crise do dólar, enquanto outros falam do fortalecimento da moeda norte-americana, especialmente após o conflito na Ucrânia. 

Aqui no Brasil, esse debate chegou com atraso de pelo menos 2 anos. Jornalistas tais como Pepe Escobar, apontam o colapso do uso do dólar e o fortalecimento de moedas nacionais, baseadas em riqueza produtiva, porém esquecem o domínio da especulação no mercado financeiro mundial, assim como o endividamento das economias dos países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos, já que os EUA tem uma fábrica de dólares no Federal Reserve e o controle sobre a dívida desses países.

É fato que o uso do dólar vem caindo, mas isso não é suficiente para apontar uma projeção do colapso da moeda. Em fevereiro desse ano, a participação do dólar no comércio mundial caiu em 1,07% nos acordos financeiros globais, segundo dados do sistema de comércio interbancário SWIFT. Por outro lado, as transações financeiras em euros aumentaram 1,23%, no mesmo período. O iene japonês também sofreu queda, e hoje se situa em 2,71% das transações internacionais. Essa queda não é de agora. Desde 2000, o uso do dólar caiu de 70% para 60% no comércio mundial (FMI).

Foi após 2008, ano da crise econômica, que houve um prolongado período de fuga de recursos por players norte-americanos e europeus de mercados emergentes, enfraquecendo suas moedas. 

Atualmente muitos especuladores veem a oportunidade de aumentar seus lucros em relação às economias em desenvolvimento, especialmente pela apropriação de riquezas nacionais através da política de privatizações impulsionadas por uma série de golpes de Estado no mundo. A partir de 2016, o mercado de ações dessas economias experimentou uma valorização de mais de 50% e esse processo vem crescendo ano após ano. 

Durante décadas, a Rússia busca alternativas ao poder financeiro global do dólar. Movimento que se acelerou a partir da anexação da Crimeia em 2014. Em 2020, as transações em rublos no comércio com a Ásia cresceram 74%. No mesmo ano, as reservas russas em dólar e euro ficaram em 45% para 35%, respectivamente. Da mesma forma que iene japonês, o yuan chinês e a libra esterlina ficaram em 5%, 10% e 10%, respectivamente.

Segundo Gita Gopinath, conselheira do FMI, as sanções impostas à Rússia vão fortalecer a criação de pequenos blocos monetários, cujas relações comerciais vão utilizar moedas nacionais, reduzindo gradativamente o uso do dólar. Porém, o dólar continuará sendo a moeda dominante em pelo menos 60% do comércio mundial, apesar de perder força.

A decisão do governo russo de exigir o pagamento do gás em bancos russos não exclui o uso do dólar e do euro. Os clientes podem comprar o gás em euros e dólares em um banco russo, e logo estabelecer o câmbio em rublos. É uma medida que sem dúvida fortalece a moeda nacional e contem a desvalorização proposital conduzida pelos EUA.

Em fevereiro, acordos comerciais entre Rússia e China firmaram o uso das moedas nacionais no comercio bilateral. Recentemente, o mesmo processo foi fechado entre Rússia e Índia no comercio de armas e petróleo entre ambos os países. Caso esse acordo se estenda para Paquistão e Irã, estaríamos falando de 40% da população mundial, que no futuro podem ser ampliados com a participação do Brasil e da África do Sul, países membros dos BRICS.

Nesse sentido, conforme fica demonstrado pelos números, a medida tomada pela Rússia, de fato avança no sentido de minar o predomínio do dólar. Porém, é preciso ter prudência na análise e se respaldar na realidade concreta sobre o que de fato significa este fenômeno, para não ficar procurando pelo em ovo. Uma coisa é o enfraquecimento do dólar, outra coisa é o colapso do dólar.

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