A crise do mercado Europeu e o teto do preço do petróleo russo

A União Européia (UE) está atualmente presa na armadilha que os Estados Unidos e ela própria se meteram. O ex-presidente da França, Charles de Gaulle, dizia que a Europa sempre tem que lembrar de duas coisas: EUA não são Europa; Inglaterra é uma ilha. Mas parece que as classes políticas de Berlim, Paris, Roma e Londres esqueceram disso, uma vez que atuam para aumentar o bloqueio do fornecimento e comercialização de gás russo em território europeu, o mesmo recurso energético do qual são extremamente dependentes.

Apenas para mostrar alguns dados que revelam o tamanho da crise que a UE se meteu, a organização europeia depende das importações líquidas para abastecer 84% do seu consumo doméstico de gás. Cerca de 38% das importações de gás da UE provêm da Rússia. Impedir que a Rússia forneça gás por causa das “sanções” europeias levará a zona do euro à recessão.

Gás não é só aquecimento para o inverno que está chegando por lá, significa também atividade produtiva, energia para indústria e fertilizantes para a Agricultura Europeia, que já está enfrentando gravíssimas consequências da seca mais dura das últimas décadas, alta nos preços dos combustíveis e leis ambientais que penalizam a produção agrícola.

No final desta semana, os países do G7 concordaram em impor o tão anunciado teto de preço do petróleo russo na véspera do inverno. Claro, essa ideia vem do lado dos EUA, e foi a secretária do Tesouro Janet Yellen que disse em junho que a “ferramenta mais poderosa” que eles têm é limitar o preço do petróleo russo para supostamente reduzir a inflação. Mesmo saindo da reunião do G7, o ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, Nadhim Zahawi, disse que a decisão foi tomada em Washington pela secretária norte-americana Yellen.

Tantos ataques à Opep+, marcando aquela organização como se fosse um cartel, fazem com que essa nova medida trace nas entrelinhas que o G7 busca operar como cartel para fixar preços à conveniência neste cenário complexo, onde nenhum daqueles países têm recursos energéticos suficientes para lutar nesta dinâmica em comparação com a Rússia.

O vice-primeiro-ministro russo Alexander Novak respondeu que, se Estados ou empresas imporem restrições de preços, a Rússia simplesmente não fornecerá petróleo e derivados. Novak também comentou que tal movimento poderia destruir completamente o mercado mundial de petróleo.

Deve-se notar que, diante das rodadas de medidas coercitivas unilaterais (as chamadas sanções) contra a Rússia, as receitas do petróleo foram mantidas porque Moscou encontrou novos mercados na Ásia e possui uma forte plataforma de gás e petróleo que lhes permitiu esquivar-se das balas ocidentais.

Por outro lado, em plena corrida para buscar novas alternativas ao abastecimento do gás russo, dias atrás, o chanceler alemão Olaf Scholz recebeu o presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, para discutir a possível reativação da construção do o gasoduto Mid-Catalonia (MidCat), cuja rede de gás atravessaria a Península Ibérica ligando Espanha e França.

O projeto deste gasoduto ressuscitado foi concebido para redirecionar o gás argelino armazenado na Espanha para a França e, a partir desse último ponto, redistribuir o gás para outros países europeus, como a Alemanha. Sua construção havia sido paralisada devido aos custos.

No entanto, o governo francês não está convencido a participar deste projeto porque os números não batem. Primeiro, concluir a construção levaria muito tempo; segundo, o custo de construção seria muito alto; e, não menos importante, é que só poderia fornecer entre 2-2,5% do consumo de gás europeu.

Para além de todo este enquadramento, o Instituto Europeu de Estatística registrou uma inflação de 9% no mês de agosto, devido ao aumento dos preços dos produtos energéticos e alimentares.

Da mesma forma, a agência internacional de classificação de crédito Fitch Ratings publicou um relatório, “A crise do gás para empurrar a zona do euro para a recessão”, indicando que é provável que ocorra uma recessão na zona do euro como resultado do aprofundamento da crise do gás. Esse resultado aconteceria no restante do segundo semestre deste ano, com Alemanha e Itália experimentando declínios anuais em seu PIB até 2023.

Assim, a medida de teto de preço só funcionaria se outros estados, como Índia ou China, se envolvessem nessa rede ou cartel do G7, por serem grandes players na compra dessas commodities. O que não vai ocorrer. Caso o contrário, levaria o colapso geral das cadeias de suprimentos.

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